11 Março 2026
A guerra moderna já não distingue combatentes de civis; humanizá-la é ilusão, cancelá-la é a única ética possível diante do genocídio.
Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Virtudes de um mundo possível: hospitalidade: direito/dever de todos (Vozes).
Eis o artigo.
1.
A frase do título não é minha, é de Bertand Russell e de Albert Einstein em seu manifesto de 9 de julho de 1955 contra os perigos de uma guerra nuclear e pela paz. Esse é o grande anseio da humanidade, sempre frustrado e sempre de novo renovado. Sem essa utopia pela qual lutamos para que seja viável, não pode ser nunca abandonada, pois seria cinismo face às vítimas das guerras e deserção de qualquer sentido ético.
Toda guerra sacrifica milhares e até milhões de pessoas. Ela condena Caim que matou seu irmão Abel.
Max Born, prêmio Nobel de física (1954), denunciou a prevalência da matança de civis na guerra moderna. Na primeira guerra mundial morriam só 5% de civis, na segunda guerra, 50%, na guerra da Coreia e do Vietnã 85%. E dados recentes davam conta de que contra o Iraque e a ex-Iugoslávia 98% das vítimas eram civis. O mesmo está ocorrendo na guerra de Bemjamin Netanhyau contra os palestinos da Faixa de Gaza. Mais de 18 mil eram crianças que nada tinham a ver com a guerra foram sacrificadas.
Não basta ser pela paz. Temos que estar contra a guerra. Toda guerra, em si, mata vidas de outros, nossos semelhantes. Caim não pode triunfar. O fenômeno da guerra apresenta-se tão complexo que nenhuma resposta o explica ou é suficiente. Isso não nos dispensa de pensar sobre o fato da guerra e suas perversas consequências humanas e materiais.
Por exemplo, se um país é agredido por outro, o que fazer? Tem direito de se defender com forças defensivas? Há proporcionalidade? Como devem se comportar os governantes dos povos que assistem o genocídio a céu aberto como na Faixa de Gaza? Ou diante da limpeza étnica de minorias aplicada na ex-Iugoslávia, no Kosovo e na Bósnia por soldados sanguinários que ainda violavam sistematicamente direitos humanos básicos.
Vale alegar o princípio da não intervenção em assuntos internos de Estados soberanos e assistir, passivos, a crimes contra a humanidade? Qual é o limite da soberania? É absoluta? Está acima do humano que pode ser sacrificado?
Como reagir ao fenômeno difuso do terrorismo que, eventualmente, pode ter acesso a materiais atômicos, ameaçar toda uma cidade, pondo-a de joelhos. E se for lançada, inviabilizaria toda a cidade por causa da radioatividade. Contra isso é legítima uma guerra preventiva?
2.
São questões éticas que ocupam mentes e corações nos dias atuais. Para não desesperar temos que pensar. No mundo inteiro, dada a estratégia do atual presidente dos EUA, Donald Trump, que disse e esta realizando, a paz se fará não pelo diálogo, mas pela força. Jamais seria paz, mas pacificação forçada e imposta. É discurso recorrente em todos os presidentes, inclusive com Barack Obama afirmar que os EUA tem interesses globais e podem intervir quando estes são ameaçados, usando até a força.
Face a estes problemas referidos, apresentam-se várias opções.
Um grupo numeroso sustenta a tese: dada a capacidade devastadora da guerra moderna com armas químicas, biológicas e nucleares que poderiam comprometer o futuro da espécie e toda a biosfera, não há mais nenhuma guerra justa (ius ad bellum). A vida em suas várias formas está acima de tudo.
Outro grupo afirma: pode haver guerra justa, a “intervenção humanitária”, mas limitada para impedir o etnocídio e crimes de lesa-humanidade.
Outro grupo, representando o establishment global, reafirma: há que se resgatar a guerra justa como autodefesa, como punição de países do “eixo do mal” e como prevenção de ataques com armas de destruição em massa.
Façamos um juízo ético sobre estas posições: nas condições atuais toda guerra representa altíssimo risco, pois dispomos da máquina de morte, capaz de destruir a humanidade e a biosfera. A guerra é meio injusto, por ser globalmente letal.
Dentro de uma política realista, uma “intervenção humanitária” limitada é teoricamente justificável, sob duas condições: não pode ser decidida por um país singular, mas pela comunidade das nações (ONU) e deve respeitar dois princípios básicos (ius in bello = os direitos no curso da guerra): a imunidade da população civil e a adequação dos meios (não podem causar mais danos que benefícios).
A força empregada como autodefesa não a torna boa, mas se justifica dentro da estrita adequação dos meios. A guerra de punição, como contra o Afeganistão e contra o sul do Líbano onde atua o Hamas, se baseia na vingança e não é defensável. Só alimenta raiva e ressentimentos, caldo de futuros conflitos.
A guerra preventiva, contra o Iraque na suposição falsa de possuir armas de destruição em massa, era ilegítima porque se baseava em falsas análises e sobre o que ainda não era e poderia não acontecer. Nenhum direito, de qualquer natureza, lhe concede legitimidade por ser subjetiva e arbitrária.
Tudo isso vale teoricamente, pois importa clarear posições. Praticamente, porém, se mostrou que todas as guerras, mesmo a de “intervenção humanitária”, não observam os dois critérios, da imunidade da população civil e da adequação dos meios. Não se faz distinção entre combatentes e não combatentes.
Para enfraquecer o inimigo destrói-se sua infraestrutura, com muitas mortes de inocentes e de civis. As consequências da guerra perduram por anos como no caso do urânio empobrecido, usado pelo exército norte-americano, causando enfermidades para todo um grupo afetado.
A guerra não é solução para nenhum problema. Devemos buscar um novo paradigma, à luz de São Francisco de Assis, de Leon Tolstói, de Gandhi e de Luther King Jr, se não quisermos nos destruir: a paz como meta e como método. Se queres a paz, prepara a paz.
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