Clara Marighella (1925-2025) – Centenário de luz e coragem. Artigo de Frei Betto

Foto: Editora UNESP/Divulgação | Agência Brasil

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04 Novembro 2025

"Clara viveu a história por dentro, mas sem jamais buscar o palco. Foi testemunha da perseguição, do exílio, da solidão imposta a quem amou - um homem tornado símbolo de insurgência revolucionária. Enquanto o nome de Marighella era caçado, difamado, proibido, ela guardava o seu com serenidade e firmeza, sustentando a memória e a esperança, tecendo com gestos miúdos a grandeza cotidiana da resistência", escreve Frei Betto, escritor e autor de ”Batismo de Sangue" (Rocco), entre outros livros.

Eis o artigo.

Na véspera do dia em que o Brasil comemora o assassinato de Carlos Marighella, tombado em 4 de novembro de 1969 pela ditadura militar, parte Clara, sua companheira de vida e de lutas, aos 100 anos. É como se o tempo, cúmplice do afeto, a tivesse esperado completar o ciclo inteiro - um século de resistência e dignidade - para que, enfim, os dois voltassem a se encontrar além dos riscos e da ausência.

Clara viveu a história por dentro, mas sem jamais buscar o palco. Foi testemunha da perseguição, do exílio, da solidão imposta a quem amou - um homem tornado símbolo de insurgência revolucionária. Enquanto o nome de Marighella era caçado, difamado, proibido, ela guardava o seu com serenidade e firmeza, sustentando a memória e a esperança, tecendo com gestos miúdos a grandeza cotidiana da resistência.

 

Ativista morreu aos 100 anos. (Foto: Reprodução)

Ser mulher de um revolucionário é, muitas vezes, ser silenciada pela narrativa dos heróis. Mas Clara não coube nesse silêncio. Fez da vida um território de cuidado e, da lembrança, um ato político. No corpo frágil e na voz doce morava uma força que não se media em armas, mas em fidelidade à justiça. Ao longo das décadas, acolheu jovens, militantes, artistas e pesquisadores que buscavam entender o Brasil profundo que Marighella sonhou - e que ela, sem alarde, continuou a cultivar.

Sua transvivenciação, na véspera do martírio do companheiro, não é acaso: é gesto poético da história. Dois corpos que o poder tentou separar se reencontram agora no tempo da liberdade infinda. Clara atravessou cem anos de perseguições e esperanças, exílios e terror de Estado, carregando a chama acesa de um país por vir.

Seu nome se junta ao de Marighella não como sombra, mas como claridade - porque, graças a Clara, Marighella enfrentou a luta estimulado por uma companheira sensível e lúcida.

Clara Charf e Carlos Marighella, líder guerrilheiro e ativista político. (Foto: Reprodução)

Hoje o Brasil despede-se dessa mulher que não empunhou fuzis, mas manteve viva a chama que ilumina utopias. Tomara que sua passagem inspire novas gerações a compreender que a revolução começa no coração, na ternura, na coragem de não se calar, na fé teimosa no amor e na justiça.

Clara Marighella partiu, mas deixa um rastro de sol. Morreu centenária, vitoriosa, com o mesmo olhar sereno de quem nunca deixou de acreditar que o mundo pode ser melhor. Ao lado de Carlos, continua a sussurrar à história: “Nada apaga o que é feito por amor e liberdade.”

 

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