29 Agosto 2025
"Ciro é mais um caso de repetição do triunfo da misoginia na política ou da política misógina no Brasil?"
O artigo é de Ivânia Vieira.
Ivânia Vieira jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Processos Socioculturais da Amazônia, articulista do jornal A Crítica de Manaus, cofundadora do Fórum de Mulheres Afro-ameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).
Eis o artigo.
É tragicômica a história do ex-governador do Ceará e do ex-candidato à presidência da República Ciro Gomes. De volta à cena pública às vésperas das eleições presidenciais, em negociação para filiar-se ao PSDB, o candidatável recorre mais uma vez à misoginia como parte das estratégias orientadas em busca da maximização da visibilidade e do engajamento.
E conseguiu. Ciro Gomes (PDT) voltou a ser pautado. Em uma festa de aniversário do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Claudio (União Brasil), no dia 15, disse que a prefeita de Crateús, Janaína Barbosa (PT), atuava como “recrutadora sexual de moças pobres” a mando do ministro da Educação, Camilo Santana (PT), de acordo com a Carta Capital.
É a segunda vez que Janaína é agredida pelo pedetista. Na primeira, classificou-a de “assessora de assuntos de cama”, foi condenado a pagar R$ 52 mil pelo crime de violência política de gênero.
Ciro recorre a todos os métodos que possam gerar adesão de parcela do eleitorado bolsonarista e de setores da direita radical. Nessa corrida, torna cada vez mais transparente uma condição de transtorno, a personalidade violenta, machista e misógina. Não agride somente uma mulher — pelo que deve ser processado e, aguardamos, condenado pedagogicamente a cada ato. Todas as mulheres são agredidas por ele e, desta maneira, demonstra em qual campo transita ideologicamente e a visão que tem sobre a presença de mulheres em espaços de poder.
É um homem que anda para trás no fazer política, apequenando-a. Revela-se completamente adaptado ao vale-tudo para ser viabilizado como candidato. Repete um tipo de pensamento retrógrado e sexista sobre o lugar da mulher na sociedade e na política. Talvez, em pouco tempo, revele que se tornou adepto à tese de um grupo de pastores que defende “o voto do homem” como expressão do voto de toda a família. Dito de outra maneira, significa impedir o direito ao voto pelas mulheres, a maioria do eleitorado brasileiro.
A anulação viria por um movimento que prega o afastamento da eleitora do processo de votação e promove o desinteresse da mulher e dos idosos nas eleições. Os idosos são outro segmento do eleitorado que cresce no Brasil. O voto de pessoas com mais de 60 anos corresponde a 21% do total de eleitores (TSE, 2022).
O trágico e o cômico não produzem apenas gargalhadas. Também nos machucam e nos fazem chorar de dor.
Não se trata de erro ou descuido por parte de Ciro em suas falas misóginas. Ele sabe o que diz e o que faz, tem conhecimento dos indicadores que revelam o perfil da sociedade brasileira, conservadora e inclinada a aceitar como natural a violência contra a mulher. Por isso, o país é o quinto no mundo em número de mulheres assassinadas. Ciro é mais um caso de repetição do triunfo da misoginia na política ou da política misógina no Brasil?
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