“Estou pronto para trabalhar com a política e a sociedade civil”. Entrevista com Roberto Repole, novo arcebispo de Turim

Roberto Repole (Fonte: Wikimedia Commons)

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31 Mai 2022

 

Apenas duas semanas depois de tomar posse como arcebispo de Turim, Dom Roberto Repole voou para Roma para eleger seu novo líder, o presidente da Conferência Episcopal Italiana.

 

“A nomeação do cardeal Matteo Maria Zuppi projeta a Igreja italiana em um diálogo aberto com todos, sem temores, mas também sem perda de identidade.”

 

O pastor teólogo retornará ao Piemonte no fim da sua primeira assembleia da Conferência Episcopal com uma injeção de mais energia “para escutar o que o Espírito – também através do povo – indica e trabalhar junto com a sociedade civil e com a política” pelo bem da cidade e da diocese. Com uma prioridade: “Os jovens, que devem ser colocados novamente no centro dos projetos em todos os âmbitos”.

 

A reportagem é de Domenico Agasso, publicada em La Stampa, 26-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

 

Que significado tem a nomeação de Zuppi para a Igreja e a sociedade italianas?

 

Prepara a Igreja para um diálogo e um debate abertos com quem quer que seja, sem medos, mas também sem correr o risco de esquecer a identidade.

 

O que você vai colocar na sua “bagagem” quando voltar para a missão recém-iniciada como arcebispo?

 

A convicção ainda mais profunda de não estar sozinho, mas em comunhão com padres, diáconos, religiosas, religiosos e leigos, com os quais, todos juntos, devemos seguir o que o Espírito está nos dizendo para viver o Evangelho e para poder transmiti-lo. Isso significará fazer escolhas, que serão tão mais autênticas e benéficas quanto mais nos colocarmos à escuta do Espírito e das pessoas.

 

Como foi o impacto com o novo cargo?

 

Deu-me um grande senso de gratidão, porque descobri muitíssimas pessoas que me querem bem, que me demonstraram isso junto com a sua estima. Também vi uma comunidade cristã que aproveita esta oportunidade para mostrar a alegria de caminhar juntos. E está me dando o gosto de algumas dimensões de mim mesmo que no ministério anterior eu tinha que manter menos expostas e que agora podem ser explicitadas: cuidar das pessoas, a “paternidade”, sentir a responsabilidade para com as comunidades e as pessoas.

 

Como você vê Turim a partir da cátedra de São Máximo?

 

Em estado de mutação: era uma cidade industrial, hoje está se transformando em outra coisa, com possíveis evoluções muito bonitas em nível social. Penso, por exemplo, no modo como, nestes anos, a dimensão artística foi reavaliada. E noto também belas potencialidades cívicas: se conseguirmos trabalhar junto com a sociedade civil, como eu espero e como eu penso, poderemos sobretudo dar espaço de modo real e não retórico aos jovens, colocando-os novamente no centro dos diversos projetos em todos os âmbitos.

 

Dialogar com o mundo significa também um debate com a política: a Igreja é chamada a isso em uma época de grandes mudanças do ponto de vista social?

 

Sim. Mas só pode haver diálogo se a identidade dos cristãos e da Igreja for clara para nós.

 

Em que sentido?

 

Um diálogo na ausência de identidade não é um verdadeiro diálogo. Para a Igreja, a identidade é a comunidade dos discípulos de Jesus Cristo: assim ela pode ser uma força profética também em relação às grandes decisões sociais e políticas que devem ser tomadas. Muitas vezes, um dos perigos que corremos é imaginar que a fé é apenas algo privatista, individualista.

 

E o que é?

 

É um ato pessoal, mas tem incidências no modo de vida e também de governo. Por exemplo, organizar uma sociedade a partir da defesa dos mais fracos, dos direitos de quem não os tem, dos princípios da não violência, da paz, do respeito à criação é uma modalidade de pensar também cristãmente a convivência civil.

 

Zuppi é a pessoa certa para liderar a Igreja também nesse aspecto?

 

Sim, e ele já provou que sabe fazer isso. E, ao mesmo tempo, poderá ser na medida em que envolverá – como eu acho que é a sua intenção – os carismas de todos os outros bispos e Igrejas.

 

Como presidente da Conferência Episcopal Italiana, ele imediatamente indicou a “sinodalidade” como palavra-chave: representa também a urgência de reforçar ou recriar a relação entre o clero e os leigos?

 

Sim. A sua ênfase diz que estamos em um tempo em que não só está se desenvolvendo um caminho sinodal da Igreja italiana, mas também no qual se sente que a corresponsabilidade, ainda que diferenciada, entre clero, religiosas, religiosos e leigos é um dos recursos que temos para responder aos grandes desafios do mundo atual fortemente secularizado.

 

Zuppi passou das periferias de Roma para a Via Aurelia: o que representa a história de um padre de rua que se torna guia dos bispos?

 

Quando o Evangelho é vivido até o fim, ele não nos aliena da cotidianidade e, portanto, dos sofrimentos, das fadigas, das pobrezas dos homens e mulheres, pelo contrário, é capaz de capacitar mulheres e homens para cuidarem dos necessitados. Não só das necessidades, mas dos necessitados.

 

É uma revolução de imagem e substância?

 

Mais do que uma revolução, é a oportunidade de uma exportação de imagem e substância.

 

Em que sentido?

 

Olhando para a vida de muitas comunidades cristãs, há inúmeros limites, defeitos, ações não evangélicas. Mas isso não deve obscurecer o grande bem e a solidariedade que muitíssimos cristãos propagam normalmente em relação aos últimos. Agora temos a oportunidade de demonstrar que, em muitas realidades, a Igreja já pratica essa atitude de amor ao próximo e podemos potencializá-la ainda mais manifestando ainda mais atenção a todas as “feridas” de homens e mulheres, sofrimentos que podem ser de natureza material e econômica ou espiritual, sobretudo devido à frequente desorientação diante do sentido da vida.

 

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