Martini: entrevista em roda aberta

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18 Outubro 2008

“O que o senhor perguntaria a Jesus, se tivesse a possibilidade de fazê-lo?”, pergunta secamente o entrevistador. Resposta: “Perguntar-lhe-ia se me ama apesar de eu ser tão débil e de ter cometido tantos erros. Eu sei que Ele me ama. Mas gostaria de ouvir isso dEle, mais uma vez. Perguntar-lhe-ia também se virá me buscar na hora da morte e se me acolherá. Pedir-lhe-ia que me mande, nas horas difíceis do abandono ou da morte, alguns anjos, alguns santos ou alguns amigos que me ajudassem a superar o medo.”

Essa é uma das primeiras partes do colóquio entre o cardeal Carlo Maria Martini e o jesuíta austríaco Georg Sporschill, que será publicado na Itália no fim de novembro pela editora Mondadori, mas que, em Frankfurt, já está presente na edição original, em alemão, da editora Herder Verlag (sob o título “Jerusalemer Nachtgespräche, über das Risiko des Glaubens”) e na versão em espanhol, da editora SanPablo (“Coloquios nocturnos en Jerusalén”).

A reportagem é de Andrea Galli e publicada pelo jornal Avvenire, 17-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um livro-entrevista, explica Martini no prefácio, nascido do encontro, na Terra Santa, com o padre Sporschill, que lhe foi apresentado por uma amiga comum austríaca, e da vontade de ambos de colocar por escrito uma série de reflexões sobre o universo juvenil. Assim, entremeado por perguntas colocadas ao cardeal pelos jovens do padre Sporschill, o livro tem como destinatário último e explícito: eles próprios, os chamados “jovens de hoje”. Uma espécie de testamento espiritual do arcebispo emérito de Milão às novas gerações. “Testamento” entrelaçado por muitas lembranças. Da fé recebida em família, com as primeiras experiências fortes de pregação – “Não posso esquecer como pregavam durante a guerra...” – ao encontro com a Companhia de Jesus, ao Instituto Social em Turim, com os seus professores e prefeitos de alto nível humano e cultural – “Essas personalidades e seus dotes me atingiram profundamente” – até as lembranças dos “anos inesquecíveis”, transcorridos na diocese de Milão.

Além disso, o colóquio é pontuado por considerações em 360º, muitas das quais, compreensivelmente, irão dar o que falar. Considerações sobre a antiga relação com o Islã, por exemplo. “Reflito muito sobre o Islã. Freqüentemente falo sobre isso com Rula Jebreal, a filha de um imã da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém”, revela Martini, que reclama a necessidade do diálogo inter-religioso e de uma aproximação pragmática à questão. E diz que sim, se ainda estivesse na função de bispo, apoiaria a construção de uma mesquita, em caso de real necessidade, e talvez também a permissão de usar o véu na escola. Sobre a importância do confronto com o luteranismo: “MartinhoLutero foi um grande reformador... A Igreja Católica inspirou-se, no Concílio Vaticano II, também nas idéias de Lutero, colocando depois em marcha um processo de renovação”. Processo de renovação que, segundo o cardeal, estaria, ao contrário, conhecendo agora uma “involução”. Enfim – os temas tocados são muitos –, considerações pertinentes à esfera da sexualidade. Da oportunidade de rever, de qualquer forma, o celibato sacerdotal, à necessidade de superar as proibições da Humanae Vitae. Como? “O Papa provavelmente não retirará a encíclica, mas pode escrever uma nova e com isso ir além”, arrisca Martini.