Caio Prado Júnior. Discriminado no partido e na academia

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16 Setembro 2007

Nesse ano, celebra-se o centenário de Caio Prado Júnior (1907-1990), considerado um dos maiores historiadores brasileiro. Lincoln Secco, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em artigo para o Jornal da Usp, 10 a 16 de setembro de 2007, comenta que Caio Prado em função de sua origem de classe foi discriminado no partido e em função de sua opção política foi preterido na universidade.

Eis o artigo.

De tradicional família paulista, ex-aluno da faculdade de Direito de São Paulo (1924-1928) e jovem advogado na época da Revolução de 1930, ele chocou seus círculos familiares e de amizade ao aderir ao Partido Comunista do Brasil (PCB), um ano depois daquela revolução. Militante incansável, ele foi preso e perseguido várias vezes. Sua vocação para os estudos brasileiros, contudo, o inseriram no rol daqueles pensadores que eram tolerados devido à sua avantajada inteligência, apesar da opção política.

Com a fundação da USP, em 1934, Caio Prado Júnior se matriculou na seção de História e Geografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, onde se tornou companheiro de conversas e viagens dos geógrafos, especialmente de Pierre Monbeig e Pierre Defontaines. Participou da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB).

Claude Lévi-Strauss, professor da USP naquela época, em Tristes trópicos, forneceu um rápido e ácido retrato de Caio Prado Júnior nas páginas do seu livro. Embora ele não o nomeie, não há dúvida de que falava dele quando escreveu que toda aquela elite que freqüentava a USP se distribuía numa grande variedade de papéis sociais, não faltando mesmo o fato curioso “de ser o comunista encarnado pelo herdeiro rico do feudalismo local”.

Preso em 1935, afastado depois do Brasil, Caio Prado Júnior teve uma possível carreira universitária interrompida. Elegeu-se deputado estadual pelo PCB em 1947 e foi cassado no mesmo ano. Em 1954, por insistência de amigos, escreveu Diretrizes para uma política econômica brasileira, tese apresentada no concurso para a cadeira de Economia Política da Faculdade de Direito da USP. Obteve o título de livre-docente, mas não a cadeira de professor, por razões políticas. Na época ele já era um dos mais respeitados historiadores do Brasil.

Mesmo no seu partido, embora respeitado e ouvido, raramente tinha oportunidade de debater suas idéias. Os comunistas o viam como um corpo estranho no PCB, tolerado por ser um militante fiel e que evitava exibir divergências em público. Nos anos 50 ele era retratado no partido como um militante devotado à causa, mas sem perder seus “preconceitos e preferências de classe”.

Em 1968, animado por Sergio Buarque de Holanda, ele escreveu uma nova tese para concorrer à cátedra de História do Brasil da USP. O concurso foi, todavia, cancelado por razões políticas. Naquele ano, em contraste com a atitude do governo e dos órgãos superiores da Universidade, ele era reclamado em vários lugares para ser paraninfo de turmas de formandos e receber homenagens (incluindo na própria USP). Mas muitas atividades eram canceladas.

Em junho de 1968, por exemplo, Caio Prado Júnior receberia a homenagem do Centro de Estudos Históricos da Faculdade de Filosofia de Catanduva, por iniciativa de alguns professores e alunos, mas a Congregação da Faculdade, provavelmente pressionada por uma oposição interna e por “força externa”, proibiu a homenagem. Quando se preparava para ir à Paraíba, para ser paraninfo, foi indiciado em um Inquérito Policial-Militar (IPM) perante o Conselho Permanente de Justiça da 2ª Auditoria da 2ª região Militar, por ter dado uma entrevista à revista Revisão, dos alunos da USP supostamente defendendo a luta armada. Em 1971 foi preso novamente.

Somente em 1987 o Ministério de Estado e Tecnologia e o CNPq outorgaram-lhe o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia, na área de Ciências. Já gravemente adoecido, ele não compareceu à cerimônia. Acabou por falecer em 23 de novembro de 1990 na condição de maior historiador brasileiro. A história do Brasil era sua vocação. Mas não apenas a história dos livros. Especialmente a história vivida.