O evangelismo numa era de terror, homofobia e indiferença... Entrevista com o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby

Mais Lidos

  • Varsóvia e Gaza: 80 anos depois, dois guetos e o mesmo nazismo... e a mídia finge não ver o Terror de Estado de Netanyahu. Artigo de Luiz Cláudio Cunha

    LER MAIS
  • A 'facisfera' católica: jovens sacerdotes ultraconservadores que rezam no YouTube pela morte do Papa Francisco

    LER MAIS
  • A fé que ressurge do secularismo e do vírus. Artigo de Tomáš Halík

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

05 Abril 2016

O evangelismo numa era de terror, homofobia e indiferença... Entrevista com o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby

Entrevista de Ruth Mawhinney, publicada por Christian Today, em 31-03-2016.
Tradução de Isaque Gomes Correa.

Cerca de 25 crianças em idade escolar gritam animadas enquanto o Reverendíssimo e Muito Honorável Justin Welby, o 105º Arcebispo de Canterbury, primaz da Inglaterra, tenta se escapar de uma delas que comia uma torta de creme.

Eis uma visão ligeiramente incongruente para mim. O arcebispo, porém, mostra-se nem um pouco perturbado.

“Já passei por coisas muito piores do que esta antes”, brinca ele com o seu assessor de imprensa pouco antes de sua eventual captura. “Eu já levei banho de lodo... Então isso daqui é legal, se parece como um banho de espuma”.

Faz pouco mais de três anos desde que foi instalado como arcebispo, após uma escalada inesperada por entre as fileiras da hierarquia da Igreja da Inglaterra (ele era bispo de Durbham por pouco mais de um ano).

Em seu período de testes nestes três anos, houve mulheres ordenadas ao episcopado, um declínio no número de fiéis, ataques terroristas, escândalos de abuso sexual e a tarefa árdua de manter unida uma Comunhão Anglicana quando divisões em torno da sexualidade ameaçam transformar rachaduras em crateras.

Ele, pois, estaria perdoado por não ter feito grandes progressos nas prioridades que o próprio estabeleceu para si no começo de seu trabalho – a saber, o evangelismo, a reconciliação e a oração.

Welby vem da estável Holy Trinity Brompton – esta era a comunidade de fé que ele frequentou quando ainda trabalhava na indústria petrolífera, antes de seu chamado à ordenação –, então não é uma surpresa ser ele, de fato, um entusiasta do evangelismo. Talvez mais surpreendente seja que ele está fazendo avanços neste front.

Vivemos uma época de desconfiança generalizada com a religião, alimentada parcialmente por atos terríveis de violência perpetrados em nome de Deus. O relativismo – ideia segundo a qual “a sua verdade cai bem para você, mas eu seguirei a minha” – é o deus da era. Nisso há a própria Igreja da Inglaterra que, na consciência pública, vai deixou de ser exótica, simpática, talvez, para ser o lar mais ominoso de encobertamentos de abusos sexuais e de homofobia.

Tem tudo isso, além de uma atitude difundida dentro da Igreja da Inglaterra de que o evangelismo não é realmente necessário, ou que uma abordagem simples é tudo o que se precisa.

Justin Welby sabe bem destas coisas. Em uma palestra no Palácio de Lambeth no ano passado, ele brincou dizendo: “Quando apresentei a minha terceira prioridade, o evangelismo e o testemunho, imaginei alguns, talvez uma minoria, comemorando, enquanto outros iriam parar e olhar para o nada com uma cara de horror, pensando: ‘Aqui vamos nós novamente’”.

No entanto, apesar de tudo, alguma coisa parece estar acontecendo. As pessoas dentro da Igreja da Inglaterra descrevem uma mudança radical, um despertar, um novo ânimo para o evangelismo.

E isso não é pouca coisa dada a percepção de que, se nada for feito, a Igreja da Inglaterra irá cair num precipício em termos numéricos. Mas todas as pessoas com quem converso sobre isso descartam esta possibilidade, associando, com maior ou menor intensidade, à liderança de Justin Welby e John Sentamu.

O que o próprio Welby pensa que está por trás disso?

“Acho que são um monte de coisas”, diz ele. “Existem boas e más razões. Acho que, de algum modo, as pessoas reconhecem que o declínio no número de fiéis é uma questão grave. Mas essa é a razão negativa, pois você não evangeliza para evitar a sobrevivência da Igreja”.

Há algo inescapavelmente incompassivo com Welby: existe uma reação que eu não consigo bem dizer o que é – algo entre a irritação e o divertimento – quando lhe pergunto por sua opinião a respeito da salvação, por exemplo. Sim, trata-se de um tema sério, mas é também um pouco de perda de tempo discuti-lo.

“A minha opinião sobre a salvação encontra-se em João 3,16 [Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha vida eterna].

Podemos discutir sobre a punição eterna de consciência ou da aniquilação até que a vaca tussa. O que importa é que Deus deu todos os passos necessários para que os seres humanos tenham uma relação com Ele e esta é a boa nova do Evangelho. E se as pessoas deixam de lado isso, obviamente de algum modo que eu não digo entender por completo, então este assunto passa a ser realmente muito grave, o mais grave que qualquer ser humano poderia ter. Mas quem está salvo e quem não está reside no juízo de Deus e não no meu próprio juízo. E portanto quem Deus salva é uma questão d’Ele”.

Welby é também uma pessoa pragmática. Embora reflita profundamente e dê respostas elaboradas a perguntas sobre os problemas complexos que a Igreja enfrenta, o evangelismo em si é tratado de forma direta e franca por ele. Há uma grande confiança e entusiasmo na descrição das igrejas que ele tem visitado, comunidades onde muitas pessoas idosas estão se tornando cristãs, igrejas que criaram bancos de alimentos e que fazem um trabalho social comunitário... Será que precisamos de estratégias, sistemas e iniciativas para vermos este tipo de coisa acontecer?

Não. Precisamos é de oração, precisamos confiar em Deus e precisamos, isto sim, saber lidar com esta nova situação.

“Acho que nós estamos fazendo o que sempre fizemos de melhor, que é nos aproximar de Deus, servir as comunidades nas quais vivemos e buscamos abençoá-las mais fielmente, e que em nosso trabalho social, em nosso testemunho, em nosso evangelismo, evitamos todo o tipo de manipulação e trapaça e simplesmente apresentamos a realidade da bondade de Jesus Cristo através das nossas ações e palavras”, diz ele.

“Não existe um botão mágico que possamos apertar, ou uma varinha mágica que possamos usar e, de repente, dizer: bem, se você fizer estas seis coisas nesta ordem, a reputação da igreja irá, no nada, se transformar.

Somos chamados a sermos santos, somos chamados a sermos sofredores, somos chamados a servir e amar. Não há nada de novo aqui. O que é novidade é quando alguma igreja faz esse tipo de coisa – se elas fazem de tempo em tempo, as pessoas realmente a enxergam, e mesmo se elas discordam, elas ficam marcadas.

Mas e quanto algumas das grandes questões religiosas que estão sendo colocadas no mundo neste exato momento? Aqui estamos conversando no dia após os ataques a Bruxelas, um momento de hostilidade aumentada para com a comunidade islâmica. A hashtag #StopIslam estava nos trending topics do Twitter durante a entrevista. Esse é um problema nosso? Sim. Welby pensa que nós temos a responsibilidade de “demonstrar hospitalidade aos líderes islâmicos que vêm, eles próprios, assumindo riscos e que estão sofrendo ameaças muito graves quando se põem contra os ataques a Bruxelas.

“Em segundo lugar, eu acho que nós temos a responsabilidade de fazer parte do processo de desenvolvimento de uma narrativa que seja mais atraente dentro da nossa sociedade do que a narrativa pervertida, cruel e selvagem que leva, em particular, os jovens, mas também as jovens, para dentro de grupos extremistas.

A hostilidade a todos os muçulmanos porque eles são muçulmanos – embora discordemos como cristãos da teologia deles – é um modo de se comportar profundamente anticristão e errado”.

Será que esta situação torna as coisas um pouco mais difíceis para a fé?

“Sim. Acho que sim. Para os que não possuem religião, isso simplesmente parece confirmar a ideia falsa de que todas as crenças conduzem à guerra. Na verdade, guerra e violência, dominação, selvageria, crueldade são coisas inerentes no caráter do ser humano, elas são parte da humanidade caída, são parte da nossa pecaminosidade e são comuns a todos os seres humanos. O que Jesus faz é mudar e transformar isso quando o seguimos com fé”.

Welby reconhece também a falta de confiança na religião organizada, cujas razões vão muito além do terrorismo.

“Ah sim. Penso que estamos vivendo numa era – bem, como sabemos é um cliché dizer que estamos numa era em que todas as instituições carecem de confiança. Sabemos disso”.

Existe uma percepção generalizada do lado de fora da igreja de que a sua atitude oficial para com a homossexualidade é uma manifestação de um preconceito que leva à opressão. Do lado de fora dos círculos religiosos é quase inconcebível que possamos ter uma objeção moral a alguém manter uma relação monogâmica com uma pessoa do mesmo sexo. Esta questão é inescapável a importantes líderes anglicanos e, indubitavelmente, torna o evangelismo mais difícil. Então, como a igreja explica o entendimento tradicional sobre a sexualidade e, ao mesmo tempo, convence não cristãos de que ela não é homofóbica? É possível reconciliar as duas coisas?

“Se houvesse uma resposta simples a essa pergunta, alguém que é mais inteligente que eu já a teria descoberto”.

A abordagem de Welby é, em primeiro lugar, conversar sobre a homofobia, reconhecer a sua existência dentro da igreja. “É claro que existem partes da igreja que foram historicamente e ainda são homofóbicas, e isso está profundamente enraizado em alguns ambientes. A igreja precisa demonstrar a sua tristeza por este fato”.

“Eu odeio a homofobia. Acho incompreensível que as pessoas se sintam daquela forma com as pessoas LGBTs. Fico sempre envergonhado quando encontro alguém assim”.

Ele salienta que a maior causa para a autonegação ou mesmo possivelmente do suicídio entre os jovens é a própria sexualidade. Mas existem outras partes da Comunhão Anglicana onde os diálogos sobre a homossexualidade são muito mais difíceis. Em Uganda, um país extremamente conservador, o parlamento aprovou um projeto de lei em 2013 – então declarado inválido segundo a Constituição – que impunha prisão perpétua por “delitos” homossexuais. Numa versão anterior, a punição era a pena de morte. O arcebispo de Uganda foi o único a se retirar do Encontro dos Primazes, em janeiro deste ano, fazendo isso em protesto por causa da aceitação da Igreja Episcopal dos EUA para com os relacionamentos homoafetivas.

Não obstante, Welby está animado pelas “Conversas Compartilhadas” que estão acontecendo dentro da Igreja da Inglaterra, nas quais grupos de 50 a 60 pessoas – alguns delas são LGBTs enquanto que outras, em princípio, não o são – se encontram para discutir e ouvir os pontos de vista umas das outras.

“O objetivo destes grupos não é, como pode parecer, converter o outro, mas capacitar-se a ouvir e ver o próximo como um ser humano e como um cristão companheiro.

O impacto disso tem sido realmente significativo entre os que participam. Houve uma mudança verdadeira, e eu acho que estas conversas compartilhadas, dizendo às pessoas que elas devem ouvir com respeito aqueles de quem discordam sobre a sexualidade, já são um passo para longe da homofobia. Não é simplesmente um processo em direção a uma ação. Em si, e por si, elas já são uma ação”.
O religioso não quis se comprometer dizendo aonde ele acha que esta iniciativa vai chegar.

“Eu sei que esta ideia tem de acabar em um lugar onde qualquer pessoa razoável que olhe para o que estamos dizendo e fazendo possa afirmar: ‘Isso não é homofobia, porém tem integridade’, mesmo se haja discordância. Eu não quero dizer o que penso neste momento, porque não desejo prejulgar o que vai acontecer no sínodo. Eu vou dizer o que penso no momento oportuno”.

Em todos os desafios que a Igreja da Inglaterra enfrenta concernentes ao evangelismo e tudo o mais que vem junto dele, existe um toque de leveza na forma como Welby os aborda.

Quando pergunto o que ele parece achar uma questão extraordinariamente estúpida sobre investir mais recursos na juventude e no trabalho junto às crianças “porque é aí quando as pessoas se tornam cristãs”, a máscara da seriedade sai de cena e ele começa a se divertir enormemente.

“Na verdade, isso é um chiché... Nos últimos 12 meses eu vi uma série de pessoas em idade mais avançada se tornando cristãs. É um mito. Se dissermos que essa ideia é definitiva, onde fica Deus então? Isso é ridículo! É claro que a maioria das pessoas se tornam cristãs no início da vida, mas muitas pessoas não, e não há motivos para pensarmos que essa aceitação se dê somente no início da juventude”.

É relevadora a sua reação ao meu deslize verbal aqui. Ele está brincando, mas ao mesmo tempo falando sério. E o que transparece aí é – num bom sentido – a escala de sua ambição.

“Hoje, a maioria das pessoas que se tornam cristãs assim o fazem na juventude, mas será que estamos satisfeitos com isso? Será que achamos ser esta a resposta certa? São Paulo era criança na estrada para Damasco? E os demais apóstolos? Será que Jesus disse: ‘Eu não vou me preocupar em chamar Pedro, ele já é adulto’. Estamos mesmo dizendo que queremos abandonar todos estes prédios que podem acolher centenas de pessoas porque não acreditamos que Deus está pronto a fazer acontecer um reavivamento?”

Welby faz uma pausa em seu discurso sorridente para tomar fôlego e dizer: “Ah, desista, pessoa de pouca fé!”

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O evangelismo numa era de terror, homofobia e indiferença... Entrevista com o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby - Instituto Humanitas Unisinos - IHU