Bancos estrangeiros aceleram saída da América Latina e instituições locais ganham força

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Abril 2016

Grandes bancos internacionais, sobretudo dos Estados Unidos e Europa, estão deixando a América Latina em ritmo acelerado, afirma um estudo de economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado nesta quinta-feira. Sem novos entrantes de peso, instituições financeiras de países como Brasil e Colômbia vêm ampliando a presença em outros mercados da região.

A reportagem é de Altamiro Silva Junior, publicada por O Estado de S. Paulo, 31-03-2016.

Bancos como o espanhol Santander, os franceses Crédit Agricole e BNP Paribas, o alemão Deutsche Bank, o inglês HSBC e o norte-americano Citigroup tomaram iniciativas de reduzir a exposição em países da região ou sair de vez de alguns mercados, destaca o relatório. No Brasil, o Citi colocou suas operações de varejo para pessoa física à venda e o HSBC foi comprado pelo Bradesco.

Esse movimento de saída de bancos internacionais se intensificou nos anos que se seguiram à crise financeira mundial de 2008. Após grandes bancos quebrarem e outros precisarem de socorro financeiro emergencial, os governos da Europa, Estados Unidos e outros países apertaram as exigências de capital e a regulação para os bancos. Para se adequarem, essas instituições, muitas fragilizadas em seus próprios mercados domésticos, começaram a reduzir operações no exterior e a vender negócios não essenciais, ressalta o FMI.

"Nenhum grande banco europeu ou norte-americano entrou no mercado latino-americano para ocupar o lugar dos que saíram, o que resultou na consolidação crescente dos sistemas bancários domésticos em muitos países", afirma os autores do estudo, Charles Enoch, Mohamed Norat e Diva Singh. Por isso, o FMI destaca que bancos de países como Brasil e Colômbia estão ampliando a atuação regional.

No caso brasileiro, o relatório cita o Itaú, que sozinho tem mais ativos que quase "todo o sistema bancário do México", e tem perseguido uma estratégia de regionalização, seja por fusões e aquisições ou outros investimentos em países como Chile, Colômbia e México. O BTG também tem buscado se tornar um banco de investimento regional, ressalta o estudo.

Já na Colômbia, o grupo financeiro Aval comprou as operações do espanhol BBVA no Panamá e o Bancolombia comprou os negócios do HSBC. "Bancos regionais podem ocupar o papel deixado pela saída dos bancos estrangeiros", afirma o estudo. Ao mesmo tempo, o documento ressalta que o mercado brasileiro, com grandes bancos públicos e privados, é de difícil entrada para outra instituição regional.

O movimento recente de saída de bancos estrangeiros da América Latina se contrasta com o período que começou nos anos 90, quando os bancos estrangeiros começaram a aumentar a exposição na região, muitas vezes incentivadas pelos governos locais, que viam na chegada de grandes bancos da Europa e dos EUA uma forma de reforçar os mercados financeiros domésticos, abalados por uma sucessão de crises nos anos 80 e 90.

Integração. Para o FMI, os governos de países da América Latina devem buscar ampliar a integração financeira da região. A região é menos integrada que outras áreas do planeta e, entre medidas sugeridas pelo relatório, o Brasil deveria permitir a venda de bônus de empresas da região e de países vizinhos em seu mercado doméstico. A avaliação do FMI é que o fim do superciclo das commodities e o rebalanceamento da economia chinesa "produziram uma forte desaceleração do crescimento na maior parte da América Latina" nos últimos anos, além de problemas domésticos de alguns mercados. Essa mudança mostra a necessidade de "identificar caminhos novos e alternativos para o crescimento". Isso exige capital novo e mercados financeiros profundos, ressalta o documento.

"É evidente que os países latino-americanos terão de estudar uma mudança de estratégia para continuar a desenvolver seus mercados financeiros", afirmam os autores do estudo, Charles Enoch, Mohamed Norat e Diva Singh, destacando que pode ter chegado a hora de os governos repensarem a estratégia regional de integração.

Uma maior integração financeira na região seria positiva por diversos fatores, afirma o estudo, incluindo o aumento da diversificação do risco e maior concorrência em países onde a saída de bancos estrangeiros levou à ampliação da concentração bancária.

O FMI cita que há algumas iniciativas para aumentar a integração, mas é preciso avançar mais. Entre estas medidas, os países da Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru) lançaram o Mercado Integrado Latino-americano (Mila), com o objetivo final de unificar seus mercados de valores mobiliários. O relatório ressalta ainda que seria o momento oportuno para reanimar a antiga aliança do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) para a criação de um mercado comum entre seus membros, sobretudo agora que a Argentina tem um presidente que sinaliza disposição de mudanças.