"O iluminismo continua oferecendo uma arma contra o fanatismo"

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16 Dezembro 2015

O alvo dos ataques extremistas é o iluminismo. E a melhor defesa é o próprio iluminismo. "Por mais que seus valores estejam sendo atacados por elementos como os fundamentalistas americanos e o islamismo radical --e inclusive não tão radical--, isto é, pela religião organizada, o iluminismo continua sendo a força intelectual e cultural dominante no Ocidente. O iluminismo continua oferecendo uma arma contra o fanatismo." Estas palavras do historiador britânico Anthony Pagden, uma das vozes mais prestigiosas que ajudam a decifrar o mundo contemporâneo, chegam em um momento em que algumas forças insistem em dinamitar a herança do Século das Luzes.

A reportagem é de Winston Manrique Sabogal, publicada por El País, 16-12-2016.

O planeta se transformou em um campo minado de medos. O penúltimo objetivo foi há um mês, de novo, Paris, a cidade que viu nascer o projeto de modernidade mais importante do mundo ocidental: o iluminismo. Os atentados de 13 de novembro, com um saldo de 130 mortos e 350 feridos, ocorreram menos de um ano depois do ataque, em 7 de janeiro, à sede da revista humorística "Charlie Hebdo", com 12 mortos.

As reflexões de Anthony Pagden, que fala com o "El País" por e-mail, são como uma "matrioska": de cada resposta surge outra pergunta. Professor de história e ciências políticas na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), depois de passar por Oxford, Cambridge e Harvard, Pagden é o autor de "The Enlightenment - And Why It Still Matters" (O iluminismo e por que ainda é importante, em tradução livre). É uma continuação de "O iluminismo e seus inimigos. Ensaios sobre a origem da modernidade". E complemento a seu imprescindível "Mundos em Guerra - 2.500 Anos de Conflito Entre o Ocidente e o Oriente".

Um mundo, segundo Pagden, onde "escapar da religião como uma forma de organização foi o passo verdadeiramente original da modernidade e do iluminismo. E isso não vai mudar". Como explicar os valores do iluminismo aos que não creem nele, além do papel essencial da razão como motor do desenvolvimento individual e coletivo?

"É um projeto importante e em incessante evolução. Proporciona uma imagem de um mundo capaz tanto de alcançar certo grau de universalidade quanto de libertar-se das restrições do tipo de normas morais interessadas oferecidas pelas comunidades religiosas e suas análogas ideologias laicas: o comunismo, o fascismo e, agora, inclusive, o comunitarismo", afirma Pagden. E acrescenta: "É importante porque situou o individual, o frágil, o mortal e o imperfeito no centro do cosmo. Sem o iluminismo, os avanços da civilização ocidental talvez tivessem sido não impossíveis, mas certamente muito lentos, desde a saúde até a internet".

O historiador não esquece algo que é comum a todos: "É o que hoje chamamos de empatia, a consciência da experiência humana compartilhada e, portanto, a possibilidade da existência de valores humanos comuns que não dependam de nenhuma fé religiosa".

Uma religião primitiva

Vários aspectos dessas crenças semearam, mais que paz, intranquilidade. "A religião tende a impedir o desenvolvimento do intelecto, da razão", opina o autor. "O islã é uma religião primitiva. Quero dizer que, à diferença do cristianismo, nunca foi obrigada a se adaptar às circunstâncias de um mundo laico moderno, o que na realidade é um conjunto muito simples de crenças e preceitos, na medida das necessidades de um povo tribal do século 7º. O islamismo nunca teve que se amoldar, como o cristianismo, aos valores do iluminismo. Isto não o torna intelectualmente inferior ao cristianismo, que também é bastante simples, ou ao judaísmo, mas sim muito mais agressivo quando se vê ameaçado pela modernidade", acrescenta.

Enquanto por um lado o iluminismo é atacado, por outro se pede que ele mobilize seus princípios de universalidade e cidadania diante da onda de migrações à Europa ou das ajudas ao resto do mundo. "A cidadania sempre esteve estreitamente ligada às nações", lembra Pagden. "Com os novos imigrantes que fluem à Europa do Oriente Médio e da África, o conceito de cidadania se tornou ainda mais restrito. Entretanto, sem as aspirações de universalismo que o iluminismo formulou e inspirou, e pelas quais foi difamado, não haveria cooperantes, nem Médicos Sem Fronteira, nem Tribunal Penal Internacional, nem Nações Unidas, nem existiria o conceito de direitos humanos e, em última instância, tampouco a União Europeia."

Nem tudo são luzes; também há sombras. O preço foi um mundo dividido entre Norte e Sul, cujo desequilíbrio em prosperidade e as guerras se atribuem à tentativa de impor os valores ocidentais. "A ironia é que, neste relato, os africanos e os índios, os sírios e os egípcios, foram privados por completo de qualquer capacidade de atuação própria e se transformaram nos instrumentos passivos das ideologias ocidentais e das tecnologias geradas em última instância pelo universalismo do iluminismo. É o que Finkielkraut chamou de etnocentrismo da má consciência do Ocidente", responde.

Tentativas de eclipsar um projeto prodigioso da humanidade, cuja crise está longe de ser superada, lamenta Pagden: "Como disse Kant, o iluminismo é um processo de contínuo devir. O erro de todas as religiões monoteístas é supor que tem de haver um fim imutável decretado por Deus. E não há. Mas, embora esse tipo de perfeição não exista, o progresso, certamente, existe".