Um papa que incomoda

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27 Julho 2015

O papa incomoda. Enquanto ele se limitava a criticar os comportamentos da Cúria, os católicos o aplaudiam. Mas quando, na encíclica Laudato si', ou na sua viagem à América Latina, denunciou uma "economia que mata" e um sistema que "continua negando a milhares de milhões de irmãos os direitos econômicos, sociais e culturais mais elementares", ele começa, aqui e ali, a provocar reações negativas. "Ele está exagerando", murmura-se em certos ambientes, especialmente nos EUA, onde ele é desdenhosamente apelidado de o "papa dos Pampas".

O comentário é de Isabelle de Gaulmyn, publicada no jornal La Croix, 24-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ataque fácil demais, que gostaria de atribuir tudo o que o seu discurso de forte às suas raízes. Em suma, esse papa estaria marcado demais pela sua América Latina de origem: algo que talvez seja bom para o subcontinente não pode ser adequado para o Ocidente, dizem, onde a realidade seria mais complexa, e as desigualdades sociais, menos fortes.

Francisco, como ele mesmo disse, não se afasta da mais clássica doutrina social da Igreja. Há tempos eles denuncia um liberalismo que, teoricamente, deveria se autorregular, há tempos ele afirma que, acima da propriedade privada, existe o direito a uma justa distribuição dos direitos universais e à dignidade de cada ser humano.

Certamente, a sua experiência pastoral em uma das megalópoles mais injustas do mundo dá a esse discurso uma força particular. Acima de tudo, esse papa que veio do Sul repete incessantemente que o mundo se tornou global: "A interdependência planetária requer respostas globais para os problemas locais", declarou ele na Bolívia. A Europa não está mais protegida dos dramas do mundo do que outras regiões geográficas, como a tragédia dos migrantes nos lembra todos os dias.

Nessa crítica, o Papa Francisco reconhece que a Igreja não tem o monopólio da verdade. Ele também repete que não se trata de fazer um discurso ideológico, mas de partir da condição real dos homens e das mulheres, da qual a Igreja de Cristo não pode fugir.

Afinal, em um mundo em que a economia pode se servir dos seres humanos e desfigurar do planeta, pedir uma conversão radical não é uma utopia. É apenas dar prova de realismo.