Irlanda: decisão da Igreja de não fazer campanha contrária ao casamento homoafetivo é o reconhecimento de uma nova realidade

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25 Mai 2015

Em 1987, os cidadãos da Irlanda responderam, via referendo, se queriam, ou não, que o divórcio se tornasse legal no país. A esmagadora maioria votou Não. Nenhuma surpresa aqui, dizia-se à época, já que este era o país mais católico da Europa. Hoje, não mais.

A reportagem é de Paul Vallely, publicada pelo jornal The Independent, 24-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Paul Vallely é professor visitante de ética pública na Universidade de Chester, no Reino Unido e autor de uma importante biografia do Papa Francisco intitulada Pope Francis: Untying the Knots. London: Bloomsbury, 2013. Em breve estará publicando o livro Pope Francis: The Struggle for the Soul of Catholicism.

A votação maciça a favor da legalização do casamento homoafetivo no território nacional demonstrou uma transformação – clara e profunda – pela qual a sociedade irlandesa passou em apenas uma geração.

Em menos de três décadas, a Igreja Católica perdeu o seu controle sobre os irlandeses. Deixando de ser uma das sociedades europeias mais conservadoras, a Irlanda se tornou o primeiro país no mundo a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo – uma das questões definidoras do mundo moderno – não a partir da legislação de uma elite parlamentar, e sim através de uma consulta popular.

A autodestruição da Igreja institucional foi espetacular. As revelações sobre a extensão dos casos de abuso sexual cometidos por sacerdotes predadores enfraqueceram a autoridade moral da hierarquia católica e derrubaram a coisa mais próxima que a Europa tinha de uma teocracia. Os culpados não eram apenas os sacerdotes pedófilos. Desnudaram-se escândalos com irmãos e irmãs consagrados à vida apostólica, muitos dos quais envolvidos em regimes de crueldade física e psicológica em escolas. Sem falar em casos de violência ocorridos em lares assistenciais e nas “Lavanderias de Madalena”, locais de moradia para mães solteiras e “mulheres caídas”.

Pior ainda foi quando se evidenciou que alguns bispos haviam abrigado, por décadas, estes sacerdotes e religiosos abusadores. Os regimes destas instituições abusadoras contavam com a aprovação da hierarquia eclesiástica. Muitas vezes estas instituições contavam com a aprovação de agentes inspetores do governo, mas – de forma reveladora – o Estado secular evitou, em grande parte, o opróbrio que acabou recaindo só sobre a Igreja. Isso sugere que algo mais estava acontecendo na Irlanda do que uma simples desilusão com o catolicismo por causa de abusos nutridos sob uma cultura clerical.

A Igreja Católica foi o elemento singular mais poderoso durante os primeiros 60 anos da República Irlandesa. Ela moldava a política governamental via pressão pública e consultas clandestinas, mas principalmente através da forma como definia as normas culturais, políticas e sociais da sociedade irlandesa. Durante décadas, a sua autoridade moral autoconfiante não foi contestada.

Vendo hoje, o ponto alto do seu poder foram uns poucos dias, em setembro de 1979, quando João Paulo II se tornou o primeiro papa a visitar a Irlanda. Na ocasião, 1 em cada 3 da população irlandesa se fez presente no Parque Fênix, em Dublin, para ver o papa rezar uma missa. Foi o maior encontro de irlandeses em um único lugar – e o pináculo da influência do catolicismo no Estado irlandês.

Porém, algo mais estava em jogo na sociedade irlandesa. Seis anos antes de o papa chegar, a Irlanda havia se unido à União Europeia, ganhando acesso a mercados muito maiores do que até então, quando o seu comércio se dava predominantemente com a Inglaterra. Isso, junto com um influxo advindo de investimentos estrangeiros, transformaram a Irlanda profundamente – de um dos países mais pobres na Europa para um dos mais ricos. A sua economia cresceu de maneira tão poderosa na década de 1990 que o país ficou conhecido como o “Tigre Celta”.

Com essa afluência, e com um envolvimento cada vez maior junto à Europa, ocorria uma mudança nas atitudes sociais. A emigração, que por tanto tempo foi norma na sociedade irlandesa, deixou de existir. Pessoas com talentos específicos, nascidas no país, não mais olhavam para o exterior em busca de melhores condições de vida, mas permaneciam aí mesmo e fomentaram uma transformação social. A revista The Economist considerou a Irlanda o melhor lugar do mundo para se viver. “O aumento da riqueza material parece ter expandido as mentes bem como as carteiras”, como disse um analista social irlandês. Na imaginação pública, o secularismo acabou se associando a benefícios da modernidade urbana, e a religião foi relegada a uma associação com a pobreza de um passado rural.

Vozes começaram a se levantar em público pela liberalização de leis sobre o uso de métodos contraceptivos, o divórcio e até mesmo o aborto. Se a paz chegou aos poucos e lentamente na Irlanda, a transformação social veio rápida. Suspenderam-se as restrições contra o emprego de métodos contraceptivos. Ainda que um referendo para a legalização do divórcio fora derrotado em 1986 com ampla vantagem, um outro foi aprovado em 1995. Descriminalizou-se a homossexualidade em 1993, 30 anos depois que o mesmo havia ocorrido na Inglaterra. Um distanciamento entre a Igreja e a sociedade começou a tomar forma, lenta e silenciosamente.

Foram, evidentemente, os sacerdotes pedófilos quem mais contribuiu para o desfalecimento desta relação. A frequência às missas de domingo, que era mais de 90% na década de 1970, estava em 34% em 2013. Dom Diarmuid Martin, arcebispo de Dublin, estima que, na capital, este número está em apenas 18%. Hoje, muitos na Irlanda se descrevem como “pós-católicos”. Segundo Michael Kelly, editor do jornal The Irish Catholic, estes são “funcionalmente ateus”.

Um impasse se deu entre o governo irlandês e a Igreja diante da negação dos (e da falta de ação contra os) casos de abuso no país – tanto por parte dos bispos locais como por Roma. O primeiro-ministro irlandês disse que uma investigação oficial estatal “expôs a disfunção, a desconexão, o elitismo e o narcisismo” presente no Vaticano. De forma dramática, Dublin rompeu as relações diplomáticas com a Santa Sé – situação que permaneceu por quase três anos.

Isso tudo explica por que Dom Diarmuid Martin decidiu que a Igreja Católica não lideraria a oposição no referendo ocorrido nessa sexta-feira (22). Ele votou Não no referendo, porém acrescentou: “Não quero, de forma alguma, impor goela abaixo as minhas opiniões religiosas às outras pessoas”.

O tom da retórica do arcebispo baixou extraordinariamente. “O casamento não tem a ver só com duas pessoas se apaixonando. É mais complexo do que isso”, disse o prelado. “O meu voto no Não não é um voto contra as pessoas gays ou lésbicas”. Com isso, o religioso atenuou um bispo que costumava usar uma linguagem mais animada e divisionista. No passado, a Igreja tratou os gays e as lésbicas de um “jeito severo e hostil”, disse Dom Diarmuid Martin, que deixou que a oposição ao casamento gay fosse liderada por grupos de leigos católicos.

No final das contas, as frases de efeito da campanha pelo Não – tal como “Dois homens não conseguem substituir o amor de mãe” – não foram o suficiente para deter as mudanças advindas de uma maré inexorável.