''Com o Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco reorienta a Igreja." Entrevista com Massimo Faggioli

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

18 Março 2015

A conclusão do segundo ano de pontificado do Papa Francisco se entrelaçou com o anúncio, surpreendente, do Jubileu extraordinário sobre a misericórdia. Como se insere esse evento na obra reformadora do Papa Francisco? Falamos a respeito com Massimo Faggioli, historiador da Igreja da University of St. Thomas, nos EUA.

A reportagem é de Pierluigi Mele, publicada por RaiNews, 14-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O Papa Francisco completa o seu segundo ano de pontificado com o anúncio da convocação do Jubileu extraordinário sobre a misericórdia. Para alguns observadores, esse evento vai marcar uma virada na Igreja contemporânea. Você concorda com isso?

Ainda não o sabemos, mas certamente é uma surpresa: um pontificado que Francisco diz que será breve, mas que ele programa no longo prazo. Certamente, é uma decisão que desloca boa parte da oposição contra ele: um instrumento velho como o Jubileu, mas usado para uma reorientação da Igreja.

A eclesiologia que está na base da obra do Papa Francisco é a do Concílio Vaticano II. No entanto, a meu ver, traz um enriquecimento teológico em comparação com o Concílio: ou seja, a história dos pobres e das periferias "existenciais". Nisso, se compreende a "Igreja hospital de campanha". É isso?

Eu diria que Francisco recupera núcleos do Concílio que não foram suficientemente desenvolvidos e recebidos, como o da Igreja dos pobres: os latino-americanos no Concílio esperavam mais desse tema. O primeiro papa latino-americano implementa o Concílio fazendo justiça a alguns esquecimentos do Concílio e do pós-Concílio.

Falemos desse biênio de pontificado. Um biênio intenso, em que a Igreja foi atravessada por uma forte dialética. Um grande apoio popular ao papa, mas também resistências fortes por parte da corte curial. O papa conseguirá minar as resistências? Onde se aninham as resistências fora da Cúria?

A escolha de convocar o Jubileu é genial, porque tira da Cúria Romana e das elites eclesiásticas em geral o poder de definir o sucesso do pontificado da misericórdia. O pontificado de Francisco está apontado para outras coisas e não pode ser tomado como refém por pequenos grupos de resistência à mudança.

Além da misericórdia, quais são as outras "palavras-chave" desse primeiro biênio de pontificado?

Pobres, alegria, periferias, idolatria.

Em uma entrevista a uma emissora mexicana, o papa fala da "duração" do seu pontificado, definindo-o como "breve". Qual foi a sua reação a essas palavras?

O papa não quer nos iludir sobre a duração do pontificado e não quer criar expectativas irrealistas. Certamente, em relação ao pontificado de João Paulo II, que para muitos é o comparativo do pontificado pós-conciliar, o de Francisco será mais breve. Mas também é uma forma para administrar de modo sagaz as resistências contra ele.

Você é italiano, mas ensina nos EUA. E está muito atento à Igreja italiana. Pergunto-lhe como essas duas Igrejas estão reagindo à obra de Francisco.

A Igreja italiana é muito mais dominada pelas instituições eclesiásticas (bispos, clero), que, na Itália, me parece mais desperta pelo efeito Francisco do que a norte-americana, em que a resistência se aninha em alguns círculos acadêmicos e intelectuais neoconservadores ou tradicionalistas – alguns dos quais chegam até a acusá-lo de heresia.

Última pergunta: o papa combate os clericalismos. Qual é a situação do laicado católico depois de dois anos de Papa Francisco?

Há algumas décadas a serem recuperadas: o laicado, em boa parte, se desacostumou de ter um papel ativo.