O combate à corrupção é arma antidesenvolvimentista

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04 Fevereiro 2015

"A grande imprensa, por exemplo, tem sido incapaz de mostrar que a aludida cifra não representa mais do que 1,1% do valor dos juros sobre a dívida pública que o governo paga anualmente e que vai engordar a riqueza dos bancos e dos investidores financeiros nacionais e estrangeiros", escreve Flavio Lyra, economista da escola da UNICAMP e ex-técnico do IPEA, em artigo.

Eis o artigo. 

A elite econômica brasileira e seus adeptos da classe média, conseguiram o feito notável de trazer para o centro das preocupações do país o tema moralista do combate à corrupção, relegando as questões sociais e do desenvolvimento econômico a um plano secundário e subordinado ao primeiro.

Fizeram-no devidamente apoiados e conduzidos pela grande imprensa nacional, contando sempre com as oportunas intervenções dos grandes órgãos da imprensa internacional, cuja tarefa primordial é defender a ideologia liberal sob a qual se escondem os interesses das grandes corporações internacionais que comandam o sistema capitalista.

Aproveitaram inteligentemente a campanha eleitoral para inocular na opinião pública a impressão de que o grande problema do Brasil é a corrupção e que os governos do PT são os grandes responsáveis por sua existência e propagação nos últimos tempos.

Com essa atitude têm procurado ofuscar os impactos positivos dos governos do PT em dois campos fundamentais para os destinos da sociedade brasileira: a melhoria das condições de vida dos segmentos mais pobres da população; e a reorientação da agenda da política econômica para o desenvolvimento econômico.

Não foram inteiramente bem sucedidos no que respeita ao primeiro aspecto, pois graças à mobilização popular, influenciada pelas políticas sociais dos governos do PT, não conseguiram eleger seu candidato à Presidência da República.

No que toca, porém, à questão da orientação da agenda da política econômica para questão do desenvolvimento econômico do país, conseguiram dois feitos notáveis: a) assumir o comando da política econômica do país e, assim, substituir a agenda das questões de desenvolvimento econômico e social pelas do equilíbrio macroeconômico de curto prazo, focado no ajuste fiscal e no aumento da taxa básica de juros; e b) trazer para o centro do debate na sociedade brasileira à questão da corrupção centrada no chamado escândalo da PETROBRAS, o que também repercute negativamente sobre a agenda de desenvolvimento do país.

A PETROBRAS e as maiores empreiteiras que lhe fornecem serviços participam dos projetos mais importantes de investimento em realização no país.

A ação da Polícia Federal e do Poder Judiciário na condução das investigações contra a corrupção provocaram uma crise de grande magnitude na gestão dessas empresas, prejudicando sensivelmente a atuação delas e de suas relações com outras empresas e com o mercado financeiro.

A elite econômica do país perdeu na eleição, mas está sendo amplamente vitoriosa na destruição e no debilitamento da estrutura econômica do país, tanto pelas mudanças realizadas na política econômica, quanto pelos prejuízos que tem causado às empresas executoras e aos vários projetos de investimento de grande importância para o desenvolvimento do país sob sua responsabilidade.

No caso da PETROBRAS merecem ser destacados pelos vultosos prejuízos que estão sofrendo: o projeto de exploração do Petróleo do Pre-sal; o de expansão da indústria naval (navios e plataformas); e vários outros projetos de produção de bens de capital destinados aumentar o conteúdo de produção nacional no abastecimento da demanda da Petrobras.

É notório que o prejuízo que a PETROBRAS deve ter tido com o sobre-preço pago às empreiteiras, estimado em R$ 4,5 bilhões em oito anos, jamais poderia ser suficiente para produzir os prejuízos incalculáveis que está acarretando ao desenvolvimento do país, não fosse a campanha sistemática contra a corrupção que tomou conta da sociedade brasileira.

A grande imprensa, por exemplo, tem sido incapaz de mostrar que a aludida cifra não representa mais do que 1,1% do valor dos juros sobre a dívida pública que o governo paga anualmente e que vai engordar a riqueza dos bancos e dos investidores financeiros nacionais e estrangeiros.

Só o aumento de 0,5 % da taxa Selic, que remunera a dívida pública, na última reunião do COPOM, deve representar em apenas um ano cerca de 4 vezes o prejuízo da PETROBRAS em oito anos.

Infelizmente, a sociedade não é informada sobre esses detalhes e pode assim ser manipulada contra seus reais interesses por uma elite econômica estúpida que, na defesa de seus privilégios e interesses de curto-prazo, propõem-se a desmoralizar os governos do PT, mesmo que às custas do desenvolvimento econômico do país.

Para essa elite, tais governos precisam ser desmoralizados, de modo a que não sigam cometendo as heresias de pretender reduzir as desigualdades sociais e de recuperar o poder de levar adiante uma política de desenvolvimento que fortaleça a posição do país no cenário internacional, contrariando os interesses hegemônicos das grandes potências e das corporações internacionais de que são representantes.

A ampla campanha anticorrupção que vêm conduzindo, portanto, cai como uma luva para essa elite, que já não tem qualquer compromisso com o interesse nacional, pois, há um só tempo, contribui para debilitar o governo e obrigá-lo a render-se à realização de uma política econômica descomprometida com os interesses populares, e impede levar adiante ações destinadas ao aumentar o grau de autonomia nacional frente aos interesses das grandes potências e das grandes corporações internacionais de que são representantes.

Eis, pois, o moralismo estúpido, a mentalidade policialesca, a pobreza de um judicialismo míope e uma imprensa mercenária, todos a serviço de uma elite econômica medíocre, dedicada à defesa de seus privilégios corporativos, que não consegue liderar um processo desenvolvimento que aproveite as grandes potencialidades do Brasil para beneficiar seu povo.

Tem-se, assim, um retrato sem retoques do capitalismo brasileiro na atual quadra.