Disputa pelo território: Movimentos sociais e resistência na Amazônia

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15 Mai 2014

"Historicamente, hoje mais do que nunca, a disputa pelo território na Amazônia tem se dado entre o Estado, apoiado por grandes empresas e políticos profissionais (geralmente envolvidos em atividades ilegais), todos com fortes interesses econômicos na região, e as comunidades tradicionais e indígenas que, estando do outro lado, participam desta disputa em imensa desvantagem", escreve Ana Laíde Soares Barbosa, em artigo publicado no sítio EcoDebate, 14-05-2014.

Eis o artigo.

Inseridos neste processo estão os movimentos sociais. Na atual etapa das lutas de resistência cabe a estes: reorganizar a forma de luta, adequando esta às novas frentes de desapropriação de territórios comunitários tradicionais e indígenas pelo Estado, Governo brasileiro e grupos econômicos aliados, como antes observado.

Em 2014 faz 50 anos que a resistência popular começou a se organizar contra um regime ditatorial – caracterizamos a mesma de resistência política. Nesse período avanços significativos foram conquistados: mudança de regime, eleição direta, etc., mesmo que uma das consequências tenha sido a de inúmeras vidas humanas desaparecidas, sangrando até a morte – porém tivemos a democracia conquistada. No auge da abertura democrática, que derrotou o regime autoritário, vivenciamos a democracia representativa. Quais efeitos isso trouxe para a resistência popular?

Entre outros resultados podemos observar: a transformação do povo em massa de manobra; o estado se apropriando das organizações tradicionais populares, terceirizando suas estruturas e transformando-as em extensão governamental – a partir daí estas passam a cuidar dos direitos beneficiários dos trabalhadores associados, preenchendo formulários e cadastrando atingidos – são mudanças de papel – porém muitos movimentos não se atentam para essa transformação; verifica-se também a conhecida cooptação das organizações e lideranças populares, tendo estas lideranças assumido papeis importante nos governos pós-ditadura.

Na década de 90 – quanto a democracia representativa vai se reajustando e se modelando ao estado – a resistência popular caminha buscando o bem viver. Literalmente o bem viver. As frentes de resistência buscam a defesa territorial. Emerge assim a resistência socioambiental/territorial. Desta vez sem os grandes movimentos e organizações sindicais – mas muito mais a partir das comunidades tradicionais locais.

As ameaças dos grandes projetos, explorando as riquezas minerais, vegetais e hídricas em territórios tradicionais, conduzem as comunidades ameaçadas a resistirem no territorio. E trazem formas e ferramentas atualizadas para a luta popular: 

A resistência silenciosa – parecem concordar com tudo, mas na primeira oportunidade recomeçam a reivindicar (não obedecem às placas, assinam documentos sem ter consideração pelo seu teor, etc.);

A resistência teimosa – estão presentes a inúmeras reuniões, mesmo quando o resultado é pra marcar a próxima reunião. Os pescadores da Volta Grande do Xingu participaram em 2013 de 10 reuniões com o governo – perguntado a um pescador o que o leva a participar de várias reuniões? Ele respondeu – pra pegar eles na mentira e se informar das coisas;

A resistência de enfrentamento – é aquela organizada pelos movimentos sociais, realizando ocupações de canteiros de obras, estradas, prédios, etc.

Quando os movimentos se questionavam por que o povo não participava das manifestações a resposta era simples – porque o povo estava passando fome. Mas o Lula “acabou” com a fome do povo dando a bolsa família, e o povo continuou a não participar das manifestações.

Os grandes projetos não apenas destroem o território, mas também a vida das pessoas, o povo perde sua identidade, a sua espiritualidade, sendo ele Amazônida, e povo das águas, os seres místicos são parte dessa identidade espiritual. É assim que as comunidades perdem seus entes místicos e seus líderes espirituais – no rio Xingu a cobra grande não está mais no lugar que ficava sempre, lá ela tem um nome – Regina – a mesma se mudou. Foi o que se conseguiu descobrir ao perguntar a um ribeirinho sobre esse ser mítico das águas amazônicas.

Com tudo isso, acreditamos que a barriga vazia não é o único empecilho para mobilizações de resistência das populações impactadas, mas a perda de identidade também é um dos fatores.

Na Amazônia, o território das comunidades indígenas e tradicionais é espaço de vida lazer, reprodução sociocultural, econômica – é o lugar de subsistência – rios, lagos, terra, floresta, água, argila, ouro, carvão vegetal, etc.

Para os outros a Amazônia é o Território-Pátria, ou seja, somente um lugar de exploração dos recursos naturais para desenvolvimento do País, utilizando para isso as leis, a força, inclusive a militar.

Amazônia para que, para quem? Para os conglomerados industriais (nacionais e internacionais) impulsionados pelo Estado? para o enriquecimento de alguns ou para o povo brasileiro, inclusive o Amazônida?