São João XXIII e São João Paulo II: acertando as contas com a modernidade

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

28 Abril 2014

Canonização dos papas ou santificação do papado? Conversamos a respeito com Daniele Menozzi, professor de história contemporânea da Scuola Normale de Pisa, estudioso do papado na idade moderna e contemporânea, autor de livros como Chiesa e diritti umani (2012), Chiesa, pace e guerra nel Novecento (2008), ambos publicados pela Mulino, e Giovanni Paolo II. Una transizione incompiuta? (Morcelliana, 2006), uma análise histórica do pontificado de João Paulo II.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada no jornal Il Manifesto, 26-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"A canonização dos papas da idade contemporânea, iniciada por Pio XII com a santificação de Pio X, já é uma linha consolidada da Santa Sé", explica Menozzi. "A concepção da teocracia medieval, para a qual o mero acesso ao trono de Pedro envolve a santidade de quem tem acesso a ele, se soldou nesse período, por um lado, com o processo de centralização romana, que levou à identificação da Igreja com quem a guia, e, por outro, com as dificuldades de presença do catolicismo no mundo moderno. Nesse contexto, a canonização de um papa quer oferecer à Igreja a garantia de que quem a guia se comportou, no mar tempestuoso da modernidade, de maneira tão adequada a ponto de encontrar o reconhecimento da bem-aventurança ultraterrena".

Eis a entrevista.

Quando João XXIII foi beatificado, Pio IX foi colocado ao seu lado: o papa do diálogo com o mundo moderno e o da condenação da modernidade. Agora, ele está junto de João Paulo II, o papa que redimensionou o Concílio Vaticano II. Como você interpreta essas escolhas?

Parece-me um modo de relativizar as posições inovadoras assumidas por Roncalli. Isolar a canonização de Roncalli implicava em atribuir um valor oficial à sua linha de governo. Colocá-la ao lado da de Wojtyla significa que ambas as posições são igualmente válidas. Mas não deve ser subestimado o caminho desses anos: colocar no mesmo plano Roncalli e Mastai Ferretti significava mostrar que a Igreja ainda não tinha decidido se devia continuar na posição de contraposição ou de diálogo com a modernidade. Colocar João XXIII ao lado de João Paulo II implica em mostrar que já estão em jogo apenas duas linhas de relação diferentes com a modernidade e, portanto, que o diálogo com o mundo moderno é irreversível.

Do ponto de vista histórico, o que representaram João XXIII e João Paulo II?

João XXIII abriu a Igreja para a superação da herança do intransigentismo dos séculos XIX-XX, mostrando que a presença da Igreja na história podia prescindir da perspectiva de reconstrução de uma sociedade cristã. João Paulo II elaborou um plano de intervenção sobre a sociedade que, embora abandonando a pretensão de uma orientação eclesiástica sobre todos os aspectos do consórcio civil, reivindicava ao magistério, no entanto, a tarefa de indicar alguns aspectos da organização da vida coletiva aos quais todos, sempre, como quer que seja e onde quer que seja, deveriam aderir. Para Roncalli, a Igreja podia entrar na história sem um projeto de cristandade; para Wojtyla, ela devia ser guiada por uma ótica de neocristandade.

Bergoglio fala de colegialidade e de sinodalidade, mas, também por causa do seu grande carisma, parece haver um retorno da papolatria. É uma espécie de heterogênese dos fins? Ou as intenções "democráticas" de Bergoglio não correspondem à realidade?

Parece-me indubitável que Bergoglio pretende alcançar uma maior colegialidade no governo da Igreja. Por outro lado, aparentemente, essa também era uma das condições que tornaram possível a sua eleição. Naturalmente, as modalidades com as quais a colegialidade pode ser realizada são múltiplas: por enquanto, assistiu-se a uma maior escuta das Igrejas locais e ao anúncio da atribuição de um papel doutrinal às Conferências episcopais. É possível que se chegue a reestruturações institucionais que formalizem essas aberturas a um efetivo governo colegial da Igreja. O fato, contudo, é que elas não implicarão na introdução de um regime democrático: a Igreja é um povo de Deus a caminho na história, mas é sempre um povo hierarquicamente ordenado.

Bergoglio está promovendo uma revolução?

É cedo demais para fazer julgamentos tão comprometedores. É certo que Bergoglio mudou em muitos aspectos a linha de Bento XVI, que, além disso, com a sua renúncia, reconheceu o seu fracasso. Será preciso esperar ainda para saber até onde chegará a mudança e, sobretudo, para saber se essa mudança estará alinhada com uma leitura evangélica dos sinais dos tempos.