Como estrangeiros: os judeus sob Hitler

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28 Março 2014

Um teólogo e exegeta protestante, conhecido professor de Novo Testamento, idealizador e curador de um importante dicionário (o Theologisches Wörterbuch zum Neuen Testament, que, na edição alemã, chegou a 10 volumes). E um pensador judeu de origem vienense, orgulhoso da sua identidade, talvez o mais famoso depois da morte de Hermann Cohen, também graças às suas obras sobre o hassidismo. Trata-se de Gerhard Kittel e Martin Buber.

A reportagem é de Marco Roncalli, publicada no jornal Avvenire, 25-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

São eles os protagonistas da disputa que se desdobrou entre julho e dezembro de 1933, sobre os judeus na Alemanha e o seu futuro: um debate reconstruído agora na sua completude por Gianfranco Bonola no livro La questione ebraica. I testi integrali di una polemica pubblica [A questão judaica. Os textos integrais de uma polêmica pública] (Ed. Dehoniane, Bolonha, 170 páginas).

Tudo começa quando Kittel enviou a Buber o seu Die Judenfrage, lançado em julho de 1933, pedindo-lhe um comentário público. Como sintetizou Emil L. Fackenheim no seu Un epitaffio per l’ebraismo tedesco [Um epitáfio para o judaísmo alemão] (Ed. Giuntina, 2007), "Kittel escrevera que, se os judeus, redefinidos pela revolução nazista como 'hóspedes', tivessem se comportado como pessoas 'de bem', viria o tempo em que seriam tratados como seres 'relativamente inferiores' e não mais como 'absolutamente inferiores'. Em poucas palavras: Kittel era um nazista. Buber respondeu publicamente, mas com tons gélidos...".

Foi justamente assim? Cada um encontra a sua resposta lendo, além da primeira edição do livro kitteliano, o primeiro comentário buberiano, a segunda edição do Die Judenfrage – revisada e acrescida de dois apêndices ("Resposta a Martin Buber" e "Igreja e judeu-cristãos") –, publicada em 1933 e republicada sem alterações em 1934, assim como a segunda réplica de Buber, além das reações, documentadas, de Rudolf Bultmann, Ernst Lohmeyer, Hans Philipp: todos os textos reunidos no volume editado por Bonola.

No centro das querelas, estão as condições de vida do ger, o estrangeiro que, na época bíblica, vivia no meio do povo de Israel, consideradas paradigmáticas para estabelecer a atitude cristã para com os judeus que, naquele período, tinham assumido o papel de "estrangeiros" na sociedade alemã: uma sociedade cristã, portanto, para Kittel, submetida à autoridade da palavra bíblica.

Uma diatribe douta, que sondava o Pentateuco para determinar os direitos do ger no seio do povo judeu hospedeiro e que, depois de ter sido subvertida, tornava-se questão de estrita atualidade, crucial depois da ascensão de Hitler.

Claramente diferente é a perspectiva buberiana, não alheia aos apoios supostamente bíblicos ao papel destinado aos judeus pelo Terceiro Reich, ao qual o interlocutor inscrito desde o dia 1º de maio no Partido Nacional-Socialista (e que assim permaneceria até o fim da guerra) e ao bloco religioso apoiador (os "Cristãos Alemães", dos quais deserdaria meses depois) não é nada alheio.

No entanto, escreve Bonola, o julgamento dos estudiosos sobre Kittel não é unânime, pois alguns autores, ao menos em parte, acolheram as suas autojustificativas de 1946: segundo as quais a sua tentativa, em 1933, era de abrir um caminho para a justiça e para a humanidade a partir da tradição paleocristã e vetero-eclesiástica diante da crescente propaganda antissemita.

Em suma, ter-se-ia tratado da tentativa de influenciar a estrutura da política nacional-socialista para com os judeus para mitigar os seus traços violentos. À parte do fracasso dessa eventual estratégia, o exame de Die Judenfrage, passando por cima da proposta sobre um regime jurídico especial, o "direito do forasteiro", coloca Kittel no fronte ideológico do mais sombrio antissemitismo.

A convergência entre as opiniões do teólogo e os mais difundidos estereótipos antijudaicos usados por Hitler durante o lançamento das primeiras medidas discriminatórias é total. Além disso, salta aos olhos a desproporção, no escrito, entre a intenção inicialmente declarada de se mover contra o judaísmo "a partir do campo de um cristianismo consciente" e o posterior tratamento do problema que, só nas últimas páginas, toca a dimensão religiosa, depois de ter dedicado o panfleto para atacar "o judaísmo da assimilação, depravado e tornado infiel à sua própria missão, já desligado da história do autêntico judaísmo".

É mais interessante mencionar o coração das respostas buberianas, voltadas não só a desmontar as distorções insultantes com que Kittel aborda o judaísmo ou a impedir que se utilizasse em sentido antijudaico a ruptura que a hipótese sionista introduzira nas comunidades judaicas, mas, permanecendo no âmbito religioso, a acusar Kittel de querer considerar como obra divina medidas discriminatórias totalmente humanas.

Com ironia, Buber se pergunta por que o interlocutor se liga a poucas passagens concernentes unicamente ao plano jurídico, prescindindo muitíssimos outros em que o cristianismo reivindica a sua lei: a do amor.

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