''A virgindade de Maria não é um mito''. Ratzinger e a infância de Jesus

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

24 Novembro 2012

"De onde tu és?", póthen eî sý? No pretório de Jerusalém, o governador Pôncio Pilatos, "juiz romano racionalista", que "já havia expressado o seu ceticismo" ("O que é a verdade?") faz ao acusado a pergunta decisiva. Bento XVI começa A infância de Jesus a partir daí, quase como se fizesse de Pilatos um ícone da incredulidade contemporânea.

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 21-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Joseph Ratzinger começara em 2003 o seu Jesus de Nazaré como cumprimento de um "longo caminho interior" e, ao mesmo tempo, impulsionado por uma "urgência", escrevia ele na publicação do primeiro volume, em 2007: a percepção de " uma situação dramática da fé". A ideia de que, com o progresso das pesquisas "histórico-críticas", em si válidas, a figura de Jesus havia se tornado "cada vez mais nebulosa", voltava no segundo volume de 2011, juntamente com a necessidade de recompor o "rasgo" entre o "Jesus histórico" e o "Cristo da fé".

E agora a obra acabou. O livro mais esperado foi publicado no dia 21 de novembro. Nove anos de trabalho resumindo o sentido de uma vida inteira (a epígrafe é o Salmo 27: "É a tua face, Senhor, que eu busco. Não me escondas a tua face") se completam com Die Kindheitsgeschichten, a terceira parte sobre os "relatos da infância de Jesus".

Mas aquele que, no início, devia ser um "capítulo" tornou-se muito mais do que a "pequena sala de entrada aos dois volumes anteriores" sobre a qual o autor fala no prefácio. A pesquisa do "Jesus real" torna-se convincente ao falar do período mais misterioso da sua vida, apenas quatro capítulos e 180 versículos entre os Evangelhos de Mateus e Lucas. E é na análise desses textos que Bento XVI realiza o sentido da sua obra: porque as "narrações" da infância "não são mitos ulteriormente desenvolvidos" ou "lendas piedosas", escreve ele, muito menos podem ser adscritas ao gênero do "midrash hagádico", o antigo gênero literário judeu que interpreta a escrita por parábolas.

Escreve o papa: "Aqui se conta uma história que explica a Escritura e, por outro lado, o que a Escritura, em muitos lugares, quis dizer, torna-se visível somente agora, por meio dessa nova história".

"Eu tenho confiança nos Evangelhos", explicava ele no primeiro volume. E agora argumenta: "Quais são as fontes?". A resposta é, aparentemente, surpreendente: a "fonte" fundamental é Maria. "Lucas, às vezes, faz referência ao fato de que a própria Maria, a mãe de Jesus, era uma das suas fontes", e o faz em particular quando se lê no Evangelho que "sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração".

Bento XVI escreve: "Só ela poderia referir o evento da Anunciação, que não tivera testemunhas humanas". Certamente, "a exegese moderna" pode considerar "ingênuas" essas conexões, mas Ratzinger responde:" Por que não deveria haver tal tradição, conservada e, ao mesmo tempo, modelada no círculo mais restrito? (...) Por que Lucas deveria ter inventado?". O próprio "aparecer tardio" das "tradições marianas" se explica "na discrição da Mãe e dos círculos em torno dela", até a sua morte.

Mateus também "nos conta a verdadeira história" que "foi meditada e interpretada teologicamente", e não ao contrário. As narrações "provêm da tradição familiar". Com Klaus Berger, o papa afirma que, "até prova em contrário, é preciso supor que os evangelistas não pretendem enganar os seus leitores, mas querem relatar fatos históricos" e considera: "Contestar por pura suspeita a historicidade desse relato vai além de toda imaginável competência dos historiadores".

Considerações que recorrem no livro. O massacre dos inocentes "não tem nada de impossível". Disse-se que Jesus teria nascido em Nazaré, enquanto Belém, cidade de Davi, seria um lugar teológico, mas "eu não vejo como se possa citar fontes verdadeiras a uma teoria dessas". O mesmo vale para o nascimento na gruta e as "tradições locais" ("na região desde sempre se usam grutas como estrebaria").

A palavra "primogênito" referida a Jesus indica "uma qualidade teológica" e "não se refere" a outros filhos. Quanto ao boi e ao jumento, no Evangelho, "não se fala de animais", mas "a meditação guiada pela fé" levou a uma passagem de Isaías, e "nenhuma representação do presépio renunciará ao boi e ao jumento".

Mais delicada é a questão do parto virginal de Maria. "É um evento histórico real ou uma lenda piedosa? É verdade o que dizemos no Credo?". A resposta "sem reservas é: sim". E com o grande teólogo protestante Karl Barth, ele diz que "há dois pontos nos quais a ação de Deus intervém imediatamente no mundo material: o nascimento da Virgem e a ressurreição do sepulcro". Dois pontos "são um escândalo para o espírito moderno", escreve o papa: "A Deus é concedido agir na esfera espiritual, mas não sobre a matéria. Isso perturba. Ali não é o seu lugar". Mas esses pontos são "pedras de toque para a fé", é disto que se trata: "Se Deus não tem poder também sobre a matéria, então Ele não é Deus".

Além disso, "Jesus não nasceu e apareceu em público no impreciso 'uma vez' do mito. Ele pertence a um tempo exatamente datável e a um ambiente geográfico exatamente indicado: o universal e o concreto se tocam". E não só isso: o texto deve ser lido também para o que diz agora, "diz respeito a mim?". Isso vale para o grito das mães depois do massacre das crianças; "na nossa época, esse grito a Deus ainda permanece".

Vale para a política; "o meu reino não é deste mundo", diz Jesus, e Ratzinger considera: "Às vezes, no curso da história, os poderosos deste mundo o atraem para si; mas precisamente então ele está em perigo: eles querem relacionar o seu poder com o poder de Jesus, e justamente por isso deformam o seu reino, o ameaçam".

Vale também para a relação com a ciência, confiada às páginas sobre os Reis Magos, que marcam o "fim da astrologia" ("o Menino guia a estrela") e, ao mesmo tempo, o alargamento da razão para o todo, a "autossuperação da ciência". O papa não se isenta nem da pergunta sobre se a estrela "realmente existiu". Ele cita a conjunção de Júpiter, Saturno e Marte no ano 7 e 6 a.C., a data "verossímil" do nascimento de Jesus (houve, como se sabe, um erro de cálculo da era cristã), tabelas chinesas que, no ano 4 a.C., indicam uma "estrela luminosa".

Um livro escrito com a simplicidade que é a meta do espírito e ao mesmo tempo "dois livros em um", dizia no dia 20 o presidente da RCS Libri, Paolo Mieli: um texto denso, complexo, que fala a todos, porque diz respeito a todos. O cardeal Gianfranco Ravasi citou as palavras de Maria em um texto teatral: "Este Deus é o meu filho. Esta carne divina é a minha carne. Ele é feito de mim, tem os meus olhos, e esta forma da sua boca é a forma da minha. Ele se parece comigo. É Deus e se parece comigo!". Depois, sorriu: "O autor, ateu, é Jean-Paul Sartre".