Aleppo. O bispo e a cidade mártir

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Por: André | 12 Agosto 2013

“Eu deveria ter ido ao meeting de Rimini, mas não é o momento para viagens”. Antoine Audo, jesuíta e bispo caldeu de Aleppo, prefere permanecer com seu povo que sofre e acredita que não é o momento de correr riscos inúteis para participar de conferências sobre a situação dos cristãos na Síria. Enquanto explica ao Vatican Insider os motivos da sua decisão, Audo descreve a situação atual na cidade mártir que era uma das mais florescentes do mundo árabe. Agora, muitos de seus bairros são apenas escombros.

 
Fonte: http://bit.ly/11W23Ho  

A entrevista é de Gianni Valente e publicada no sítio Vatican Insider, 11-08-2013. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Desde que a guerra começou, você saiu e retornou diversas vezes ao país. E agora?

Agora é muito mais perigoso sair de Aleppo. Devo ser prudente. E, de qualquer maneira, não é o momento de deixar a minha gente. A tensão aumenta e a presença do bispo, aqui e agora, é muito mais importante para as nossas comunidades, inclusive em nível psicológico.

Sente-se ameaçado?

Todos dizem a mim e aos outros bispos que devemos nos deslocar com discrição, que não devemos usar os paramentos episcopais quando saímos para evitar sequestros, como aconteceu com o arcebispo sírio-ortodoxo Yohanna Ibrahim e com o bispo greco-romano Boulos al-Yazigi.

O que aconteceu com eles?

Há muitos rumores. Os últimos, atribuídos pelos jornalistas a um político estadunidense, relacionavam o sequestro com um “complô” com implicações eclesiásticas para obrigar o Patriarca sírio-ortodoxo a abandonar Damasco e transferir-se para a Turquia. Mas não são coisas sérias, são especulações interesseiras.

E sobre o desaparecimento do padre Dall’Oglio?

Todo o mundo fala disso. Todos se perguntam pelo motivo da sua volta à Síria. O conflito, o caos e a luta entre as diferentes facções fazem com que tudo seja ambíguo e problemático quando se quer dar explicações.

E em Aleppo, a situação também é confusa?

As incertezas e o temor vêm crescendo nos últimos meses. Todos se fazem a mesma pergunta: o que será de nós? E a inquietação é sentida com particular preocupação nos bairros cristãos. Na minha opinião, Aleppo segue vivendo a pior situação, pelo menos do ponto de vista psicológico.

Por quê?

Os que moram em outras zonas, inclusive Damasco, têm rotas de fuga, no caso de seus bairros serem arrasados pelo conflito. De Damasco, de Homs, de Lattakia e da costa, podem fugir para o Líbano, para o vale dos cristãos ou Beirute. Aleppo, ao contrário, está encerrada no torniquete da guerra. A Turquia deixa entrar armas e grupos para combater o regime de Assad, e o primeiro alvo segue sendo Aleppo. E no nordeste, segundo se diz, vai se consolidando cada vez mais o controle dos curdos.

As imagens de satélite divulgadas pela Anistia Internacional mostram bairros inteiros de Aleppo reduzidos a escombros...

Pelo menos meio milhão de pessoas tiveram que deixar suas casas. Há zonas completamente abandonadas. Cerca de 80% da população há meses não trabalha. Muitas pessoas não têm dinheiro nem para comer. Por todas as partes se respira uma pobreza desesperada, em uma cidade que era dinâmica e florescente.

Qual é o estado de ânimo entre seus fiéis?

Em muitos deles cresce o fatalismo: independente do que acontecer, é vontade de Deus. É o que se diz para tocar em frente. Outros tratam de reagir, e a reação mais imediata e realista é a fuga, que começou há algum tempo. Os que ainda têm dinheiro e meios fogem para o Líbano, para os países do Golfo ou para a Europa. Todos os pobres, ao contrário, ficam aqui.

Fuga ou resignação. Não há outra saída?

Os jovens são incríveis. Agora os grupos de escoteiros arrumaram as salas e os ginásios de esportes, dos quais se ocupam, para retomar as suas atividades. Querem abandonar o medo e o senso de destruição que parece engolir tudo. Em 28 de julho, enquanto o Papa Francisco estava em Copacabana, mais de mil jovens participaram de uma jornada de oração e convivência em comunhão de espírito com os milhões de jovens que se reuniram na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Eu e outros três bispos da cidade participamos em diferentes momentos desta jornada. No próximo fim de semana, depois da Assunção, cerca de 200 jovens organizarão um festival sobre a esperança. Nas condições em que vivem, novos jovens se comovem e se consolam muito quando ouvem o Papa Francisco, que os convida a não deixarem roubar a esperança.

E você?

Como bispo e como jesuíta, creio que tomo detalhes importantes do seu estilo, de sua forma de viver sua relação com Cristo. Quando Bento XVI renunciou, me perguntei como a Igreja seria capaz de retomar seu caminho, após a saída de um teólogo tão grande e sensível. O Papa Francisco foi uma resposta inimaginável do Espírito Santo. Como bispo, sinto que é um novo começo.

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