Violência sexual causa trauma em veteranas do exército dos EUA e as leva a viver nas ruas

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05 Março 2013

Nos recessos de sua memória, Tiffany Jackson lembra-se do emprego que teve, brevemente, depois de deixar o Exército, quando ela ainda usava sandálias e blusas elegantes, com colares de borboleta, e trabalhava em um arranha-céu com uma vista de um milhão de dólares.

A reportagem é de Patricia Leigh Brown, publicada no jornal The New York Times e reproduzida no portal Uol, 04-03-2013.

Dois anos depois, ela havia desmoronado com revolta, deixado seu emprego e abraçado o álcool. Ela começou a sair com pessoas que usavam cocaína e também se viciou, protegendo-se contra o vento na Skid Row.

"Você se sente impotente para parar", disse ela sobre os eventos em cascata que a fizeram passar do apartamento próprio para hotéis baratos e depois, por um ano, para as ruas, onde ela entrou para as fileiras crescentes das veteranas sem teto.

Enquanto o Pentágono suspende a proibição de mulheres em combate, as mulheres que voltam das missões estão enfrentando um campo de batalha diferente: hoje, são o segmento que mais cresce da população sem teto, um grupo muitas vezes invisível que passa as noites em sofás, colchões de ar, armazéns públicos ou em carros, estacionados de forma discreta perto dos shoppings, para evitar a violência das ruas.

Em grande parte, os combatentes homens se tornam sem teto por causa de abuso de substâncias e por doenças mentais. Mas os especialistas dizem que, além desses problemas, as veteranas têm outros, incluindo a busca por abrigos que aceitem a família e empregos que paguem bem. Um caminho que comumente leva as mulheres a essa situação, segundo os pesquisadores e psicólogos, é o trauma sexual militar, ou TSM, por assédio ou violência sexual durante seu serviço, que pode levar ao distúrbio de estresse pós-traumático.

O trauma sexual colocou Jackson neste caminho. A princípio ela achou que ia conseguir deixar para trás "o incidente": aquela noite fria de agosto na Base Aérea de Suwon na Coreia do Sul, quando um soldado pegou-a pela garganta no banheiro de um bar e a estuprou selvagemente no chão todo urinado. Mas durante os sete anos que morou nas ruas e saiu das ruas ela descobriu que não conseguia se esquecer.

Dos 141.000 veteranos no país que passaram pelo menos uma noite em um abrigo em 2011, quase 10% eram mulheres, de acordo com o Departamento de Moradia e Desenvolvimento Urbano. Em 2009, eram 7,5%. Em parte, isso é um reflexo das mudanças entre os militares americanos, onde as mulheres hoje constituem 14% das forças da ativa e 18% da Guarda Nacional e dos reservistas.

As veteranas, contudo, também enfrentam uma complexa "rede de vulnerabilidade", disse Donna L. Washington, professora de medicina da Universidade da Califórnia em Los Angeles e doutora do Centro médico de Assuntos dos Veteranos (AV) de Los Angeles Ocidental, que estudou como as mulheres chegam a ficar sem teto, inclusive a pobreza e o trauma sexual militar.

É muito mais frequente as veteranas serem mães solteiras do que os veteranos serem pais solteiros. Ainda assim, mais de 60% dos programas de habitação de transição, que recebem bolsas do Departamento de Assuntos dos Veteranos, não aceitam crianças ou restringem sua idade e número, de acordo com um relatório de 2011 do Escritório de Contabilidade do Governo.

A falta de empregos para veteranas também contribui para a falta de teto. Jennifer Cortez, 26, que foi uma excelente sargento do Exército, onde treinava outros soldados, teve dificuldades em encontrar trabalho desde que se tornou reservista em 2011. Ela acorda em seu colchão de ar no chão da sala de estar da casa da mãe, debaixo das 12 medalhas que recebeu em oito anos, inclusive em duas estadias no Iraque.  As oportunidades de emprego com salário mínimo a deixam espantada. "Uau, jura?" disse ela.  "Servi ao meu país. Então varrer o chão é um pouco duro".

Sem querer ser um peso para sua família, ela morou brevemente no carro, o único espaço pessoal que tinha. Alguns veteranos sem teto têm habilidades de sobrevivência em campo, como Nancy Mitchel, 53, de Missouri, veterana do exército que passou anos morando em uma barraca.

"Assim que fazemos", disse ela.

Dupla traição

Das mais de duas dúzias de veteranas entrevistadas pelo New York Times, 16 disseram que foram atacadas sexualmente em serviço e outra foi perseguida. Um estudo de Donna L. Washington e colegas revelou que 53% das veteranas sem teto tinham algum tipo de trauma sexual militar e que muitas entraram para as forças armadas para fugir dos conflitos e abusos familiares.

Para aquelas que ingressam nas forças armadas esperando ter vidas melhores, ser atacada sexualmente ao servirem o país é "uma dupla traição da confiança", disse Lori S. Katz, diretora da Clínica de Saúde das mulheres do departamento de saúde do AV de Long Beach e fundadora do Renew, um programa de tratamento inovador para veteranas com TSM. As reverberações dessas experiências muitas vezes lançam as mulheres em uma espiral negativa de abuso de álcool e outras substâncias, depressão e violência doméstica, acrescentou.

"Simplesmente, arranca sua pele", disse Patricia Goodman-Allen, terapeuta na Carolina do Norte que foi oficial da Reserva do Exército e disse que certa vez retirou-se para um trailer no meio do mato depois de tal ataque.

Jackson recebeu pensão plena por estresse pós-traumático como uma consequência incapacitante de seu trauma sexual, apesar de, no início, não ter recebido benefícios militares.

Ela foi criada em uma área violenta de Compton, Califórnia, e serviu como operadora de equipamentos pesados no Exército, entusiasmada com sua sensação de controle em um ambiente dominado pelos homens. Mas depois do estupro –que ela não denunciou, nem contou para sua família- seu comportamento mudou. Ela atacou um sargento, o que resultou em medidas disciplinares. Em casa, ela perdeu o emprego em vendas depois que desmaiou, bêbada, no emprego. "Parecia que eu estava inteira, mas eu estava morrendo por dentro", disse ela.

Ela passou três anos na prisão por tráfico de drogas e, por fim, confidenciou seu segredo a um psiquiatra na prisão, que a ajudou a ver que muitas de suas más decisões tinham tido raiz no trauma sexual.

"Entendi que eu precisava de ajuda", diz ela hoje, estável, finalmente, aos 32 e aconchegada na casa de sua mãe em Palmdale, ao Norte de Los Angeles.

A advogada dela, Melissa Tyner, do centro sem fins lucrativos Inner City Law Center, disse que muitas veteranas como Jackson associam o atendimento aos veteranos com aquele militar que não as protegeu e portanto não fazem terapia. Também há casos de mulheres que não serviram fora do país e não sabem que são veteranas. "Isso as torna muito menos estáveis e assim têm menos chance de encontrar abrigo", disse ela.

A Califórnia, lar de um quarto dos veteranos do país, também abriga um quarto de seus veteranos sem teto. Na Grande Los Angeles, uma pesquisa de 2011 revelou 909 mulheres sem teto, um aumento de 50% desde 2009.

Lauren Felber era uma delas. A decisão de entrar para as forças armadas tinha sido um instinto de preservação: ela disse que foi molestada por seu pai em sua juventude. "Ele está morto agora", disse ela. Ela pensou que o Exército a tornaria forte.

Quando Felber voltou, uma complicação debilitadora de herpes tornou dolorosas suas tentativas de trabalhar, inclusive servindo em bares e trabalhos de construção. Ela se viciou em analgésicos, inclusive metadona. Sua estadia nos sofás dos amigos acabou, e ela se dirigiu à Pershing Square, no centro de Los Angeles, resplandecente com fontes e palmeiras altas. Ela dormia nos degraus. Frequentadores ensinaram a ela os prós e contras da comida gratuita. "Nas ruas, todo mundo está se atropelando, vendendo alguma coisa, mesmo que seja amizade", disse ela.

Felber passou sete meses na Rotary House, um abrigo administrado pelos Voluntários da América. Em seu diário, ela escreveu, "eu ando pelas ruas de Skid Row e me vejo nos rostos dos obsoletos".

Mas a vida está finalmente melhorando: recentemente, ela se mudou para um apartamento de um programa que fornece abrigo permanente e outros serviços, chamado Moradia e Desenvolvimento Urbano – programa de apoio aos veteranos, ou Hud-Vash.

Quando finalmente teve um lugar para morar, aquilo parecia tão irreal que ela empilhava os cobertores e dormia no chão, como fazia nas ruas. Gradualmente, andando pelos quartos vazios, ela sentiu "Uma sensação avassaladora de espanto e gratidão".

"Estou lutando contra o medo de perder tudo isso", acrescentou, "cada vez que eu adiciono um novo item, tornando o lugar meu lar".

Complicações de família

Ao voltarem, os veteranos encontram um problema: o Congresso autorizou que o AV cuidasse deles, mas não de suas famílias. As mulheres esperam em média quatro meses para conseguir uma moradia, o que deixa as mulheres com filhos em risco mais alto de ficarem sem teto. Monica Figueroa, 22, que foi paraquedista do Exército, morou na oficina de um parente na grande Los Angeles, onde dava banho em seu filho, Alexander, em uma pia usada para gasolina e solventes até que, com ajuda, ela encontrou um abrigo temporário.

Michelle Mathis, 30, mãe solteira com três filhos, passou por vários abrigos temporários desde que retornou em 2005 com traumatismo craniano. Mathis, que serviu como especialista em químicos no Iraque, depende de um GPS para se lembrar do caminho para a mercearia e a escola dos filhos.

Ela disse que não se sentia segura em um abrigo com os filhos, então eles moravam em um quarto alugado de uma amiga que também está ameaçada de despejo. O único lugar que Mathis disse que se sente verdadeiramente em casa é com outras veteranas no Centro Médico do AV. Como ela não pode pagar uma creche, ela vai ao médico com o filho de um ano, Makai, no colo.

O abrigo de transição tradicionalmente era em dormitórios, o que funcionava quando aqueles que voltavam eram homens solteiros. Mas um relatório de março de 2012 do Departamento de Assuntos dos Veteranos do Inspetor Geral encontrou quartos e banheiros sem trancas.

Susan Angell, diretora executiva da Iniciativa de Veteranos Sem Teto do AV, disse que cada local era individual e exigia uma abordagem diferente, às vezes de construir paredes, outras de instalar leitores de cartão para reforçar a segurança. "Não há uma solução geral", disse ela. "Tem que se encaixar ao ambiente. Realmente queremos o ambiente melhor e mais seguro para todo veterano que nos procure".

Prometendo acabar com a falta de moradia entre os veteranos até 2015, o governo está jogando milhões de dólares em programas permanentes, como o Hud-Vash, para os veteranos sem teto crônicos. Entre os que recebem as bolsas, 13% são mulheres, quase um terço delas com filhos, disse Angell.

Um programa mais novo do AV, com US$ 300 milhões de verbas reservadas pelo Congresso, destina-se à prevenção, fornecendo dinheiro de emergência de curto prazo para ajudar com questões como prestações, contas de luz e outras. A motivação do governo, além de patriótica, é financeira: o AV estima que o custo do atendimento de cada veterano sem teto, incluindo hospitalizações e reembolsos para abrigos comunitários, é três vezes maior do que o de um veterano com teto.

O senador Patty Murray, democrata de Washington, membro do Comitê do Senado de Assuntos dos Veteranos, recentemente apresentou uma lei que reembolsaria pela primeira vez a creche nos abrigos de transição.

Um batalhão emotivo

Mas as mudanças em Washington às vezes são glaciais. E um teto sólido nem sempre basta. Nos subúrbios de Long Beach, Califórnia, um grupo sem fins lucrativos, o US Vets, criou abrigos para famílias em risco em Villages at Cabrillo, antiga base naval, com um programa especial para veteranas sem teto.

Os diretores, porém, logo ficaram perplexos com o grande número de mulheres que estavam tendo dificuldades para se virarem sozinhas. "Começamos a compreender que muitas delas sofreram de trauma sexual", disse Steve Peck, presidente do grupo e diretor executivo. "Sua incapacidade de lidar com esses sentimentos tornava impossível colocarem um pé na frente do outro".

O resultado foi o Renew, uma colaboração com o centro do AV de Long Beach. Ele incorpora sessões de psicoterapia, de redação de diários e práticas de ioga e aceita mulheres com trauma sexual militar. Cada turma de doze mulheres mora junto por 12 semanas e passa oito horas por dia na clínica de saúde mental da mulher, "onde você pode chorar e não tem que encontrar um monte de homens com seu rímel escorrendo", como diz Katz.

Com Katz e outros orientadores, as mulheres formaram um batalhão emotivo, protegendo-se contra inimigos invisíveis: medo, solidão, desconfiança, raiva e, o mais pérfido de todos, o coração endurecido.

Em dezembro, na graduação do programa que ocorre em uma sala de terapia, nove mulheres falaram de forma comovente em escolher a força sobre a fragilidade. Cindi, oficial da Aeronáutica com mestrado, disse que foi bolinada e marginalizada por uma superior. Depois de deixar as forças armadas, ela entrou em um casamento violento e ficou dormindo em sofás por um tempo.

Ela cresceu em uma casa totalmente negligenciada. Em seu diário, Cindi desenhou uma imagem da água fervendo no fogão, representando seus traumas, mais poderosos do que sua autoestima.

Depois de anos de desapontamento, Cindi finalmente estava pronta para avançar.

"Sou mais do que a soma das minhas experiências", leu de seu diário, parecendo evocar a história de todas as irmãs veteranas sem teto. "Sou mais do que o meu passado".

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