''Quero uma Igreja pobre para os pobres''

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17 Março 2013

O Papa Francisco já deixou claro que "a Igreja, mesmo sendo uma instituição histórica, não tem uma natureza política, mas essencialmente espiritual". E ele está improvisando para além do texto escrito, como faz quase sempre quando eleva o olhar e diz uma frase que é um programa de pontificado: "Ah, como eu gostaria de uma Igreja pobres e para os pobres".

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 17-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Francisco, na primeira audiência, encontra-se com 6 mil jornalistas de todo o mundo desde a renúncia de Bento XVI. "Vocês trabalharam, hein? Vocês trabalharam...". Diz-lhes: "Eu os quero muito bem". E acaba os conquistando, entre risadas e aplausos , narrando, ele, os melhores bastidores do conclave, "Vou lhes contar uma história...".

A história refere-se a por que ele decidiu se chamar Francisco e é reveladora. "Durante a eleição, eu tinha ao meu lado o cardeal Claudio Hummes, um grande amigo! E quando a coisa começava a ficar um pouco perigosa, ele me confortava...". O brasileiro Hummes, 79 anos, arcebispo emérito de São Paulo e ex-prefeito do Clero na Cúria, é um frei menor franciscano. No quinto escrutínio, os votos do cardeal jesuíta Bergoglio subiram até superar o quórum de dois terços. "Veio o aplauso costumeiro porque havia sido eleito o papa, e o cardeal Hummes me abraçou, me beijou e me disse: 'Não se esqueça dos pobres!'".

Francisco continua o relato, encosta o dedo indicador na cabeça: "Essa palavra entrou aqui: os pobres, os pobres. Logo pensei em Francisco de Assis. Depois eu pensei nas guerras, enquanto o escrutínio prosseguia até a contagem de todos os votos. E Francisco é o homem de paz. E assim veio o nome no meu coração: Francisco de Assis. O homem da pobreza, o homem da paz, um homem que ama e cuida da criação", acrescenta o papa com uma referência ao meio ambiente: "E nós, neste momento, não temos uma relação tão boa com a criação, não?".

Francisco está sereno e conta, rindo, também as "piadas" dos cardeais: "'Mas você deveria se chamar Adriano, porque Adriano VI foi um reformador e é preciso reformar', me disse um [cardeal]. E outro: 'Não, não, o teu nome deveria ser Clemente!'. E eu: 'Mas por quê?'. E ele: 'Clemente XV, assim tu te vingas de Clemente XIV, que suprimiu a Companhia de Jesus'".

À parte a referência ao "escrutínio que continuava", quando já se havia passado os 77 votos dos 115 (confirma-se uma grande maioria), são palavras que explicam muito sobre o papa. Justamente nesse sábado, o cardeal Hummes disse ao jornal O Globo que a reforma da Cúria "pedida por todos" será "uma tarefa difícil, uma obra gigantesca" e exigirá "mudanças estruturais", porque assim como está "não funciona".

Francisco, como sempre faz o papa recém-eleito, confirmou "temporariamente" o secretário de Estado e os vários chefes de dicastério donec aliter provideatur, até disposições em contrário. "De fato, ele deseja reservar-se um certo tempo para a reflexão, a oração e o diálogo, antes de qualquer nomeação ou confirmação definitiva", diz a Santa Sé. Certamente, a perspectiva é "emagrecer e simplificar" a Cúria, explica o padre Lombardi.

Mas a reforma começa pelo estilo: na manhã desse domingo, antes de estrear no Ângelus, Francisco decidiu celebrar a missa na pequena igreja de Sant'Anna, a paróquia do Vaticano: os habitantes de Borgo Pio, nesse domingo, tiveram como pároco o papa. No sábado, ele dizia que "o Espírito Santo inspirou a decisão de Bento XVI pelo bem da Igreja e dirigiu na oração e na decisão os cardeais". Mas insistiu: "Cristo é o centro, não o sucessor de Pedro: Cristo. Cristo é o centro e o coração da Igreja".