Inúteis. Escritor comenta as eleições europeias

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27 Mai 2014

"É difícil imaginar um retrocesso radical e imediato do seu projeto de união – embora até a permanência do euro, a moeda única de uma nação fictícia, longe de ser única, esteja sendo posta em dúvida –, mas o resultado das eleições deste fim de semana pode muito bem sinalizar o prelúdio de um suicídio", escreve Luis Fernando Verissimo, escritor, em artigo publicado pelo jornal Zero Hora, 26-05-2014

Eis o artigo.

As eleições para o parlamento europeu que aconteceram neste fim de semana foram um plebiscito disfarçado sobre o futuro da Comunidade Europeia. Entre os candidatos pedindo votos, há um forte e barulhento grupo – talvez uma maioria – que é contra a comunidade, e, portanto, quer ser eleito para uma instituição que pretende destruir.

As razões para sabotar a União Europeia vão desde o nacionalismo emocional até a reação da Europa do Norte ao atraso que representam as economias letárgicas da Europa do Sul e a ameaça de admissão de mais países problemáticos à comunidade, favorecendo a invasão de mão de obra barata do Leste. E passando pelo ressentimento de muitos com o domínio da Alemanha de Merkel sobre todos. A receita de frau Merkel para a saúde geral da comunidade é apfelstrudel, apfelstrudel e não tem conversa.

Assim, boicotada por dentro, a Comunidade Europeia caminha para ser outra Nações Unidas, um monumento à inutilidade de uma boa ideia. As Nações Unidas também nasceram como um projeto de congraçamento, para substituir as guerras pelo debate e o embate irracional pela razão.

É só lembrar de todos os conflitos que acometeram o mundo desde que as Nações Unidas existem, sem que a organização pudesse evitá-los ou condicionar a política de grandes potências, para desesperar a humanidade. A ONU faz um trabalho valioso nas áreas da saúde e alimentação internacionais e continua lá, no seu imponente prédio à beira do East River, mas, no seu propósito principal, fracassou.

A Comunidade Europeia também tem um vistoso parlamento, em Bruxelas, simbolizando sua própria frustração. É difícil imaginar um retrocesso radical e imediato do seu projeto de união – embora até a permanência do euro, a moeda única de uma nação fictícia, longe de ser única, esteja sendo posta em dúvida –, mas o resultado das eleições deste fim de semana pode muito bem sinalizar o prelúdio de um suicídio.