Entre Kasper e Müller, a terceira via de Ouellet para os divorciados

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01 Abril 2014

"Tradição não significa imobilismo, mas é a expressão de uma realidade viva que muda e se adapta sem perder a própria identidade." O cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, nomeado por Bento XVI em 2010, interveio no debate sobre a família e o matrimônio com uma lectio magistralis proferida em Valência, na Espanha, por ocasião da abertura do ano judicial do tribunal eclesiástico local.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 29-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Muitos – disse o purpurado canadense – consideram que a complexidade das situações matrimoniais exige uma reflexão e algumas iniciativas inovadoras que respondam aos novos desafios da evangelização. E eu compartilho essa esperança e essa convicção", esclareceu Ouellet, explicando que a exigência é a de implementar "uma pastoral do matrimônio e da família renovada que leve a conhecer mais aprofundadamente o patrimônio do Concílio e a hermenêutica adequada que João Paulo II dele fez".

Em relação ao problema da reaproximação à comunhão dos divorciados em segunda união – questão que dividiu o Colégio Cardinalício no último consistório a portas fechadas em fevereiro –, o prelado canadense convida a "acolher calorosamente todos aqueles que aspiram a regularizar a sua participação na vida eclesial" através de "um caminho de conversão, penitência e crescimento espiritual".

Trata-se de uma solução já proposta não só pelo cardeal hondurenho Oscar Rodríguez Maradiaga, mas também por Walter Kasper na sua longa conferência no consistório de "corte teológico". O ponto sobre o qual ele se distancia, no entanto, está relacionado ao fato de que, na opinião de Ouellet, a ajuda que deve ser concedida aos divorciados em segunda união "tem o limite imposto pela verdade dos sacramentos da Igreja".

Um pouco como defendera o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller, no artigo do último dia 22 de outubro publicado no L'Osservatore Romano, retomando o que havia sido escrito anos antes na encíclica Veritatis splendor, de João Paulo II, cuja importância foi recentemente sublinhada pelo papa emérito em um livro dedicado a Karol Wojtyla: os fiéis "têm a obrigação de formar a própria consciência e tender à verdade" e, para esse fim, podem ouvir na obediência o magistério da Igreja, que os ajuda a "não se desviarem da verdade acerca do bem do homem, mas, especialmente nas questões mais difíceis, a alcançar com segurança a verdade e a permanecer nela".

Além disso, lembrou o prefeito e ex-arcebispo do Quebec, a misericórdia também pode ser anunciada "fora de um contexto propriamente sacramental". Implicitamente, portanto, o cardeal Ouellet lembra que uma solução para o problema já tinha sido encontrada em 1994 pela Congregação para a Doutrina da Fé, quando estabeleceu que, se os divorciados em segunda união não podem receber a comunhão sacramental, podem, porém, receber a espiritual. Contanto que as pessoas em questão estejam "espiritualmente bem dispostas".

Tese – reiterada também por Bento XVI por ocasião do último encontro internacional das famílias em Milão em 2012 – que Kasper considera fraca, como ele disse na intervenção perante o Colégio Cardinalício: "Quem recebe a comunhão espiritual é uma só coisa com Jesus Cristo. Por que, então, não pode receber também a comunhão sacramental?".