Katholikentag em Regensburg: sexo, gays e irritação

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05 Junho 2014

Eles não querem piedade, mas reconhecimento: no Katholikentag de Regensburg, homossexuais católicos defendem os seus direitos. Mas, com a pretensão de lhes recusar o seu espaço, a Igreja Católica sempre tem um problema contra eles.

A reportagem é de Matthias Drobinski e Jakob Wetzel, publicada no jornal Süddeutsche Zeitung, 30-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No início, eram um grupo de conspiradores, diz Nils Rusche. Gays, lésbicas, bissexuais – pode haver algo semelhante na juventude católica? Aos trinta anos, ele coordena a rede KJGay da Katholische Junge Gemeinde (Comunidade da Juventude Católica).

Treze anos atrás, eles teriam que manter secreta tanto a sua adesão, quanto os companheiros das suas vidas – acima de tudo porque eram colaboradores da Igreja. Senão, eles talvez perderiam os seus empregos. Mas a Igreja também sempre lhes deu força, diz Rusche: foi graças ao KJGay que ele encontrou a coragem de se declarar bissexual. "Essas são justamente as contradições da Igreja: em alguns lugares, você é acolhido com amor, em outro, você se embate contra uma muro".

A Igreja Católica e o sexo. A questão parece clara: de um lado, a instituição com as suas proibições – nada de sexo antes do casamento, nada de meios artificiais de contracepção, a homossexualidade praticada é pecado. Por outro lado, a vida dos católicos e, no meio, um profundo fosso, o fosso da incompreensão, das críticas recíprocas e também do poder autoritário. Grupos eclesiais que queriam pular esse fosso e falar abertamente de sexualidade corriam o risco sobretudo da irritação.

Agora, porém, o problema é reproposto. O Papa Francisco convidou os bispos em outubro para o Sínodo no Vaticano para falar sobre matrimônio e família, e, portanto, também de sexo. Ele também encarregou os bispos de investigarem os comportamentos e as opiniões dos católicos, e os católicos se expressaram às dezenas de milhares.

A profundidade e a amplitude do fosso foram de algum modo identificadas oficialmente. E o problema está livre de incrustações.

"Sabemos bem onde estão as diferenças entre os jovens e a Igreja", diz Eva-Marie Düring, diretora da KJG. É claro: contracepção, sexo extraconjugal, homossexualidade. "Mas talvez também consigamos encontrar coisas em comum."

Três em cada quatro jovens querem uma convivência na confiança e na fidelidade, o percentual daqueles que querem ter filhos aumenta. "Jovens adultos na sua individualidade também têm outra concepção de valores", diz Eva-Maria Düring. A Igreja deve apoiá-los na sua busca do seu caminho. Mas ela continua tratando o assunto com luvas de pelica.

É uma pena que a Igreja Católica perca muitas oportunidades, afirmam os jovens adultos do Centro de Jovens – mas eles não se submetem mais às proibições, simplesmente não aderem a elas. Para as pessoas mais idosas, a situação é diferente. Na Igreja Evangélica da Trindade, o "Katholikentag plus", formado pelos vários grupos favoráveis a uma reforma da Igreja, convidou para o debate sobre "Coabitação, moral sexual e Igrejas". Lá encontramos pessoas que expressam principalmente dor e tristeza. Dos 70 ouvintes, poucos têm menos de 50 anos, e a maior parte, mais de 70, muitos viveram a primavera do Concílio Vaticano II de 50 anos atrás.

O teólogo vienense Alexander Gaderer descreve essa virada epocal: até o fim dos anos 1950, prazer e sexualidade eram considerados pecados e só podiam ser justificados se levassem ao nascimento de filhos. Só depois é que se chegou a colocar no centro a relação dos parceiros, o seu amor e a sua fidelidade, o seu desejo de ter filhos. Pouco a pouco, porém, a abertura foi revogada através da encíclica contra a pílula do Papa Paulo VI de 1968 e da política eclesial restritiva do Papa João Paulo II.

Uma senhora pede a palavra: ela lembra como ficou desapontada quando foi comunicada a proibição do uso da pílula e do preservativo. "Nesse sentido, a Igreja pecou", diz, "e quando se volta a falar disso, eu ainda me sinto mal." Isso absolutamente não acontece mais com os seus filhos e com os seus netos. Mas nela permanecem a dor e a ferida aberta até hoje.

Ninguém aqui quer desintegrar a família, as mulheres – que são as que tomam a palavra predominantemente – falam de filhos e netos, e quando alguém diz que a Igreja deveria ficar de fora dos quartos das pessoas, há reações contrastantes: claramente, ela tem algo a dizer sobre o amor, a sexualidade, a fidelidade e a confiança, mas simplesmente não deveria mais derramar a sua detalhada moral de proibições sobre as camas dos casais, sejam homossexuais, sejam heterossexuais.

Mas aqui se manifesta a tristeza de toda uma geração pelo fato de que a sua Igreja não soube de dar uma resposta para as suas vidas. Uma mulher pede um dia anual de luto e de admissão de culpa da Igreja Católica – e recebe muitos aplausos.

Francisco deve indicar a direção certa, essa é a esperança tanto dos jovens quanto dos idosos da igreja da Trindade. O fato de que ele fala de misericórdia já mudou muitas coisas. "As coisas se movem", diz Nils Rusche, o jovem católico bissexual. Ele considera que a Igreja deve "abandonar a ideia de que só uma forma de relacionamento é a única verdadeira", e que as lésbicas e os gays não precisam de compaixão, mas de reconhecimento, que as suas relações podem ser positivas, assim como as heterossexuais.

Só que, para chegar até isso, ainda será preciso muita luta. Isso também parece claro para o Katholikentag. Agora há a possibilidade de uma troca de experiências para as pessoas homossexuais na Igreja – 10 anos atrás isso seria impensável. Mas também há outros que pensam que, desse modo, a Igreja abandonaria os seus valores.

Enquanto isso, reina uma "cultura da arbitrariedade", lamentou o teólogo moral vienense e estudioso de ética da medicina Matthias Beck – e o melhor exemplo disso é Conchita Wurst, a vencedora do Eurovision Song Contest. Ela teria dito que o aspecto exterior e o sexo, de fato, não seriam importantes – mas isso, segundo Beck, seria "a pior catástrofe do nosso tempo". Seria preciso levá-lo para debater com Nils Rusche.

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