Longe do cânone, perto da vida - Olhares sobre a biopolítica

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

23 Setembro 2015

Sandro Chignola (à esq) e Castor Bartolomé Ruiz
Foto: Ricardo Machado/IHU
Viemos do caos ou da ordem? Tão difícil quanto a resposta para esta pergunta, que de tão tola esconde sua complexidade, é pensar os processos biopolíticos contemporâneos, sobretudo porque pensá-los objetivamente se torna quase impossível. Isso porque tais objetos funcionam nos fluxos da contemporaneidade e a nós cabe a tarefa de tentar compreender suas tendências. "Se é verdade que o capitalismo e as formas biopolíticas tendem a uma espécie de isomorfismo, tudo o que podemos perceber é uma heterogeneidade de exploração que é difícil de descrever como estágio, mas podemos ensaiar como tendência", assim o professor e pesquisador italiano Sandro Chignola apresentou a dificuldade de tratar dos problemas da biopolítica.

A conferência A política dos saberes foi proferida pelo professor Sandro Chignola na noite da terça-feira, 22-09-2015, no Anfiteatro Pe. Werner, na Unisinos, em São Leopoldo. O evento integra a programação do XVII Simpósio Internacional IHU / V Colóquio Latino-Americano de Biopolítica | III Colóquio Internacional de Biopolítica e Educação, Saberes e Práticas na Constituição dos Sujeitos na Contemporaneidade.

Longe do cânone, perto da vida

Com um jeito tipicamente italiano de de se expressar, falando rápido e acentuando a sílaba tônica das palavras com gestos manuais, Chignola começou sua conferência afirmando que pretendia evitar os cânones filosóficos, sobretudo de Foucault e Agamben. "Antes de mais nada temos que estar no mundo e não no cânone filosófico", alertou.

Ao aprofundar o tema central, o professor chamou atenção para a necessidade de assumirmos uma mudança radical sobre aquilo que compreendemos como natureza. "Enquanto na modernidade era possível falar de biopolítica a partir da ciência política, aqui lidamos com um paradigma diferente. A natureza ganha uma novo contorno com a ciência contemporânea, com gramáticas que cortam os genes e os transferem de uma posição para outra na cadeia do DNA, por exemplo. Temos uma significativa mudança nos modelos de acumulação do biocapitalismo", acentuou o professor.

Medicalização

A partir desta abordagem, ele chamou atenção para as dinâmicas de medicalização da vida como engrenagem biopolítica. "O projeto biomédico de governamentalidade da saúde visam aumentar o rendimento produtivo dos sujeitos. Por isso não se deve fumar, deve-se tomar medidas saudáveis para ser mais eficiente", exemplificou. "Para alcançar tais níveis de produtividade, o preço a pagar por todos é a medicalização, que vem como 'auxílio' às consequências da somatização das biopolíticas da vida, capazes de territorializar singularidades e classes", complementou.

Disciplina e Segurança

Operando sempre na confluência do distante e do próximo, os projetos biopolíticos operam a partir do afeto do medo, daí que a disciplina se torna, não um componente repressivo, mas uma espécie de pedagogia da segurança. "Desenvolver disciplina é ativar mecanismos de governo. O risco é um componente decisivo que se junta à disciplina e à segurança. Mas aqui, a segurança tem uma particularidade, atua mais sobre a população que sobre os indivíduos", ponderou Chignola.

"Veja a questão da mortalidade infantil. Há todo um trabalho específico sobre a mãe, que é responsável pelo feto, que é submetida à dieta, à medicalização, à uma série de exames, que regulam não somente o corpo, mas o imaginário sobre maternidade", retomou o professor. "Há toda uma biopolítica governando o desejo da mãe", frisou.

Capitalismo pós-fabril

Em uma sociedade menos linear e mais estratificada, segundo a descrição de Chignola, os médicos perderam o monopólio do discurso sobre a saúde, ainda que permaneçam como sujeitos biopolíticos fundamentais. Nesse contexto emergem mantras da vida saudável, tais como "você é o que você come", o que coloca em funcionamento uma outra engrenagem que torna possíveis estas práticas, isto é, a produção de linguagens sobre esses processos.

"No capitalismo pós-fabril, o que marca o homem são as emoções, a capacidade de relações e a linguagem. Quem alimenta a infosfera é o trabalhador, em seu horário livre, que alimenta estas organizações", avaliou Chignola. "O empregado é convidado a ter uma ação propositiva. Ele deve valorizar as características neotécnicas e não ficar 'preso' como um animal. São nessas características que se fixam o modelo do empreendorismo autônomo. É na genealogia dessa subjetividade que se instaura o poder neoliberal", descreveu o conferencista.

Liberdade

Eis, que a contemporaneidade nos oferece um novo tipo de liberdade. "Somos consumidores de liberdade. Liberdade de mercado, podemos agir livremente nesse sistema. À biopolítica cabe governar os riscos que a liberdade tem", colocou. "Se for verdade que a biopolítica é a topologia do políticos, essa topologia pode e deve ser invertida. Para isso, liberdade e igualdade devem ser objeto de conflitos para que possam se tornar objetos de debate", concluiu Chignola.

Quem é Sandro Chignola

Sandro Chignola é professor de Filosofia Política no Departamento de Filosofia, Sociologia, Pedagogia e Psicologia Aplicada na Universidade de Pádua, Itália. É autor, entre outros, de História de los conceptos y filosofia política (Madrid: Biblioteca Nueva, 2010).

O Cadernos IHU ideias publicou recentemente o artigo Sobre o dispositivo. Foucault, Agamben, Deleuze, de autoria de Chignola.