''Europeus contra muçulmanos: esse é o único objetivo para o IS.'' Entrevista com Gilles Kepel

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29 Junho 2015

"Agora, eles ultrapassaram uma linha vermelha que não deviam cruzar. Hoje, eu estava em uma importante mesquita de Toulouse: o imã condenou veementemente o episódio de Grenoble." A afirmação é de Gilles Kepel, cientista político, acadêmico e grande especialista em mundo árabe. Que adverte: "Não me surpreenderia se em breve houvesse outros episódios."

A reportagem é de Alessandra Baduel, publicada no jornal La Repubblica, 27-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor Kepel, vimo-los disparando na praia, em uma fábrica, no carro de um homem morto pelo próprio empregado. Há uma imagem de grande fragilidade.

A nossa vida cotidiana permanece igualmente segura. Mas a fragilidade é a representação midiática que surge. E o IS quer exatamente isso, criar medo na Europa e mobilizar os europeus contra os muçulmanos, para provocar uma radicalização entre os muçulmanos, uma reação deles e, por fim, uma guerra civil, como já explicava em 2004 o "Apelo à Resistência Islâmica Global", que o porta-voz de Bin Laden, nome de guerra Abu Musab Al-Suri, publicou na internet. Lá se teorizava o uso da minoria de muçulmanos europeus "não assimiláveis" à cultura ocidental. Mas me permita dizer que esses atentados estão no aniversário do nascimento do Califado e demonstram tanto a vontade de festejá-lo quanto a de serem vistos como capazes de atacar em qualquer lugar, em um momento em que eles têm vários problemas.

Você está dizendo que também se trata de um sinal de medo?

Eles precisam não se mostrar enfraquecidos. O chamado califa Abu Bakr al-Baghdadi e o seu porta-voz, Abu Mohammad al-Adnani, disseram repetidamente que festejariam em todo o mundo. Queriam demonstrar a sua capacidade competitiva entre os vários poderes sunitas. Por outro lado, há a Arábia Saudita, Qatar, Turquia, que financiam os grupos de Jesh al-Fatah contra Assad e nunca gostaria que o IS chegasse a Damasco. Mas o IS agora está parado em Palmira, enquanto, na retaguarda, perdeu o controle da fronteira turca e, portanto, muitos lucros do contrabando. E os ataques aéreos têm sucesso. Eles dirigem os microchips colocado por espiões que, há dois dias, em um vídeo divulgado apenas em árabe, eram punidos com imersões em gaiolas debaixo d'água ou atingindo as suas cabeças com descargas elétricas. E agora, além do ataque na praia tunisiana, estamos diante de uma mesquita xiita atingida no Kuwait – e da primeira decapitação na Europa.

Com que mecanismo se desencadeiam esses episódios?

Essa organização não é piramidal: não há uma decisão tomada de cima. Trata-se de um mecanismo que parte de baixo, autônomo. Um modo totalmente novo de ser por parte daquela que é a terceira geração de jihadistas. Facilmente doutrináveis, pouco identificáveis, mobilizados pelas redes sociais aos milhares e com um campo de guerra alcançável com um voo low cost via Istambul.

Há um componente social, de sentimentos de marginalização?

Também, mas os 1.600 francês envolvidos com o jihadismo certamente não são todos marginalizados. Digamos que, em vez das velhas visões alternativas, de direita ou de esquerda, agora há o islamismo radical.

Que papel podem ter os outros muçulmanos?

Estou em Toulouse, o lugar onde Mohammed Merah realizou o massacre da escola hebraica. Hoje, eu estava em uma das mesquitas mais importantes da cidade, ponto de referência dos salafistas. O imã estava abalado. Ele definiu os fatos de Grenoble como "particularmente horrendos", porque foram cometidos durante o Ramadã. Ele se disse "ofendido" com o que aconteceu: eu acredito que o IS passou um limiar que não devia superar. E o grande desafio é permanecer todos unidos, como na manifestação depois dos atentados de Paris.

Além disso e de aumentar a segurança, o que mais se pode fazer?

A principal coisa é ser capaz de entender o fenômeno. Mas os estudiosos especializados são muito poucos, e os serviços secretos são incapazes de examinar esse novo terrorismo, que é uma verdadeira revolução cultural, feita pelo efeito das mídias sociais combinado com o de um campo de batalha muito próximo.