Anjos, amigos que te dão asas

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24 Fevereiro 2015

Eles existem, mesmo que não se vejam. Esta era, antigamente, a principal característica dos anjos, presenças com as quais se podia contar, seres discretos, impalpáveis, transparentes e, ao mesmo tempo, espíritos-guias capazes de indicar o caminho. Isso, antes de ganharem corpo como fenômeno difuso. Hoje, os anjos são avistados por toda a parte, nas artes, na literatura, no cinema, na TV. E na vida de todos os dias.

A reportagem é de Severino Colombo, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 22-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Eu acredito em coisas que vão além da nossa compreensão: aliens, anjos, demônios", revela a estrela do rock maldita Marilyn Manson na entrevista da edição de março da revista Paper. "Hoje, mais do que nunca, precisamos de anjos", ecoa o designer Ennio Capasa, criador da marca Costume National, antes de mandar os seus modelos para as passarelas da Milano Moda Uomo 2015. Peças fortes da coleção intitulada Dancing with an Urban Angel são os casacos pretos ou brancos, reluzentes de cristais e cobertos com penas macias.

Nada de penas, no entanto (e nem mesmo de asas), para os esperados anjos caídos do filme Fallen, com Jeremy Irvine no papel de Daniel Grigori, espírito destinado a se apaixonar pela misteriosa Luce (e depois a vê-la morrer nos seus braços). O filme, anunciado para os próximos meses, se baseia na saga best-seller Fallen, de Lauren Kate.

Os livros são como antenas, captam por primeiro humores e presenças no ar, incluindo anjos. Não por acaso estes últimos tornaram-se uma figura recorrente em grande parte das narrações contemporâneas.

"O anjo – explica Paolo Costa, pesquisador em filosofia da Fundação Bruno Kessler – é uma figura de mediação em relação a uma transcendência difícil de se pensar."

Do anjo dos poemas de Rilke às criaturas de Wim Wenders aos anjos do cinema hollywoodiano, acrescenta o estudioso, "a tendência é a de se refletir nessas figuras de natureza ambígua, mas benévola; e isso tem um efeito, ao mesmo tempo, reconfortante e encantador".

Avrò cura di te [Vou cuidar de você], há dois meses estável nos andares superiores das listas dos livros mais vendidos, é um romance epistolar em que quem dialoga é uma mulher de 36 anos em cris (com a "voz" de Chiara Gamberale) e um anjo, Philemon ("interpretado" por Massimo Gramellini), expressão da interioridade antes que do além.

Na fantasia Die for me (De Agostini), primeiro ato de uma trilogia para jovens adultos, Amy Plum descreve a figura do clássico bonito e impossível: o que torna Vincent inacessível para Kate é o fato de que ele é um fantasma, e ela, a sua protegida. Ou seja, ele é um anjo da guarda, disposto a tudo para salvá-la, inclusive sacrificar a própria vida.

Quanto a idas e vindas do além, há também a luz verde da ficção televisiva Braccialetti Rossi: na nova temporada, "aparece" Davide (o ator Marco Trovato), chamado novamente à vida e ao serviço com a semelhança de um anjo. Enquanto no último filme de Gabriele Salvatores, Il ragazzo invisibile, do qual também foi lançado o romance assinado pelos roteiristas, é um pai-anjo quem vigia sobre o filho quando descobre a sua natureza de super-herói.

Vigiar, guardar para proteger é uma das missões do anjo: vêm à mente o benevolente olhar do alto do anjo Damien (Bruno Ganz) do filme de Wenders Asas do desejo (foto acima) e o olhar inquieto de Max (Jessica Alba) do Space Needle de Seattle, onde se conclui cada episódio da série de TV Dark Angel.

Ao lado do cuidado e da proteção, outra tarefa do anjo – talvez a menos apreciada em uma sociedade como a nossa, hipersensível à privacidade – é o controle: para evitar que alguém se desvie do caminho.

Andrei Kurkov, depois da reportagem Diários ucranianos, intitulou como Il vero controllore del popolo [O verdadeiro controlador do povo] o seu novo livro, uma investigação misturada com humor de um anjo que desceu à terra para verificar por conta própria o motivo de uma escassez de matéria-prima no Paraíso. O tom é divertido, assim como o de Arto Paasilinna no igualmente explícito Professione angelo custode [Profissão anjo da guarda]. Trama: Sulo, de 82 anos, depois da péssima experiência da morte, volta para a Terra com a missão de cuidar de um solteirão de 40 anos ocioso.

Também sobre anjos, desta vez como metáfora do diferente, no poético As estranhas e belas mágoas de Ava Lavender, que conquistou os blogueiros. "Muitos me consideravam a encarnação de um mito, a personificação de uma magnífica lenda", assim se apresenta Ava, de 16 anos. Ela nasceu com asas, mas não pode voar, vive escondida à espera de descobrir o mistério que lhe diz respeito...

Experiências, culturas e tradições

Fora do âmbito estritamente narrativo, o campo corre o risco de ser escorregadio entre experiências, culturas e tradições. À primeira categoria, pertencem, na qualidade de intermediários entre mundos, Craig Warwick, sensitivo já ao serviço da princesa Diana e de Kate Winslet, estrela das TV inglesa e italiana, autor de Tutti quanti abbiamo un angelo [Todos temos um anjo] e outros livros que convidam a aproveitar o lado extraordinário da vida.

Um passo a mais no filão experiencial foi dado por Doreen Virtue, psicóloga e ensaísta que inventou a Angel therapy, com cursos, sessões e prateleiras inteiras de livros nas lojas do mundo inteiro.

Por outro lado, quem dá densidade e consistência histórica e filosófica à matéria é Angeli. Ebraismo Cristianesimo Islam [Anjos. Judaísmo, cristianismo, Isla] (Ed. Neri Pozza), uma antologia de referências, da Bíblia ao sufismo, que, entre os textos mais importantes, apresenta os escritos de Avicena, Tomás de Aquino, Orígenes, Maimônides.

Os anjos, como seres super partes, se candidatam ao papel de portadores de uma cultura de convivência e diálogo inter-religioso? Esse convite a não subestimar o seu poder também veio do Papa Francisco: "Todos nós, segundo a tradição da Igreja, temos um anjo que nos protege e nos faz sentir as coisas".

Mas a figura do anjo vai além dos diferentes credos, reiteram, de lados opostos, Vincenzo Pace, professor de sociologia da religião em Pádua, e Gustavo Pietropolli Charmet, psiquiatra e psicoterapeuta especializado na educação de crianças e adolescentes.

"Com os anjos, imaginamos o abstrato, o invisível assume semelhanças humanas – observa Pace – e não surpreende que, em outras culturas, a mesma coisa acontece com o demônio. Eles explicam o melhor e o pior de uma pessoa. Em geral, o destino dessas criaturas na sociedade hoje é a demonstração de como acreditamos de maneira diferente. O sagrado não precisa ser reconhecido por força em uma religião".

Quem fala de presenças que têm a ver com o nosso "eu" mais profundo é o psicoterapeuta Pietropolli Charmet, que começa brincando: "Quando criança, eu não acreditava, mas, para não ser questionado na escola, eu invocava a proteção de um anjo da guarda pessoal".

Depois acrescenta: "Os anjos são uma invenção simbólica profunda que vem antes da religião; são o nosso duplo. Quando crianças, criamos amigos imaginários, figuras com as quais estabelecemos um vínculo fraterno, com quem falamos como iguais. Depois, crescendo, os deixamos para trás".

Substituímo-los com figuras reais com as quais estabelecemos laços ("Os amigos do coração e as pessoas amadas, mulheres e homens, no entanto, figuras 'angelicadas'"). Mas algo daquela ideia de anjo permanece vivo em nós...

Talvez, um anjo esteja sentado ao nosso lado no carro quando viajamos. Em um estudo da Universidade de York, um grupo de pessoas foi convidado a avaliar os riscos de uma condução perigosa no carro (20 km/h acima do limite permitido): a maioria daqueles que acreditavam nos espíritos guardiões tendiam a dar valores de risco mais altos, ou seja, a considerar a situação mais perigosa do que aqueles que não acreditavam neles; os primeiros acabavam agindo de maneira mais prudente. A conclusão: acreditar nos anjos da guarda dá um resultado, muda os comportamentos cotidianos.

E se falamos muito de anjos no nosso mundo, mas ainda os vemos pouco, podemos ao menos tentar chegar preparados, quando for o momento de retribuir a visita, com o livro de Mark Twain Captain Stormfield's Visit to Heaven [Visita do capitão Stormfield ao Paraíso].

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