Papa Bergoglio começa a causar medo nos tradicionalistas

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07 Janeiro 2015

Que na Igreja Católica esteja em curso uma mistura das posições historicamente consolidadas é evidente a partir do que está acontecendo nestes dias nas mídias e na rede.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada no jornal Il Manifesto, 06-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Papistas, tradicionalistas e conservadores criticam o Papa Bergoglio e as suas novidades, em nome da imutabilidade da Santa Romana Igreja. Padres de fronteira, comunidades de base e movimentos reformadores desde sempre considerados a um passo da heresia defendem Francisco e os seus sinais de abertura, lançando um abaixo-assinado que, em poucas horas, reuniu mais de quatro mil assinaturas, como as do padre Farinella (que lançou a iniciativa), do padre Santoro e da Comunità delle Piagge, do padre Zanotelli, do padre Ciotti, do padre Bizzotto e dos Beati i costruttori di pace, dos padres operários, do movimento Nós Somos Igreja, das Comunidades Cristãs de Base (incluindo a romana do ex-abade de San Paolo, Franzoni), muitos católicos "comuns", diversos leigos.

O evento que desencadeou tudo isso foi um artigo no jornal Corriere della Sera (na véspera de Natal) de Vittorio Messori, jornalista de confiança dos dois papas anteriores (Wojtyla e Ratzinger) e "profeta" da própria eleição Bergoglio, embora ele tenha confessado o seu vaticínio – também no Corriere – no dia seguinte ao fim do conclave.

Francisco "se revelou imprevisível, a ponto de fazer repensar, pouco a pouco, também alguns cardeais que tinham estado entre os seus eleitores", escreve Messori. E as nomeações dos 15 novos cardeais anunciadas no último domingo (a maior parte do Sul do mundo, um só da Cúria Romana, nenhum dos EUA, dois italianos de "periferia", os bispos de Ancona e Agrigento, em cuja diocese está Lampedusa, meta da primeira viagem do papa) parecem confirmar essa imprevisibilidade.

Messori, depois, imputa a Bergoglio uma contraditoriedade de fundo (o verdadeiro papa é o "das pregações do pároco das antigas" ou "aquele que telefona para Pannella" e "lhe deseja 'bom trabalho', quando, há décadas, o trabalho do líder radical consistiu e consiste em pregar que a verdadeira caridade está na luta para o divórcio, aborto, eutanásia, homossexualidade para todos?") e o acusa de agir e de falar "perturbando a tranquilidade do católico médio, habituado a deixar de pensar por conta própria, em relação a fé e costumes, e exortado a se limitar a seguir o papa".

O artigo faz ruído, por causa da assinatura, por causa da sede (o Corriere della Sera não é exatamente o Il Foglio de Giuliano Ferrara) e porque são especulados "mandantes curiais". O primeiro a responder foi o teólogo brasileiro Leonardo Boff, ao qual Messori replicou no Corriere dessa segunda-feira.

Mas, acima de tudo, move-se toda a Igreja de base italiana, com o abaixo-assinado público "em apoio do Papa Francisco". "Opomo-nos a essas manobras – afirma-se –, expressão de um conservadorismo que muitas vezes impediu a Igreja de cumprir a sua única tarefa de evangelizar. O Papa Francisco é perigoso porque anuncia o Evangelho, partindo novamente do Concílio Vaticano II, por muito tempo congelado. Os clericais e os conservadores que se opõem a ele são os mesmos que enterraram o Concílio e que até ontem eram defensores inabaláveis do 'primado de Pedro' e da 'infalibilidade papal' só porque os papas, acidentalmente, pensavam como eles".

E podemos ter a certeza de que o choque vai continuar.