28 Junho 2007
“Gênero, sexualidade e violência: uma investigação sociolingüística interacional de atendimento à saúde da mulher” é o título da pesquisa que a professora Ana Cristina Ostermann está desenvolvendo. Nela, Ana Cristina investiga as atuais políticas nacionais de saúde, em especial a Política Nacional de Humanização SUS e a Atenção Integral à Saúde da Mulher, buscando o valor da linguagem no processo de humanização da relação entre médico e paciente mulher. A IHU On-Line entrevistou, pessoalmente, a professora.
Na entrevista, que você confere a seguir, Ana Cristina fala da interação da pesquisa com a mulher e sua sexualidade, da observação sociolingüística dos atendimentos médicos e não-médicos pesquisados e das relações de poder compreendidas através do processo utilizado no trabalho. “Numa perspectiva feminista, tentamos resgatar que a mulher também tem o controle, conhecimento sobre seu corpo”, afirma a professora, sem esquecer de que tudo isso é possível através do tipo de informação que essa mulher recebeu.
Ana Cristina Ostermann é graduada em Letras pela Unisinos. Realizou mestrado em Inglês e Literatura Correspondente, pela Universidade Federal de Santa Catarina, e em Lingüística, pela University Of Michigan, nos Estados Unidos. Também na área de Lingüística, realizou seu mestrado na mesma universidade estadunidense. Atualmente, Ana Cristina é secretária da International Association of Gender and Language, nos Estados Unidos, e professora do curso de Letras da Unisinos.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Como a sua investigação sociolingüística interage com a mulher e a sexualidade?
Ana Cristina Ostermann – A minha pesquisa está dividida em duas partes. Estou observando como se dão as interações num posto de saúde que tem um setor especializado na saúde da mulher. Quando eu digo que estou tratando de sexualidade e violência, é porque tudo isso pode ser relatado na interação com um médico de um posto que se mobilizou para atender uma solicitação do governo por meio de uma política nacional de humanização do SUS (Sistema Único de Saúde). Ou seja, o posto se mobilizou para oferecer um atendimento diferenciado. Na outra parte da pesquisa, observamos os atendimentos não-médicos, feitos a partir de um telefone do Ministério da Saúde, o Disque Saúde (1). Dentro desse “atendimento”, existe um menu específico sobre a saúde da mulher. Essas duas partes visam a ver se está se dando ou não o processo de humanização nos dois tipos de atendimento. Esse call center criado pelo governo atende mulheres que ligam para o telefone indicado e querem saber coisas muito específicas, por exemplo como se usa uma camisinha, ou para se informarem sobre os diferentes tipos de contraceptivos que existem.
IHU On-Line – E como funcionará a pesquisa sociolingüística interacional?
Ana Cristina Ostermann – O que interessa para a pesquisa é como as pessoas se comunicam no mundo, ou seja, como se dá o processo de comunicação entre elas. Diferentemente de quando faço uma entrevista e pergunto à mulher como ela foi atendida, nesta pesquisa eu olho para o evento discursivo em si. Ou seja, nós entramos no consultório com a mulher, gravamos as interações em áudio e, a partir dali, nós transcrevemos o que ela disse, mas de uma forma diferente do jornalismo e da psicologia. Isso porque, na transcrição, marcamos inclusive exaltação e repetição, percebidas quando a mulher demonstra a dificuldade que tem de falar sobre seu próprio corpo. Nós podemos ver, a partir da transcrição, a dificuldade que ela tem ao lidar com seu próprio corpo, com a sexualidade e tantas outras coisas que fazem parte do seu mundo. Então, nós gravamos o evento, que chamamos de naturalístico. Não é um evento criado, pois não tem uma pauta a ser seguida, isto é, as conversas gravadas num evento naturalístico aconteceriam mesmo se não estivéssemos gravando. Elas são analisadas a partir de uma perspectiva chamada análise da conversa e sociolingüística interacional. Observa-se e analisa-se como as pessoas dão conselhos umas às outras, como os tratamentos são prescritos, informados e os procedimentos que devem ser realizados. São mil coisas que as pessoas fazem interacionais no dia-a-dia que nós transcrevemos e, de uma forma sistemática, analisamos.
IHU On-Line – Como a senhora vê o resgate do valor da linguagem em relação a humanização dos médicos, ao tratar de mulheres que sofreram algum tipo de violência?
Ana Cristina Ostermann – Isso é algo que nós prevíamos que apareceria nos dados, mas não tivemos nenhum caso de mulher que relatasse violência. Imagino que se isso estiver acontecendo para o pessoal da saúde, é na porta de um posto de emergência, ou seja, a mulher procura auxílio médico assim que o fato ocorreu. Nenhuma de nossas entrevistadas relatou algo nesse sentido, pelo menos até agora. Claro que nós pedimos autorização para acompanhá-las durante a consulta e recebemos diversas negativas. Além disso, nessas interações não sabemos o que aconteceu, se a paciente relatou alguma coisa dessa ordem, por exemplo. Esse é o aspecto que está nos faltando ainda. Com a pesquisa do call center criado pelo Ministério Público em julho, talvez tenhamos acesso a algumas coisas dessa natureza, pois sabemos que no encontro face a face é mais difícil relatar uma violência sofrida. Mas, por exemplo, se alguém liga para o call center que, obviamente, não conhece, talvez seja muito mais fácil encontrar esse tipo de relato/denúncia.
IHU On-Line – E como a senhora tem investigado a humanização da linguagem utilizada, em especial, pelo SUS?
Ana Cristina Ostermann – Essa política nacional de humanização do SUS é algo de uma dimensão muito maior do que a linguagem. Na verdade, se olharmos um documento que se chama Manual de Humanização do SUS, veremos apenas dois parágrafos que falam sobre linguagem. O restante do documento está voltado para, por exemplo, a diminuição de filas e o aparelhamento dos postos de saúde, elementos que, é claro, também fazem parte de um processo de humanização. No entanto, como eu sou da área de linguagem e sei que por meio dela se pode humanizar muito uma relação, inclusive com pouquíssimos recursos, nós começamos a desenvolver a pesquisa. Assim, estamos atentando para um meio mais barato e mais fácil de ajudar alguém a ser tratado.
IHU On-Line – E como, por exemplo, a psicologia é inserida dentro da sua pesquisa?
Ana Cristina Ostermann – Por mais que pareça que tem um viés psicológico, não tem. Pois sempre dizemos que em pesquisa de sociolingüística interacional tudo o que não fazemos é entrar na cabeça das pessoas, mas temos acesso ao que elas fazem no mundo por intermédio da linguagem. Esse é o acesso que nós temos: o de que por meio da linguagem podemos ver o processo de humanização também. Ou seja, como eu trato alguém nas minhas práticas interacionais reflete o quanto estou ou não preocupado com o outro, com o próximo. Mas a parte psicológica não é observada por nós. A não ser que as pessoas externem isso de alguma forma.
IHU On-Line – Mas a pesquisa pode ser utilizada pela área da psicologia...
Ana Cristina Ostermann – Pode. Há muitas pessoas da psicologia que trabalham com uma questão específica, que é como se dá a má notícia, assim como tem muitas pessoas da Lingüística que pesquisam para entender como os médicos fazem esse processo de informar ao paciente algo que não é bom para ele. Esse é um dos pontos de contato que se estabelece com a psicologia.
IHU On-Line – Como a senhora acha que as pessoas estão sendo informadas no que diz respeito aos contraceptivos, doenças sexualmente transmissíveis e violência de gênero?
Ana Cristina Ostermann – Eu vejo com bons olhos esse call center do Ministério da Saúde para o qual eu posso ligar, falar por quanto tempo quiser e perguntar sobre absolutamente tudo. Eu estava em Brasília, em maio, acompanhando esse processo, e ouvi algumas das gravações. Percebi que há, por exemplo, meninas muito jovens, inclusive com uma voz quase infantil, que ligam. Então, a pessoa que está do outro lado da linha pode ir adequando sua fala à pessoa que está ligando. Nesse sentido, eu acho muito bom. Nos postos de saúde, também há um processo muito bom, sabendo que uma das primeiras perguntas que o médico faz à pessoa é se ela está “se cuidando”. Já em escolas não sei muito bem como este processo vem acontecendo, mas há muitos cartazes, programas etc.
IHU On-Line – E, para entender esse processo sociolingüístico, qual é a perspectiva sob qual a pesquisa está sendo analisada? É feminista?
Ana Cristina Ostermann – Com eu tenho já há anos uma preocupação com pesquisa de gênero, não há como eu não olhar por uma perspectiva mais feminista. Sabemos que a medicina tomou conta do corpo da mulher, fazendo com que ela perdesse um pouco do controle sobre ele. Numa perspectiva feminista, tentamos resgatar a idéia de que a mulher também tem o controle, conhecimento sobre seu corpo, opção de escolhas sobre o que quer fazer em termos de contracepção, mas, para isso, ela precisa estar informada. Eu acho que precisa ser resgatada a “agentibilidade” para a mulher sobre o seu próprio corpo, mas, ao mesmo tempo, com muita informação. Isso porque não consigo fazer decisões sobre mim se eu não tenho informação. Então, eu digo que meu trabalho está preocupado com esses dois vieses, com essas duas perspectivas. Não há psicologias, mas sim, por certo, uma perspectiva feminista e lingüística.
IHU On-Line – Através desse processo, é possível compreender, por exemplo, as relações de poder?
Ana Cristina Ostermann – Totalmente. Por exemplo, há vários mecanismos que utilizamos na fala-interação. Na repercussão da fala do outro, há falas que chamamos de condescendentes. Um exemplo de fala condescendente é: "Tenho uma filha de quatro anos e quando eu a levo ao médico pediatra, ele diz: `levanta a blusinha, dá o bracinho etc.` ". Quando um médico fala com uma paciente adulta, essa é uma forma condescendente; trata a pessoa de uma forma minimizada, infantilizada. Outro exemplo é a interrupção da fala do paciente.
Essa é uma questão crucial de linguagem, pois quem está com a caneta na mão e o receituário é o médico. Por outro lado, o poder de decisão é do paciente. Quantas vezes saímos de um atendimento, público ou privado, sentindo que não falamos tudo o que queríamos porque lá pelas tantas o médico já estava destacando seu receituário e arrumando sua mesa? Esses gestos implicam questões de poder.
Nota:
(1) 0800-611997. Funciona todos os dias da semana, das 8 às 18 horas.