A rua, o novo e o medo

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19 Junho 2013

"Talvez, as formas modernas de organização social estejam revelando seu esgotamento. Nas ruas", escreve Rudá Ricci, sociólogo, em comentário publicado em seu blog, 19-06-2013.

Eis o texto.

Embora eu tenha rejeição quase física ao discurso pós-moderno, tenho a impressão que nós (eu tenho 50 anos), que nos formamos na lógica moderna, de compreensão universalizada do mundo, a partir de estruturas verticalizadas, com força de mando sobre os associados, estamos com muitas dificuldades para compreender este novo que está nas ruas.

O mundo moderno é racional (embora contraditório), procura explicar tudo e todos através de conceitos e chaves teóricas, admira à distância (e reservadamente) a intuição. É marcado por um forte chamamento ao discurso ético.

O discurso pós-moderno é fragmentado, muito mais afeito ao estético que ao ético. Não se fia por uma ordem racional porque é multifacetado, quase irresponsável porque acolhe o quebra-cabeças como o real. Algo como "o aqui e o agora", onde o futuro se constrói na própria caminhada.

Para os que se formaram a partir dos lastros modernos (meu caso), é difícil se abrir para algo tão próximo do intimismo, beirando o egoísmo. Muitos de nós, sociólogos, tivemos uma admiração velada ao discurso psicanalítico justamente porque não conseguimos pensar o mundo a partir do indivíduo. O indivíduo, em grande parte das nossas teorias, é subproduto.

Continuo rejeitando emocionalmente (e racionalmente) o discurso pós-moderno, mas ele parece explicar, ainda que parcialmente, o que vemos nas ruas do Brasil nos últimos dias.

Aliás, as manifestações são parte do Brasil, já que a grande massa, até aqui silenciosa, que alimentou seu orgulho próprio com o consumo desenfreado dos últimos dez anos, não esteve presente em nenhuma manifestação dos últimos dias.

Falo dos 40 milhões de brasileiros que saíram da pobreza e foram incluídos socialmente pelo consumo. É o Brasil do outro lado, aquele sobre quem o discurso moderno se alimenta.

Estamos presenciando o imponderável tomar conta das manchetes da grande imprensa.

E é óbvio que o imponderável leva ao risco.

É possível ter certeza que as manifestações não desaguarão em algo irresponsável? Não.

Mas já existem sinais neste sentido? Não.

Então, o temor ou receio de alguns que se expressam (legitimamente) nas redes sociais (quase sempre próximos de minha idade) não têm motivos para não se abrirem ao novo. Vamos acompanhar e procurar compreender.

Talvez seja um primeiro sinal, não definitivo como tudo o que é ainda mero sinal, de uma virada de página nas formas institucionalizadas de representação social.

Talvez, as formas modernas de organização social estejam revelando seu esgotamento. Nas ruas.