O Papa que “não pode sair” para ouvir confissões

Mais Lidos

  • A ferrovia bioceânica Brasil-Peru promete agilizar o comércio com a China. Mas a que custo?

    LER MAIS
  • “As ideias de Yarvin e de outros são um absurdo, mas as prescrições liberais do mundo seguem linhas semelhantes". Entrevista com Carlos Fernández Liria

    LER MAIS
  • Antonio Banderas ao Papa: "Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus"

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Por: André | 24 Mai 2013

Como bispo e depois como cardeal, Jorge Mario Bergoglio nunca deixou de ouvir confissões. E a importância que este diálogo com os fiéis no confessionário teve para ele está demonstrada em suas homilias e em seus discursos. Agora, como Papa, não tem a possibilidade de “sair” do Vaticano para ouvir confissões em alguma paróquia, como fazia em Buenos Aires.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada no sítio Vatican Insider, 21-05-2013. A tradução é do Cepat.

Francisco fez uma alusão a este respeito no sábado passado, dia 18 de maio, no discurso pronunciado durante a vigília de Pentecostes na Praça São Pedro (para mais de 200.000 fiéis de 150 movimentos, associações e novas comunidades eclesiais): devemos nos converter em cristãos corajosos, indicou, para “buscar os que são justamente a carne de Cristo, aqueles que são a carne de Cristo! [...] daqui não se pode sair, mas este é outro problema; quando ia ouvir confissões na diocese anterior...”. Ao dizer estas palavras, o Papa quase se voltou para os seus colaboradores: “...daqui não se pode sair...”.

Francisco também recordou que sempre perguntava aos penitentes o seguinte: “‘E você, dá esmola?’ ‘Sim, padre.’ ‘Ah, muito bem, muito bem.’ E perguntava ainda outras coisas: ‘Me diga, quando dá esmola, olha nos olhos daquele ou daquela a quem a está dando?’. ‘Ah, não sei, não me dei conta disso.’ Segunda pergunta: ‘E, quando dá esmola, toca a mão daquele a quem está dando a esmola, ou lhe joga a moeda?’. Este é o problema – continuou o Papa – a carne de Cristo, tocar a carne de Cristo, carregar nos nossos ombros esta dor”.

No dia 17 de março, primeiro domingo depois da eleição, Francisco contou, durante a homilia na paróquia de Santana, outra anedota para exemplificar sua experiência de confessor. Descreveu um diálogo mantido num confessionário, quando um homem, ao ouvir que lhe falavam sobre a misericórdia de Deus, respondeu: “‘Mas, padre, se você conhecesse minha vida, não me falaria assim!. Por que?, O que você fez?. Oh, fiz coisas graves!’. Melhor! Vá com o Jesus: Ele gosta que lhe digam estas coisas! Ele se esquece. Ele tem uma capacidade especial para esquecer-se. Esquece-se, beija-te, abraça-te e diz apenas: ‘Tampouco eu te condeno. Vai e de agora em diante: não peques mais!’, só esse conselho te dá”, disse o Papa. “‘Oh, padre, se você conhecesse a minha vida, não me falaria assim! Fiz coisas muito más!’”. Depois de um mês voltamos às mesmas condições... Voltemos ao Senhor. O Senhor não se cansa nunca de perdoar: nunca! Somos nós que nos cansamos de pedir perdão”.

Depois de ter pronunciado estas palavras, Francisco se aproximou pela primeira vez da janela do estúdio papal no Palácio Apostólico, para recitar o Angelus. E também aí, improvisando sobre a misericórdia, recordou outra anedota sobre sua experiência de confessor. “Recordo que, quando era bispo pouco tempo, em 1992, chegou a Buenos Aires a Virgem de Fátima e se fez uma grande missa para os enfermos. Fui para ouvir confissões nessa missa. E quase no final da missa me levantei, porque tinha que administrar a confirmação. Aproximou-se uma idosa, humilde, muito humilde, de mais de 80 anos. Eu a vi e lhe disse: ‘Nona’ – porque entre nós é assim que chamamos os idosos: ‘nona’ – quer se confessar?’ ‘Sim’, disse. ‘Mas se você não pecou...’. E ela me disse: ‘Todos pecamos...’. ‘Mas, talvez, o Senhor não nos perdoa...’. “O Senhor perdoa tudo’, me disse com segurança. ‘E você, como sabe disso, senhora?’ ‘Se o Senhor não perdoasse tudo, o mundo não existiria’. E me deu vontade de lhe perguntar: ‘Mas, você estudou na Gregoriana?’, porque essa é a sabedoria que dá o Espírito Santo: a sabedoria interior para a misericórdia de Deus. Não nos esqueçamos desta palavra: Deus não se cansa nunca de nos perdoar, nunca!”.

No dia 17 de maio passado, durante a homilia da missa matutina que celebrou na Casa Santa Marta, contou outra anedota de confessionário, embora neste caso não tivesse se referido explicitamente à sua experiência como confessor: “Uma vez soube de um padre, um bom pároco que trabalhava bem; foi nomeado bispo, e ele tinha vergonha porque não se sentia digno, tinha um tormento espiritual. E foi ter com o confessor. O confessor ouviu-o e disse: ‘Não te assustes. Se com todos aqueles pecados a Pedro fizeram-no Papa, tu continua e vai em frente’. É que o Senhor é assim. O Senhor é assim. O Senhor faz-nos amadurecer com os nossos encontros com Ele, mesmo com as nossas debilidades, quando as reconhecemos, com os nossos pecados…”.

Com estes exemplos se pode entender a importância que teve para Francisco, um Papa que foi pároco e diretor espiritual e que dialogou com os penitentes no confessionário. Uma característica que o aproxima particularmente de João Paulo I, quem, como bispo, sempre confessava. Sua irmã, Antonia Luciani Petri, indicou que as posturas de abertura de Paulo VI sobre a possibilidade da anticoncepção manifestadas antes da publicação da Humanae Vitae nasceram justamente deste diálogo com os fiéis.