Dentro do seu governo, Humala defende grupo da direita

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Por: Jonas | 18 Mai 2012

Mudar para que tudo continue igual, esta é a frase que resume as mudanças ministeriais realizadas pelo presidente Ollanta Humala, obrigatoriamente feitas devido à crise política que derrubou os seus ministros do Interior e da Defesa. Para assumir os postos dos dois ministros que se demitiram na quinta-feira, para evitar a censura do Congresso pelos erros nas operações militares e policiais contra a guerrilha do Sendero Luminoso, o presidente Humala deixou de incorporar pessoas novas no gabinete, optando por mudar algumas peças dentro da sua equipe ministerial. Houve um rodízio ao invés de uma mudança. Nessa decisão de não mudar, apesar da troca obrigatória dos dois ministros, pressionada pelo Congresso, Humala decidiu manter em seu posto o questionável primeiro ministro, o general aposentado Oscar Valdés, seriamente fragilizado pela recente crise ministerial e pela sua incapacidade de lidar com protestos sociais que, nos últimos meses, deixaram nove mortos.

A reportagem é de Carlos Noriega, publicada no jornal Página/12, 16-05-2012. A tradução é do Cepat.

As novas nomeações, dos ministérios do Interior e da Defesa, foram questionadas por diversos setores. O rodízio entre os membros da equipe ministerial colocou no Ministério da Defesa o até ontem ministro da Produção, José Urquizo, que, por sua vez, foi substituído, em antigo ministério, pela sua vice-ministra, da Pequena e Microempresa, Gladys Triveño. Para o Ministério do Interior foi nomeado o aposentado general do exército, Wilver Calle, que era vice-ministro da Defesa. Nem haviam terminado de receber as saudações protocolares, com o juramento no Palácio de Governo, na segunda-feira à noite, e Urquizo e Calle já começavam a receber as primeiras críticas.

O general Wilver Calle foi vice-ministro do ex-titular da Defesa, Luis Alberto Otárola, que foi obrigado a deixar o cargo devido aos desacertos nas operações conjuntas do exército e da polícia frente ao Sendero Luminoso, desempenhando papel central na equipe que cometeu os erros que precipitaram a crise ministerial. No entanto, ele agora assume como ministro do Interior, cargo em que terá um papel chave sobre este assunto. Humala também é criticado por entregar a cadeira do Interior para um militar.

José Urquizo, o novo ministro da Defesa, nas últimas semanas, havia enfrentado duras críticas pela sua gestão na pasta da Produção, que tinha assumido em dezembro passado. A sua vice-ministra da Pesca, Patricia Majluf, renunciou, dias atrás, acusando-o publicamente de ceder frente as pressões das grandes empresas pesqueiras e de não proteger os recursos marinhos. Uma recente greve de pescadores deixou dois mortos.

“Esta é uma mudança que expressa a menor vontade de mudança possível. É um enfoque dentro da casa, que não anuncia nenhuma mudança política no assunto que gerou a crise (os erros de estratégia diante da guerrilha do Sendero Luminoso). Não existe um reconhecimento dos erros cometidos e da magnitude da crise”, destacou Carlos Monge, historiador e principal pesquisador do Centro de Estudos e Promoção do Desenvolvimento (Desco).

Aos questionamentos dos novos ministros do Interior e da Defesa, somam-se as críticas à decisão do presidente Humala em manter o desgastado general Oscar Valdés como chefe do Gabinete Ministerial. Em dezembro, o general Valdés foi nomeado primeiro ministro – antes havia sido ministro do Interior – em meio à crise pelos protestos camponeses contra um projeto de mineração da transnacional Yanacocha, devido o seu alto custo ambiental. Ele assumiu o cargo com um discurso de mão de ferro aos protestos sociais, fechou o diálogo com as organizações sociais e se colocou em defesa do rejeitado projeto de mineração da Yanacocha. Nos últimos meses, a repressão aos protestos deixou nove mortos.

Um setor da aliança governamental, integrado por grupos e personalidades de esquerda, exigiu publicamente a saída de Valdés, mas a direita mais dura, encabeçada pelo fujimorismo e as associações empresariais, respalda a continuidade do questionado general, que se declarou admirador do “pragmatismo” do ex-ditador Alberto Fujimori, a quem vê como uma figura importante no endireitamento do governo e como garantia para dar uma resposta repressiva aos protestos sociais. Humala, que cada vez aparece mais distanciado de seus aliados de esquerda, decidiu-se pela continuidade de seu primeiro ministro e, também, pela continuidade de uma política econômica que pouco ou nada tem a ver com as promessas de mudança da campanha eleitoral. Nestas circunstâncias, uma divisão da aliança oficial, com a saída do setor progressista, parece ser questão de tempo. A continuidade de Valdés à frente do gabinete pode acelerar essa ruptura.

“A permanência da esquerda no governo é insustentável porque ela destoa de todas as políticas que o governo está seguindo, que tem traído as propostas de mudança que a esquerda apoiou. Parece-me que essa ruptura é inevitável. A questão é em que momento isso irá acontecer”, opina Carlos Monge.