Cardeal cubano é insultado

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16 Mai 2012

No mundo livre, ainda não havia acontecido que uma rádio e uma TV estatal acusassem um cardeal de ser um canalha, até porque o seu crime é estranho: "reconciliar" o povo dividido pelos dogmas de comunismo e capitalismo, guerras frias que se aprofundam no século XX. Mesmo os sovietes de Moscou, quando esmagavam a Igreja polonesa do cardeal Wyszynski, escondiam a crueldade na hipocrisia da forma evitando "forçações não indispensáveis", enquanto impunham que bispos e sacerdotes jurassem fidelidade à Constituição que lhes escravizava.

A análise é de Maurizio Chierici, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 15-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Se César se assenta ao altar, não podemos obedecer-lhe", responde o cardeal. Esse non possumus liga Wyszynski a uma prisão dura. Gozar da situação sem escrúpulos e deixar correr a angústia daqueles que sorriem às multidões que enganam é a hipocrisia dos homens fortes. Se pode ser um consolo, a hipocrisia acabou. E os rancores vão ao ar contra aqueles que tentam desarmar dogmas que estão apodrecendo.

Eis os insultos do diretor da Rádio e TV Martí, de propriedade do Departamento de Estado. O alvo: Jaime Ortega, cardeal de Havana.

No desastre da economia cubana, a sua Cáritas ajuda o governo a saciar as pessoas. Não porque "se converteu ao comunismo". Quando era padre, Fidel e Raúl o condenaram a trabalhos forçados. Agora, a prostração de um povo impõe solidariedades concretas. Mas saciar os famintos é apenas um curativo, não uma esperança.

E o cardeal convida os intelectuais católicos ao diálogo não só com os intelectuais do birô comunista, mas sobretudo com os cubanos da diáspora de Miami para resolver os problemas de uma sociedade às presas na contraposição dos ultras que não se resignam a perder os privilégios do antagonismo em que sobrevivem, de um lado e de outro.

Na Universidade de Harvard, Ortega fala sobre os 13 dissidentes que, em Havana, ocupam uma igreja enquanto Ratzinger está prestes a chegar. Eles querem encontrá-lo para lhe sugerir o que ele deve dizer. "Entre eles, delinquentes condenados por crimes comuns". Ele se dirige à polícia para pedir a sua remoção e torna-se um "lacaio" do governo comunista, porque dialogar e não combater é uma "canalhice".

Beatificam o exemplo de um bispo que "nunca se rendeu", Agustín Román. Anos atrás, ele aconselhava Ortega em visita a Miami que não pronunciasse a palavra maldita, sempre a mesma: reconciliação. Sugestão magnificada "por ter posto em prática o que pregava do púlpito". Durante o encontro cubano-americano de 1996, sentado ao lado de Madeleine Albright, secretária de Estado, Román reza "ao Senhor para que arme a mão dos fiéis para derrubar o anticristo Fidel".

Agora, o departamento de Hillary Clinton se distancia timidamente. Obama está na corrida à reeleição, e o voto latino da Flórida pode ser decisivo. Ele reafirma o direito à autonomia da Rádio e da TV Martí, em sincronia com o diretor, Carlos García Perez, que avisa que não tem que pedir nenhuma autorização para dizer o que disse.

Não é verdade. Uma vez, eu fui me encontrar com Humberto Medrano no seu histórico escritório da Rádio Martí. Ele se comoveu ao se lembrar da primeira transmissão, naquele 1985. Eu ligo o gravador para as perguntas: "Um momento", um alerta da voz mais livre das Américas. "Eu não estou autorizado a contar o que penso sem a permissão de O'Connell, nosso superior no departamento de Washington. Eles pagam, devem estar de acordo".

O cardeal é um príncipe da Igreja. Talvez Miguel Diaz, teólogo de família cubana, embaixador dos EUA no Vaticano, explicou ao secretário de Estado, Bertone, por qual estratégia eles deixaram que os palavrões corressem soltos.