16 Mai 2012
"Mas os partidos estabelecidos da Alemanha podem nunca conseguir satisfazer as expectativas políticas de uma geração mais jovem, desmamada na internet e na globalização. 'É onde os piratas entram para preencher o vácuo', disse Stephan Klecha, um cientista político do Instituto para Pesquisa Democrática da Universidade Georg-August, em Goettingen, sobre o partido político. 'Eles estão convencidos de que podem mudar a forma como a política e a democracia funcionam.'"
A reportagem é de Judy Dempsey, publicada no Herald Tribune e reproduzida pelo Portal Uol, 15-05-2012.
É uma imagem constante de Angela Merkel: seu celular firmemente preso em suas mãos, pouco acima do colo, enviando mensagens de texto em uma velocidade impressionante.
Assim que se tornou chanceler em 2005, os legisladores alemães, especialmente os pertencentes à União Democrata Cristã conservadora de Merkel, passaram a não ter escolha a não ser acompanhar as comunicações dela por mensagens de texto.
Merkel foi mais longe. Ele introduziu seu próprio podcast semanal no site da chancelaria. Outros partidos logo seguiram o exemplo, com o Partido Democrático-Liberal pró-negócios, construindo um site movimentado, projetado para gerar discussão.
Mas os partidos estabelecidos da Alemanha podem nunca conseguir satisfazer as expectativas políticas de uma geração mais jovem, desmamada na internet e na globalização. “É onde os piratas entram para preencher o vácuo”, disse Stephan Klecha, um cientista político do Instituto para Pesquisa Democrática da Universidade Georg-August, em Goettingen, sobre o partido político. “Eles estão convencidos de que podem mudar a forma como a política e a democracia funcionam.”
A ascensão do Partido Pirata tem sido fenomenal. Ele chegou em setembro ao Parlamento Municipal de Berlim, posteriormente ao Legislativo do estado de Sarre, no oeste, e na semana passada ao governo do Estado de Schleswig-Holstein, no norte.
No domingo, o Partido Pirata conquistou quase 8% dos votos na Renânia do Norte-Vestfália --uma grande vitória naquele que é considerado um Estado termômetro. Também ocorreram outros grandes reveses lá: os social-democratas e verdes voltaram ao poder, enquanto os democratas-cristãos foram trucidados, uma grande derrota para Merkel.
Impulsionados por esses sucessos, os piratas agora estão de olho nas eleições nacionais do ano que vem, apesar de terem poucas políticas concretas em relação à crise do euro, à economia ou a questões sociais e de segurança. Apesar de existirem, as sugestões deles tendem a ser caras, como o fornecimento de um laptop para cada aluno de escola ou dar a todos uma renda mínima independentemente de trabalho.
O que eles têm a seu favor é um tipo especial de transparência e prestação de contas desconhecido por outros partidos da Alemanha. Qualquer pessoa pode se inscrever e se registrar como convidado ou membro do site do Partido Pirata e ver um método particular de democracia em funcionamento. Os piratas chamam de “democracia líquida”.
Nenhuma questão é tabu, com uma exceção: quando um membro proeminente do partido declarou não acreditar que o Holocausto ocorreu, a liderança do partido, após um tempestuoso debate público, declarou propaganda neonazista fora dos limites.
Sustentar tamanha popularidade e tamanho grau de democracia para um partido que tem gerado expectativas elevadas não será fácil, como reconheceu Sebastian Nerz, vice-líder dos piratas. “Nós sabemos que o poder pode mudar um partido, especialmente a forma como ele funciona e como se conecta aos seus apoiadores e membros. Isso será difícil para nós”, disse Nerz em uma entrevista.
De fato, quando os piratas elegeram uma nova liderança no mês passado, a reação na estratosfera da democracia líquida foi reveladora. Alguns disseram que o partido estava se tornando hierárquico, que as decisões em breve seriam tomadas de “cima para baixo”, e não de “baixo para cima”, que o Partido Pirata se transformaria em um partido comum, interessado apenas no poder.
Nerz disse estar ciente das críticas. “Agora que estamos presentes em alguns poucos Legislativos estaduais, nós queremos ter uma forma mais vibrante e aberta de trabalho entre a liderança, os legisladores e nossos eleitores”, ele disse. “Será difícil, especialmente quando se tratar de tomar decisões e fazer políticas.”
Os partidos estabelecidos ficaram chocados.
“Os piratas estão tirando apoio de todos os partidos, especialmente dos verdes”, disse Andrea Roemmele, uma professora de comunicação na política e na sociedade civil da Escola Hertie de Governança, em Berlim.
Um motivo é que o Partido Verde agora é visto como parte do establishment político. O programa original dele --a proteção do meio ambiente e o fim da energia nuclear-- agora é redundante. Merkel cuidou disso após a catástrofe nuclear do ano passado em Fukushima, no Japão, quando decidiu fechar as usinas nucleares da Alemanha.
Os piratas também tiraram votos do Partido Democrático-Liberal, pegando o bastão das liberdades civis que o partido abandonou há vários anos, em prol dos interesses dos negócios. Esse é outro aspecto interessante do Partido Pirata. Os novos movimentos de protesto em outros países europeus são fortemente populistas, de direita e anti-imigração. Os piratas não são nada disso.
O único partido que aprecia a ascensão do Partido Pirata é a União Democrata Cristã.
Apesar da derrota eleitoral no domingo, a popularidade de Merkel e a de seu partido na esfera nacional estão novamente em ascensão, em parte devido aos piratas.
Os piratas estão dividindo a esquerda, para alegria dos conservadores. Isso significa que a perspectiva de uma coalizão entre o Partido Social-Democrata e o Partido Verde vencer as eleições nacionais do ano que vem parecem menores do que há poucos meses. A especulação é de outra “grande coalizão” de conservadores e social-democratas.
“Por ora, Merkel tem a vantagem, porque os piratas dividiram os partidos de esquerda”, reconheceu Nerz.
É claro, todos os partidos políticos poderiam fazer um enorme esforço entre agora e o final de 2013 para reorganizar seus sites na internet. Mas isso não bastaria para atrair os piratas. Os partidos teriam que mudar radicalmente suas posturas em relação à transparência na tomada de decisões e criação de leis. “Eu não consigo vê-los realizando essa mudança”, disse Klecha.
Mas se isso acontecesse, os piratas teriam conseguido atingir sua meta: mudar a forma como a política e a democracia funcionam. “Eu suponho que não seríamos mais necessários”, disse Nerz.