As batalhas do pontífice mais longevo

Mais Lidos

  • A ferrovia bioceânica Brasil-Peru promete agilizar o comércio com a China. Mas a que custo?

    LER MAIS
  • “As ideias de Yarvin e de outros são um absurdo, mas as prescrições liberais do mundo seguem linhas semelhantes". Entrevista com Carlos Fernández Liria

    LER MAIS
  • Antonio Banderas ao Papa: "Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus"

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

21 Fevereiro 2012

Em abril, Bento XVI completará 85 anos e será o papa o mais longevo do último século: perfila-se, assim, para a Igreja Católica uma temporada de objetiva trepidação que as circunstâncias históricas poderiam tornar dramática. No entanto, o papa teólogo, por enquanto, não pensa em se retirar. Em mais de uma vez, nos discursos dos três dias do Consistório, ele deu a entender que seguirá em frente.

A reportagem é de Luigi Accattoli, publicada no jornal Corriere della Sera, 20-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Portanto, provavelmente, teremos um segundo testemunho sacrificial por parte de um papa depois da de João Paulo II e, talvez, virá disso uma grande vantagem para a Igreja, como geralmente são – no plano da fé – as aquisições que amadurecem no sofrimento. O rosto manso e os olhos de traços aflitos com os quais Joseph Ratzinger se mostrou nas celebrações de sábado e desse domingo indicam o espírito com o qual o homem enfrenta a sua batalha.

Um papa idoso, mas que tem grandes compromissos em obras para enfrentar aquela que ele chama – sem ajustes de palavras – de "crise de fé" e que vê como grave sobretudo na Europa. No próximo mês, ele irá para Cuba e para o México, no outono europeu talvez irá para o Líbano, em meio das "primaveras árabes", para outubro, convocou um Sínodo sobre a Nova Evangelização e, então, abrirá o Ano da Fé no 50º aniversário do Vaticano II.

Sobre esses altos perfis, estava programado o Consistório desses dias, como uma oportunidade para focalizar o grande desafio do abandono da fé em muitas partes da velha cristandade e para eles o debate se atenuou. Mas, nos corredores, nas pausas, à mesa, os cardeais também falaram sobre assuntos correntes e dos mal-estares curiais.

O papa – basta olhar em seus olhos quando as câmeras filmam-no de primeiro plano – parece muito distante de qualquer interesse por esse baixo nível do debate e das lutas internas. Nem pelas reformas que, ocasionalmente, são ventiladas ele não parece estar interessado: "Se não encontrarmos uma resposta para a crise da fé, todas as outras reformas continuarão sendo ineficazes", disse ele à Cúria no dia 22 de dezembro passado.

Quanto à Cúria, parece ser clara a sua orientação a não se privar da consolidada colaboração do secretário de Estado, cardeal Bertone. Sem dúvida, o trabalho dos "corvos" que fez vazar documentos confidenciais ao longo das últimas quatro semanas estava direcionado para obter a sua substituição. Mas agora Bertone é, para o papa, aquele ponto de apoio que ele – Ratzinger – fora para João Paulo II nos últimos anos.

Obviamente, depois de tantas tempestades, a primeira tarefa do secretário de Estado será o de restaurar a ordem na Cúria. Para os papas, a relação com a "corte" e a Cúria sempre foi fonte de problemas. Um papa não italiano tem a vantagem de manter um distanciamento estratégico dos personalismos que ali dominam, mas essa vantagem se inverte em um obstáculo se os italianos que lá atuam – e que constituem a sua grande maioria – não encontram uma solução para os seus contrastes.