11 Fevereiro 2012
Dois anos de austeridade na Grécia dão seus primeiros resultados concretos: 20% de desemprego, um terço da população já abaixo do nível da pobreza, uma contração da economia que chegará ao fim deste ano a 16% e, ao contrário do que se esperava, uma elevação da proporção da dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
A reportagem é de Jamil Chade e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 11-02-2012.
Desde que Atenas passou a ser guiada pela União Europeia para lidar com suas dívidas e evitar um calote, quase nenhuma das reformas estruturais aprovadas foi implementada e a dívida continua a crescer. Já o impacto social das demissões e reduções de salários passa a ser sentido.
Em Bruxelas, diplomatas e ministros não escondem que a paciência já se esgotou com os gregos. Para o gabinete da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, ninguém mais esconde que o sentimento é de que dois anos e mais de 100 bilhões foram perdidos.
"Promessas não são mais suficientes. Esperamos medidas concretas confirmadas no formato de leis e aprovado no Parlamento", exige Ivan Miklos, ministro de Finanças da Eslováquia. "Chegou a hora de os gregos decidirem se querem cumprir as metas, não por declarações mas por ações concretas, ou se decidem assumir os riscos e consequências", alertou.
Desde os primeiros contatos entre a UE e a Grécia, em 2010, a constatação é de que a dívida do país em relação ao PIB só aumentou. Dados divulgados pela UE mostraram que a dívida grega subiu para 159% do PIB no terceiro trimestre de 2011. Em 2010, a taxa estava em 138%.
Fiasco
Muitas das leis adotadas em 2010 jamais foram implementadas e o projeto de privatização - tido como parte da salvação - se transformou em outro fiasco. A meta era arrecadar 50 bilhões. Mas, em dois anos, as vendas dos ativos do Estado somaram apenas 1,7 bilhão em um leilão da empresa de telecomunicações, que já estava até planejado antes da crise. A diferença foi o preço. O governo esperava conseguir vender a empresa por 5 bilhões. Mas teve de aceitar apenas 1,7 bilhão.
Atenas, porém, alega que a recessão mais profunda do que imaginava é o que está impedindo a aplicação de todas as medidas. 2012 será o quinto ano consecutivo de contração no PIB grego, o que tem dificultado a obtenção de resultados. Só em dezembro, a produção industrial caiu 11%.
Para 2012, no lugar de conseguir arrecadar 4,4 bilhões extras em impostos, os gregos já admitem que ficarão com apenas um quarto disso.
Nos últimos dois anos, a aplicação de medidas de austeridade fez a taxa de desemprego dobrar, atingindo 20%. A taxa de pobreza já atinge um a cada três gregos. Para a central sindical GSEE (sigla para a Confederação Geral dos Trabalhadores Gregos), o novo pacote será ainda mais prejudicial para o país.