Falemos de pirâmides. Raúl Zibechi

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29 Novembro 2025

“Chegamos a um ponto em que só os aparatos burocráticos e hierárquicos são considerados organizações verdadeiras, ou seja, instituições que se inspiram nas pirâmides estatais para reproduzi-las simetricamente. Agora, vemos que esses aparatos são completamente inúteis em tempos de caos sistêmico e que só servem como degraus para aqueles que não possuem outra ambição a não ser ascender até o topo do poder estatal”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 28-11-2025. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Dias atrás, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) convocou para a ‘sementeira’ “De pirâmides, de histórias, de amores e, claro, desamores”, que será realizada entre 26 e 30 de dezembro, no Centro Indígena de Capacitação Integral (Cideci), em San Cristóbal de las Casas, Chiapas. A convocação esclarece que a questão é abordar as pirâmides não só no sistema capitalista, mas também nos “movimentos de resistência, na esquerda e no progressismo, nos direitos humanos, na luta feminista e nas artes”.

Considero esta nova convocação sumamente importante, assim como as anteriores, porque o debate rigoroso e aprofundado é quase inexistente dentro dos movimentos, questão que contrasta com o empenho do EZLN em refletir ao mesmo tempo em que resiste e vai criando mundos que não são mais capitalistas. Rigoroso não é sinônimo de acadêmico ou de incompreensível para as pessoas comuns organizadas que resistem. Este é um aspecto central: não se reflete e analisa para obter certificados, nem promoções, mas para fortalecer as resistências, para torná-las mais lúcidas e responsáveis.

Um aspecto notável da convocação está em não só debater sobre as pirâmides de cima (embora não utilizem este termo), mas também sobre as “nossas”, aquelas que vão sendo criadas nas organizações que resistem ao sistema. Sobre as primeiras, fala-se muito; sobre as segundas, nada. Só o zapatismo tem a vontade e a coragem de colocá-las em discussão. No pensamento crítico e nos movimentos revolucionários, os erros e os horrores costumam ser atribuídos a pessoas (como Stalin, na União Soviética), mas não se coloca em questão estruturas como as pirâmides, que inspiram tanto a partidos quanto a sindicatos, mas muitas vezes também nós que lutamos contra o sistema.

Se só falamos das pirâmides do capitalismo (o Estado, a polícia, o sistema judiciário etc.), deixamos de fora nossos próprios desvios e erros, o que é muito cômodo e pouco útil. A verdade é que todas as revoluções construíram pirâmides que, como disse Immanuel Wallerstein, foram adequadas para derrubar as classes dominantes, mas depois se tornaram obstáculos para a criação de mundos novos. “O erro fundamental das forças antissistêmicas na era anterior foi acreditar que, quanto mais unificada, mais a estrutura era eficaz”.

Faz algum tempo que sabemos que, a partir dos vértices das pirâmides, novas classes dominantes pós-revolucionárias se reconstruíram, impedindo a construção de mundos não capitalistas e estabelecendo regimes autoritários que fortaleceram os Estados-nação.

O maior mérito do EZLN consiste em aterrissar esses debates na própria experiência, no ocorrido durante duas décadas nos espaços autônomos como as Juntas de Bom Governo, questão que já levantaram de forma clara e aberta no mês de agosto, no encontro “Algumas partes do todo”, na sementeira de Morelia. Naquele momento, escrevi que uma autocrítica pública e feita de baixo era “um fato absolutamente novo entre os movimentos que lutam para mudar o mundo” e que, desse modo, os zapatistas nos mostram “caminhos jamais percorridos por qualquer movimento, em todo o mundo, em toda a história”.

Hoje, não só cabe reafirmar essa percepção, mas também comprovar que os zapatistas levantam um novo desafio ao abordar as pirâmides que criamos de baixo. Isto não é pouca coisa, pois supõe olharmos no espelho para descobrir os modos opressivos que vamos criando ao pretender mudar o mundo.

O desafio é tão importante quanto complexo. Não creio que seja o caso de apontar o dedo para aqueles que constroem pirâmides, mas de refletir e explicar os problemas que acarretam, com base em uma experiência histórica de mais de um século, desde a Revolução Russa, e de um século e meio desde a Comuna de Paris. Foi a partir de sua derrota que o movimento revolucionário começou a construir aparelhos políticos centralizados e hierarquizados: os partidos políticos. Até então, a luta se sustentava em uma galáxia de organizações pouco piramidais, certamente um tanto caóticas, mas não menos combativas por isso.

Chegamos a um ponto em que só os aparatos burocráticos e hierárquicos são considerados organizações verdadeiras, ou seja, instituições que se inspiram nas pirâmides estatais para reproduzi-las simetricamente. Agora, vemos que esses aparatos são completamente inúteis em tempos de caos sistêmico e que só servem como degraus para aqueles que não possuem outra ambição a não ser ascender até o topo do poder estatal.

O debate para o qual o zapatismo nos convoca promete ser luminoso em meio à obscuridade. Propõe nadar contra a corrente do pensamento acomodado da esquerda e da academia, preso nas lógicas do capitalismo. É justamente o que é necessário para sairmos da letargia, exercermos a autocrítica e nos libertarmos das velhas ideias/prisões para seguirmos caminhando sob a tormenta.

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