“Quero dar voz às freiras abusadas por Rupnik, últimas na hierarquia masculina da Igreja”. Entrevista com Serena Luciano

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29 Novembro 2025

O documentário “Nuns vs. the Vatican” (Freiras vs. o Vaticano), de Lorena Luciano: “As vítimas têm o direito de serem escutadas”.

A entrevista é de Simona Siri, publicada por La Stampa, 26-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Apresentado em pré-estreia no DOC NYC Festival e com previsão de lançamento nos cinemas italianos em 2026, "Nuns vs. the Vatican", de Lorena Luciano, narra os abusos sofridos por diversas religiosas nas mãos de Marko Rupnik, ex-jesuíta, famoso também como artista e autor de mosaicos expostos em todo o mundo, inclusive no Vaticano.

No documentário, ele é chamado de Michelangelo do papado de João Paulo II. Excomungado em 2020 por absolver os pecados de uma noviça com quem teve relações sexuais, sua excomunhão foi revogada no mesmo mês, após seu arrependimento. Hoje o processo canônico começou, depois que o Papa Leão anunciou a nomeação dos juízes.

No documentário, duas freiras, Gloria Branciani e Mirjam Kovac, que faziam parte da comunidade de Inácio de Loyola cofundada por Rupnik na Eslovênia, relatam como o sacerdote as tinha aliciado e depois abusado sexualmente e psicologicamente de maneiras cada vez mais agressivas e violentas no início da década de 1990, usando a arte como isca, citando a ideia de que a relação com Deus também deve passar pelo corpo, convencendo-as a participar de verdadeiras orgias, porque para reproduzir a Santíssima Trindade é preciso estar em três.

Eis a entrevista.

De onde surgiu a ideia do documentário?

A partir do contato com Gloria (uma das protagonistas, ndr). Conhecê-la despertou em mim o dever moral de lançar luz sobre uma história mais comum do que imaginamos. Descobri muitas histórias que foram escondidas por medo de falar. As freiras ocupam o degrau mais baixo da hierarquia masculina da Igreja; fazem votos de obediência e castidade, não têm recursos e não têm relações de igualdade. Gloria, depois de sofrer abusos por nove anos e ter deixado o convento, estava em uma fase da vida em que precisava falar, encontrar sua voz e fazê-la ser ouvida. Para ela, manifestar-se tem um significado público e cívico, e se tornou uma ação política.

Cartaz do documentário "Nuns vs The Vatican" (Foto: Divulgação).

Qual foi a reação do Vaticano?

Um muro de silêncio. Durante anos, contatamos todos, do chefe dos jesuítas aos cardeais. Silêncio total. Minha esperança é que o filme possa sacudir alguma coisa. Com o Papa Francisco, as vítimas nunca foram ouvidas; apenas Rupnik foi ouvido. Agora, espero a elas seja dado esse direito, que lhes foi negado por tempo demais.

Você vê alguma semelhança entre o caso Rupnik e o tão discutido caso Epstein?

Com certeza. São duas pessoas não apenas poderosas, mas que, graças a suas relações com outros homens poderosos, sempre puderam agir sabendo que tinham liberdade para fazê-lo. Sempre se sentiram acima das pessoas, da lei, de tudo.

A produtora do filme é Mariska Hargitay, estrela de Law & Order: Special Victim Unit. Como você a envolveu?

O primeiro encontro foi no Emmy de 2019, quando ganhei o prêmio de Melhor Documentário de Atualidades por It Will Be Chaos. Mantivemos contato e, quando ela fundou sua produtora e queria financiar histórias de mulheres, apresentamos nosso projeto. Mariska é fantástica; tem um forte senso de justiça e é muito sensível à questão dos abusos; também tem uma fundação que lida com isso, a Joyful Foundation. Ela se apaixonou imediatamente por Gloria e pelo nosso estilo narrativo. Ela foi corajosa ao se unir ao projeto e sempre nos deu liberdade.

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