27 Mai 2024
“Nós, adultos, cometemos muitos erros, demasiados, em relação às novas gerações, delegando às crianças a ‘tarefa’ da fraternidade, de remendar a humanidade dilacerada. Agora são os pequenos que nos ensinam a partilha, a solidariedade. Eles são o caminho para a paz." É o que afirma Gianluigi Buffon. Lenda do futebol, campeão mundial, no sábado foi protagonista do primeiro Dia Mundial das Crianças no Estádio Olímpico de Roma, promovido pelo Papa Francisco e coordenado pelo Padre Enzo Fortunato.
A entrevista é de Domenico Agasso publicada em La Stampa em 26-05- 2024. Tradução de Luisa Rabolini.
Buffon defendeu a goleira do Parma, da Juventus, do Paris Saint-Germain e da seleção italiana, da qual hoje é chefe de delegação. Ele garante: “Os Azzurri saberão ser um exemplo de determinação futebolística e de valores educativos”. Serão necessários comportamentos adequados, “mas com a consciência de que de vez em quando na vida se pode cometer erros. Mesmo aqueles que cometeram erros em alguns momentos não devem ser repudiados, devem ser acolhidos.”
Palavras que ressoam como uma referência a Nicolò Fagioli, convocado após retornar da desclassificação pelo caso das apostas. O goleiro recordista entregou a bola ao Papa para dar o pontapé inicial do jogo com as crianças. Vestiu uma camiseta branca e entrou em campo. Jogando com os pequenos diante do Bispo de Roma.
Eis a entrevista.
Buffon, qual é a principal mensagem do Dia Mundial da Criança?
Devemos sentir-nos unidos, protagonistas de um mundo sem diferenças, sem barreiras e possivelmente de paz.
O que significa para você participar desse evento sem precedentes do Papa?
É um privilégio enorme. O DMC é uma festa e também um momento de meditação muito precioso para o nosso futuro. Ver tantas crianças felizes, sorridentes, cheias de energia e entusiasmo nas arquibancadas do Olímpico é realmente emocionante. Isso me faz refletir sobre a importância de proteger e apoiar os nossos jovens. Também é muito legal e encorajador ver tantas personalidades e autoridades diversas da sociedade civil e das instituições unidas por uma causa crucial, deixando as diferenças de lado para focar no bem dos mais pequenos. Esse tipo de iniciativa demonstra que podemos fazer muito quando trabalhamos juntos para o bem comum.
Quais palavras de Bergoglio você destaca?
’A paz é sempre possível’. O Papa reitera muitas vezes que a esperança nunca deve morrer, que a esperança não decepciona. Francisco encoraja-nos a um comportamento virtuoso, diferentemente do que estamos tendo nestes últimos anos. Lança e relança o apelo para que não pare o empenho de cada um pela convivência em harmonia entre todos os povos. E indica as crianças como nossos principais aliados nesse desafio.
De vez em quando você pensa em Gigi Buffon quando criança?
Não há um dia em que a minha memória não volte a quando eu era criança, tinha muitos sonhos, queria estar junto com os meus amigos para poder partilhar experiências, alguns sentimentos, algumas paixões.
Qual é o conselho de Buffon para as crianças de hoje?
Nunca deixar de cultivar e perseguir os seus sonhos.
E o que pede do mundo adulto?
Cada criança tem o direito de sonhar e de ter as oportunidades de realizar esses sonhos. De brincar alegremente. Devemos todos trabalhar juntos para criar um mundo onde cada criança possa crescer feliz, saudável e segura. E acima de tudo, lembrar a elas que não estão sozinhas: sempre há alguém pronto para ajudá-las e acreditar nelas. Temos essa responsabilidade, além da tarefa de transmitir os princípios em que acreditamos e que nos amadureceram. Assim podemos consertar os nossos erros.
Quais são?
Infelizmente falhamos na nossa missão de conviver em paz. E delegamos a essas novas gerações para nos ensinar a viver em paz. Para reconciliar-se. Deixamos às crianças a responsabilidade de concertar as lacunas que estão dilacerando o mundo e a humanidade. Parece que nós, adultos, perdemos a capacidade de dialogar. E confiamos, muitas vezes inconscientemente, à bondade, à espontaneidade, à ingenuidade saudável das crianças, que se tornam nossos ‘professores’. Também para uma visão mais ampla.
Qual a importância do esporte no âmbito da educação?
É fundamental. Porque contribui para o bem-estar, crescimento e amadurecimento das crianças e adolescentes. Forja o caráter. É um veículo extraordinário e eficaz para difundir princípios fundamentos como respeito, disciplina, trabalho em equipe. Pelo esporte, as crianças aprendem a gerir vitórias e derrotas, a empenhar-se por um objetivo comum e a superar as dificuldades. O desporto pode ter um impacto positivo duradouro na vida de cada criança. E, além disso, derruba todo tipo de diferença, de preconceito e de barreira.
Que contribuição a seleção nacional pode dar?
Certamente saberá ser um exemplo de determinação futebolística e de valores educativos.
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