É possível habitar o caos? Artigo de Alexandre Francisco

Imagem: George Frederic Watts – Chaos | Wikimeadia Commons

09 Junho 2026

"O ser humano tem uma necessidade absurda de dar forma ao caos, aquilo que ele não compreende. Buscamos explicações racionais por meio de ideais iluministas, cartesianas, positivistas, racionalistas, modernas. Passamos a vida inteira tentando prever o próximo passo, o próximo segundo, como podemos calcular o caos que nos rodeia para não sermos devorados por ele como uma barata? Não assumiremos jamais o risco de sermos esmagados pelo acaso."

O artigo é de Alexandre Francisco, mestre em filosofia pela Unisinos, membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

Começo esse texto sem um propósito pré-definido, mas com uma ânsia enorme de colocar nessa escrita algumas inquietações profundas de novas perguntas. Sempre fui uma pessoa curiosa, minha atividade favorita quando era adolescente era ver filmes. Quanto mais filmes via, mais meu desejo se verticalizava e tinha a necessidade de acessar camadas mais profundas. Almodóvar e Pasolini se tornaram meus diretores favoritos, Bertolucci, Lars von TrierLynchKubrick, Tarantino, e Kurosawa não ficam distantes. Eu nunca tinha entendido ao certo o que me chamava atenção em um diretor/filme. Como alguns permaneciam em minha memória e outros eram progressivamente esquecidos?

Assisti tantos filmes que em um determinado momento a profundidade que buscava teria de vir de outras fontes. Sempre quis ter a possibilidade de me dedicar a literatura densa, mas ainda sim não sabia exatamente o que estava buscando. Diante dessa ideia de progressão que acreditava estar seguindo, atualmente estou me dedicando novamente a leitura de literatura clássica. Eu diria que um dos principais motores de minha escrita é definitivamente minha angústia. Talvez de boa parte daqueles que possuem uma necessidade horrorosa de escrever para se acalmar. Não é fácil fazer as pazes com o caos, e as vezes um pouco de escrita me permite dar um pouco de sentido em minha existência. Não obstante, raramente releio o que escrevo. Como uma ferida infecionada que precisa ser limpa, jamais ouso tocar naquilo que já expurguei de mim.

Nesse breve lapso de investigação literária me deparei com o livro A Paixão segundo G.H. de Clarisse Lispector. Nas primeiras páginas de sua escrita, Clarisse com sua inteligência assustadora e cirúrgica lança algumas frases que me deixaram profundamente angustiado e maravilhado ao mesmo tempo. No fluxo de consciência que descreve os dilemas de suas personagens, Clarisse nos presenteia com o sublime. Em um instante qualquer da vida nos deparamos com nossa existência. Uma mulher elegante, culta, racionalizada, ao se deparar com uma barata no chão resolve devorá-la. A existência trivial dá lugar ao caos. Um ponto fora de curva. "Eu havia humanizado demais a vida", escreve a autora pela boca de sua personagem. Toda a arquitetura que construímos sobre nós mesmos, a elegância, a cultura, a racionalidade, é uma camada finíssima sobre algo que não tem nome e não pede permissão.

O ser humano tem uma necessidade absurda de dar forma ao caos, aquilo que ele não compreende. Buscamos explicações racionais por meio de ideais iluministas, cartesianas, positivistas, racionalistas, modernas. Passamos a vida inteira tentando prever o próximo passo, o próximo segundo, como podemos calcular o caos que nos rodeia para não sermos devorados por ele como uma barata? Não assumiremos jamais o risco de sermos esmagados pelo acaso. Mas o que é a vida se não uma sucessão de acasos? Me parece muito ingênua qualquer ideia que se proponha a dominar a natureza das coisas, além de ser deveras uma enorme arrogância e prepotência antropocêntrica.

Queremos domesticar a vida, dobrá-la a nossa vontade, ao nosso ego. Ignoramos que o fluxo da vida é como uma correnteza, e que resistir a ela tem um custo que a maioria não contabiliza. Grande parte das pessoas prefere manter-se fora desse fluxo, anestesiando-se, perdendo-se pouco a pouco nos ressentimentos, na ruminação, nos vícios. Temos inúmeras formas de destruir nossa vida ativamente, não podemos perder de vista que viver é também um ato de luta, seja por resistência seja por sobrevivência. Via de regra, a vida destrói quem desiste dela.

A moralidade rígida de regras pré-estabelecidas não dão conta de realizar a contenção da potência vital do mundo. Talvez a mais perigosa das fantasias seja justamente aquilo de que mais nos orgulhamos, o ímpeto de controle por meio da racionalidade. Clarisse anda de mãos dadas com Dostoiévski nesse quesito. Como um dissecador da alma humana, em Memórias do Subsolo, o autor russo traça uma realidade crua do humano: queremos uma vontade, independe se essa vontade seja boa ou ruim. Com isso, o ser humano pode encontrar prazer na própria dor, regozijar-se com seu próprio sofrimento. No livro, dentre outros exemplos, menciona uma dor de dente, em que o sujeito geme de dor por um mês, sem buscar ajuda. Trata-se de um gemido falso, nele está contido o prazer de quem sofre, se a pessoa não achasse prazer naquilo, não gemeria.

Aqui volto aos diretores citados, todos eles tem em comum a capacidade de ler a alma humana por meio de seus filmes [1]. A capacidade de capturar o momento do desejo imprevisível, a dissonância humana, aquilo que está fora da forma, no limiar do humanizado.

Diante do cenário a questão a ser feita é: para onde estamos indo afinal? Não cairei na minha própria armadilha em forma de pergunta. Não darei essa resposta. No entanto uma coisa é indubitável: estamos usando os remédios errados para doenças extremamente letais. O problema não é a barata, é a recusa em reconhecer a sublime força do caos. Enquanto nos recusarmos a olhar para o ser humano como ser humanizado (racionalizado) em sua dimensão mais crua, estaremos apenas tomando placebo para resolver um câncer. É preciso cortar o problema na raiz, e no estado que está, talvez um bisturi não resolva, é preciso pegar o machado. Lanço apenas uma pergunta final: é possível habitar o caos?

Nota do autor

[1] Os arquétipos das tragédias gregas clássicas nos permitem de certo modo deliminar minimamente padrões de comportamento humano. Pasolini tinha imenso interesse nas tragédias gregas sendo Édipo Rei e Medéia dois filme em que o diretor reviveu o teatro de Sófocles e Eurípedes. Abaixo os trailers de ambos os filmes, e forte recomendação para que leiam e assistam essas obras. 

Medeia

Édipo Rei

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