Por: Jonas | 21 Mai 2013
Um presidente nunca diz que se angustia, caso contrário, o que restaria para os governados? Um ex-presidente, sim, pode se dar esse luxo. Se esse ex-presidente se chama Luiz Inácio Lula da Silva (foto), que tem uma capacidade única de transmissão intelectual e emotiva, o resultado é apaixonante.
A reportagem é de Martín Granovsky, publicada no jornal Página/12, 19-05-2013. A tradução é do Cepat.
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| Fonte: http://goo.gl/N6ezD |
Por exemplo: “Ou crescemos juntos ou todos ficaremos pobres juntos”. Ou ainda: “Quando entreguei o mandato a Dilma, disse que ela precisaria de muitos Dobermanns. Disse-lhe que para cada decisão importante tinha que colocar um cachorro atrás, pois, caso contrário, não teria nenhum resultado”.
Lula falou na embaixada do Brasil na Argentina, que organizou um encontro com 40 intelectuais, políticos, economistas e empresários junto com o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e o Instituto Lula do Brasil. Foi na sexta-feira à tarde e os assistentes disseram ao embaixador Enio Cordeiro: “Presidente, neste grupo ninguém pensa como o outro”. Antes, o presidente que governou o Brasil durante oito anos, desde o dia 1 de janeiro de 2003, recebeu oito títulos de doutor honoris causa. “Para o Guinness”, brincou o senador e ex-ministro da Educação, Daniel Filmus, coordenador dos doutorados junto com Pablo Gentili, secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso).
O ex-presidente brasileiro estava acompanhado por Luiz Dulci, ex-secretário geral da Presidência durante seu governo e secretário do Instituto Lula. Dulci, que acaba de publicar um livro sobre os dez anos de governo encabeçado pelo PT, “Um salto para o futuro”, disse que o Instituto está firmando acordos com organismos multilaterais e que trabalhará cada vez mais numa doutrina de integração. “Não se trata de substituir os Estados, mas, às vezes, é difícil para os Estados avançar em determinados temas”.
Lula explicou que antes o instituto se chamava Instituto da Cidadania. “O programa Fome Zero, nós o concebemos ali”, contou sobre o trabalha prévio às eleições vitoriosas de 2002. Disse que alguns contatos excediam o marco do PT e que por isso recebia gente no instituto. Ou seja, uma preparação completa para o governo que seria visto. Sobre o futuro, Lula reforçou a promessa de Dulci e a ampliou para a África. “Durante meu governo visitei sete países do Oriente Médio, todos os países da América Latina e Caribe e 33 países africanos, em 39 viagens”. Lula não falou sobre o assunto, mas, para além da América do Sul, a grande base de votos para que o brasileiro Ricardo Azevedo ganhasse a direção da Organização Mundial de Comércio foi a África.
De traje escuro e gravata listrada, com as cores brasileiras e argentinas, Lula passou mais de três horas debatendo, um tempo sentado e outro em pé. Antes de abrir espaço para comentários e perguntas, ele mesmo se questionou. “É preciso criar uma doutrina da integração. O que é a integração? É comercial? É comercial e social? Envolve as universidades? Para nós, ainda não está tudo claro. Toda vez que Hugo Chávez falava da espada de Bolívar, eu lhe dizia: ‘Chávez, já não precisamos da espada de Bolívar, mas de um banco de desenvolvimento, estradas, pontes...’”.
Lula mencionou Chávez muitas vezes. Fez isto com carinho e astúcia. Um morto não pode se queixar pela revelação de segredos que, por outra parte, servem para entender quais as dificuldades que um presidente enfrenta, inclusive quando tem legalidade, legitimidade e popularidade. Como estava presente o ex-chanceler Jorge Taiana, Lula o tomou como comparsa. “Talvez um dia Taiana, Enio e eu possamos contar como são as reuniões presidenciais e as sequencias das decisões. Assinamos um acordo, um protocolo e intenções e quando termina o mandato de quatro ou cinco anos, não se fez nada. Porque quando essa reunião terminou, vem outra reunião e outro protocolo e, além disso, às vezes, já não há muita gente interessada em dar prosseguimento às decisões. Taiana sabe bem como o pobre Chávez ficava. Quase todas as reuniões terminavam com Chávez brigando com o pobre Maduro. ‘Não vou assinar o documento porque não o li’. E olhava para a câmera da Telesur. ‘Por que os burocratas não me deram o documento antes?’ Então, eu me levantava e contava-lhe minha angústia”. E foi aí que contou sua ideia dos Dobermanns.
Na verdade, e mesmo que não tenha surgido na reunião da embaixada brasileira, o que se aproximou de um sistema de Dobermann foi o presidente chileno Ricardo Lagos. Seu chefe de assessores, Ernesto Ottone, para cada reunião de Lagos enviava um funcionário que, em seguida, ficaria encarregado em dar prosseguimento. Em outro estilo, para algumas decisões, no ato, Kirchner telefonava para toda a cadeia de funcionários que se tornaria responsável pelo cumprimento de sua decisão.
“Uma vez, junto com Chávez, estivemos a ponto de despedir os presidentes da Petrobras e da Pdvesa, pois não tinham concretizado um acordo que tínhamos feito”, disse. “O mesmo aconteceu com a Argentina, e o mesmo com outros países. Quando os presidentes estão dispostos e convencidos, as coisas devem acontecer diante deles e não depois da reunião. Não se pode trabalhar na integração, quando alguém cede às pressões de um grupo”.
A falta de resultados tem um problema, que Lula mencionou. “Quando você chega ao governo e não consegue fazer as coisas que esperavam de você, as pessoas se distanciam. Contudo, para muitos, ao contrário, mesmo quando algo dá errado, perseveram”.
Pensamento próprio
E as reuniões, como a de sexta-feira, servem? “Há uma carência motivacional”, disse Lula. “Aparecem bons diagnósticos e boas propostas, mas depois devem ser assumidas pelos políticos”.
O ex-presidente aproveitou esse momento para mostrar um livro. É de capa vermelha e o título é: “Lula e Dilma. Dez anos de governos pós-neoliberais no Brasil”. É uma compilação de 21 trabalhos, realizada por Emir Sader, ex-secretário do Clasco, antes de Gentili, que escreveu o capítulo sobre a educação porque, como disse Lula, “é um argentino importado ao Brasil”. Para que não fiquem dúvidas sobre o espaço que Lula quer para decisões que não são de governo, mas de análises feitas por pessoas com pensamento próprio, disse: “A única coisa minha neste livro é o meu nome no título, porque os autores trabalharam com toda liberdade”.
Lula parece se preocupar com o beco sem saída que é produzido quando os servidores e os políticos não se acostumam a viver dentro da contradição. “Se as divergências fossem um problema, o PT não existiria. Não há ninguém que tenha mais divergências que o PT”. Também parece preocupado com as profecias autorrealizáveis, segundo as quais nada de diferente será possível. “Nasci numa região onde muitas crianças morrem antes dos cinco anos e eu não morri. Quando entrei no sindicato, disseram-me que não poderia fazer nada porque a estrutura sindical do Brasil era uma cópia fiel da Carta del Lavoro (Carta do Trabalho) de Benito Mussolini. Sem que a lei mudasse uma linha, em apenas três anos mudamos a vida sindical. Em seguida, disseram-nos que não havia espaço para um partido político. Em três anos, nós criamos o PT, que nasceu em 1980. Que um operário metalúrgico chegasse à presidência, era impensável. Conquistamos isso. Portanto, podemos produzir uma doutrina para que nossos presidentes pensem estrategicamente. É o compromisso que assumo. Não sei se o cumprirei, mas tentarei”.
A forma como avançar
Lula alertou contra “as brigas entre nós”. Citou o caso da Rodada Doha, que terminou em 2008, sem resultados. Foi discreto, omitindo apontar que as diferenças essenciais sobre o final ocorreu entre o Brasil e a Argentina. “Ali não avançamos, mas não acontecerá mais. Se não construímos um pensamento estratégico, vamos perder inclusivo o que já construímos. E não é questão de defeitos. Todos nós temos. Nós, os presidentes daquele momento - Néstor Kirchner, Hugo Chávez, Ricardo Lagos, Tabaré Vázquez, eu - tivemos... Entretanto, se analisarmos nossas relações, da forma como estavam em 2000 e como são agora, vamos perceber que avançamos extraordinariamente”.
Lula costuma fazer um contraponto permanente entre o resgate do bom, porque é um obsessivo da autoestima coletiva, e a exposição de desafios, porque se apresenta otimista, mas não tem a noção fanática de que as coisas, tanto as más como também as boas, são inexoráveis. “Se não consolidamos os avanços como política de Estado, criando parlamentos e instituições multilaterais, qualquer governante de direita pode acabar com tudo, especialmente no Brasil. Fiquem certos de que esse presidente brasileiro [se for de direita] dará as costas para a América do Sul, pois sua cabeça está colonizada pela Europa e os Estados Unidos”. E continuou Lula, em pé, com o microfone na mão e olhando para todos os lados, movimentando as mãos como o orador sindical que foi ou que é, confessando que atualmente vê coisas que não via quando era presidente. “Coisas nas quais poderíamos ter avançado e não avançamos. Por que não avançamos na ONU? Egito e Nigéria queriam ser membros permanentes do Conselho de Segurança, mas não disseram. Argentina, Brasil e México também. Não discutimos o essencial: seja o que for, quando for, não pode ser algo investido de uma representação individual, mas coletiva, do continente. Porém nunca aprofundamos essa discussão. E são 10 anos meus e de Dilma, 12 de Chávez, 10 de Néstor e Cristina. Meia geração cresceu sem que discutíssemos o assunto. Com o comércio, o mesmo. É importante porque gera desenvolvimento, renda, empregos”.
Gripe ou pneumonia
Em sua fala, o tabuleiro do mundo esteve sempre presente. Para ele, na Europa “uma gripe se tornou uma pneumonia”. Segundo Lula, “é ridículo que a Europa culpe a Grécia ou Chipre, enquanto nenhum banqueiro está preso”.
A indústria também. “Temos que aproveitar as pessoas que, hoje, estão em diferentes governos para fazer o que é preciso fazer. Não é ruim exportar commodities quando o preço está bom. É ruim quando o preço está baixo. Porém, em nível internacional, devemos discutir o valor dos produtos. O motivo pelo qual a comida custa tão pouco e um chip tão caro. Nos anos 1970, os Estados Unidos decidiram levar o corpo das indústrias para a China e ficar com a cabeça, com os serviços. Agora, com esta crise, deram-se conta de que a cabeça sem o corpo não é um ser humano, é um busto. Assim, estão discutindo a forma como reindustrializar os Estados Unidos”.
O animador
Algumas vezes, o papel do Brasil é o de um fantasma, o gigante da região. Inclusive, é um fantasma quando ninguém mais repete disparates sobre a hipótese de conflito bélico. Como Lula queria desmontar isto, abordou o ponto. “O Brasil não pode crescer sozinho. E o Brasil tem mais responsabilidade do que o restante. Na crise de 2008, chamei o presidente do Banco Central e o ministro da Fazenda e disse-lhes que destinassem dinheiro para o Uruguai e a Argentina. Não fizemos isto. A China fez. No entanto, o Brasil não precisa de 400 bilhões de dólares de reservas. Hoje, poderíamos usar esse dinheiro para financiar a integração aqui e no continente africano. Pensemos, imaginemos. Muitas vezes, eu tenho a impressão de que os intelectuais da América Latina deixaram de pensar, após a queda do Muro de Berlim. Existem menos canções, menos livros... Lembro-me de uma conversa com Fidel. Um dia me falou sobre ter ensina a história errada para o seu povo. Era a história russa, com suas coisas boas que de repente se tornavam ruins e suas ruins que de um dia para o outro se transformavam em boas. ‘Sabe Lula’, disse-me Fidel. ‘Estou arrependido de não ter ensinado a história da América Latina para meu povo’. Eu digo: façamos isto. Tratarei de ser o animador e o provocador para que pensemos novamente em nós”.
Os comentários
Antes da última intervenção de Lula no seminário, vários dos participantes perguntaram ou fizeram comentários.
Taiana disse que há um ponto delicado: “Nós alcançamos certo grau na integração, estamos entrando num patamar, quando há dificuldades a reação natural é se retrair diante do medo e o no que não avançarmos significará que vamos retroceder”.
O consultor Roseando Fraga disse que o Mercosul e a Unasul demonstraram “grande eficácia frente aos imprevistos, como os que ocorreram na Venezuela, Colômbia e Equador, mas certa ineficácia para enfrentar os conflitos históricos”. Citou o fato do Chile e Peru terem recorrido a Haia e o mesmo em relação à Bolívia e Chile. Lula acrescentaria que o conflito das fábricas de celulose, entre Uruguai e Argentina, não foi resolvido no marco sul-americano. Fraga se queixou de que na Argentina “não se pode ver um canal brasileiro e não temos uma rádio que comunique em português”.
Félix Peña, ex-subsecretário de Guido Di Tella e, atualmente, na Universidade Três de Fevereiro, pediu um “Informe Lula” sobre como trabalhar na América do Sul.
O consultor de Poliarquia, Sergio Berenztein, sugeriu ao Mercosul um avanço por passos. “Incrementador, minimalista”, disse.
O reitor da Universidade de Cuyo, Arturo Somoza, centrou-se na necessidade do intercâmbio cultural e no peso das decisões políticas.
O ex-chanceler Adalberto Rodríguez Giavarini, que trabalhou com Fernando de la Rúa, disse que a integração e os direitos humanos “são políticas de Estado, nos últimos 30 anos”. Recomendou “fortalecer o diálogo Pacífico-Atlântico para nos colocarmos na dinâmica da negociação global, porque vamos enfrentar tensões e já estamos enfrentando-as, e o Brasil terá duas direções”.
Rafael Follonier, colaborador de Néstor e Cristina Kirchner, com a importância de secretário de Estado e agora com a responsabilidade de investigar os crimes contra seguidores do chavismo, na última campanha eleitoral, na Venezuela, disse que “o posicionamento do Brasil como ator global ocorreu no marco da última etapa de integração sul-americana”. Pediu “um fortíssimo relançamento da Unasul” e afirmou: “Seria bom que Lula nos ajudasse a decidir a próxima etapa do organismo que criou com o restante dos presidentes”.
O ex-presidente da União Industrial Argentina e ex-ministro de Eduardo Duhalde, José Ignacio de Mendiguren, instou a “não deixar passar o tempo e nos seduzir com o canto de sereia da primarização da economia, pois, apesar do enorme período de crescimento, a participação industrial no PIB dos dois países diminuiu”.
O reitor da Untref, Aníbal Jozami, pediu a formação de “um grupo de delirantes que discuta uma união com o Brasil”.
Alberto Ferrari Etcheberry, ex-subsecretário de Assuntos Latino-Americanos, de Raúl Alfonsín, e um dos negociadores, de então, para conquistar a integração com o Brasil, além de ser o que convidou Lula para sua primeira visita à Argentina, em 1999, recordou o que é a cidadania entre os vizinhos. “Com a Constituição de 1988 e com a presença decisiva do PT, essencial para a queda de Fernando Collor de Mello, pela primeira vez, surgiu a democracia de massas”. Ferrari acrescentou: “Com Lula terminaria a história dos Bragança no Brasil. Lula foi o primeiro Silva. E depois veio Dilma, que também se chama Silva”. Para Ferrari, entre os dois países “não se avançou o suficiente em se conhecer e, principalmente, em conhecer as diferenças”.
O uruguaio Gerardo Caetano disse que “para esta nova etapa, não basta mais do mesmo”.
Pino Solanas lamentou que “em dez anos não acertamos nem o Banco do Sul” e disse que “a América Latina não pode ser o paradigma de um consenso sobre as commodities”.
O deputado da Unidade Popular, Víctor de Gennaro, advertiu que “o genocídio deixou a ideia de que, por medo, é preciso evitar o pior e sobreviver” e opinou que “temos direito de vivermos felizes”.
Como organizador, Pablo Gentilli expressou seu compromisso em continuar ajudando a coordenação de centros de estudo, políticos e pesquisadores.
Filmus, outro dos organizadores da visita de Lula e membro do Conselho Acadêmico da flamejante Universidade Metropolitana para a Educação e o Trabalho, fez uma autocrítica sobre o “escasso esforço legislativo para trabalhar de forma conjunta, o déficit de diplomacia parlamentar e o lento avanço no ensino de português e espanhol, ao ponto de cientistas argentinos e brasileiros se comunicarem em inglês”.
