17 Mai 2013
Ela é franciscana; ele, papa. A presidente das religiosas norte-americanas quer resolver com o homem de Roma um antigo conflito. Mas a sua visita ao Vaticano no início de maio ocorreu de modo diferente ao que ela esperava. Está em jogo o futuro das ordens femininas – não só nos Estados Unidos.
A reportagem é de Britta Baas, publicada no sítio Publik-forum.de, 14-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Florence Deacon está viajando muito. Roma, Munique, Frankfurt e Roma de novo. A presidente da Conferência das religiosas norte-americanas viaja mais ao exterior do que no seu país. Deacon representa os interesses de cerca de 80% das cerca de 57 mil religiosas dos EUA. A sua missão é diplomática, e o seu objetivo é claro: libertar as religiosas norte-americanas de um veredito do Vaticano, que pesa sobre elas há cerca de um ano.
Tudo começou com uma "visitação apostólica". O Vaticano instituiu em 2009 uma comissão que devia visitar as ordens femininas norte-americanas. Explorou-se em detalhes a vida das várias ordens, tomou-se nota das respostas a questionários. Os resultados foram compilados em um relatório.
Desse modo, a infelicidade se colocou em movimento. Porque, na Congregação vaticana para a Doutrina da Fé, escandalizam-se com a vida das religiosas. Ou melhor: escandalizam-se com o seu órgão diretivo, a Leadership Conference of Women Religious (LCWR), a associação norte-americana de ordens femininas com o maior número de associadas. No centro da crítica, está a então presidente Pat Farrell, que foi sucedida por Florence Deacon.
Vaticano quer que religiosas demonstrem sua "catolicidade"
Farrell e suas coirmãs são feministas demais e focadas demais nas atividades de tipo social e "evangélico-social" a ponto de negligenciar a unidade com a Igreja e a sua doutrina, diz-se em Roma. Espera-se uma atitude "mais católica" por parte das religiosas, incluindo palavras claras sobre a moral pública. Portanto, é necessário que a LCWR se expresse oficialmente contra a equiparação dos casais homossexuais e heterossexuais, contra o diagnóstico pré-implantação, contra o aborto, contra a eutanásia, contra a ordenação de mulheres e a favor da validade do direito natural católico agora e no futuro.
A LCWR protesta contra a acusação de "não catolicidade". No entanto, dado que as religiosas não podem chegar a proclamar o que Roma considera como "corretamente católico", o Vaticano ordenou que a organização se colocasse sob a vigilância de três bispos norte-americanos.
São homens como o arcebispo de Seattle, Peter Sartain, que agora têm uma palavra a dizer na LCWR. Eles devem fazer ordem: reescrever o regulamento e reorganizar tudo para que pensamentos "não católicos" sejam impedidos desde o início na mente das religiosas. E muito menos que cheguem a ser postos no papel, sem censura prévia.
No dia 13 de março de 2013, em Roma, quando foi eleito um novo papa, muitas religiosas norte-americana esperavam que agora a pressão diminuísse. Francisco, que se apresenta tão humano e tão simples diante da multidão na Praça de São Pedro, que parece ser tão acessível e tão pouco dogmático, poderia anular o veredito, ordenar que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o arcebispo Gerhard Ludwig Müller, revogue os controles. Mas as religiosas esperam em vão: o Papa Francisco deu luz verde a Müller. Ele deve continuar como começou sob Bento XVI.
Uma diplomata não jura
Quando Florence Deacon chegou no fim de abril 2013 à Haus am Dom em Frankfurt, podia-se notar a sua desilusão. Ela não a demonstra abertamente, ao contrário: dirige-se ao público de modo tranquilo e cordial; do texto escrito do seu discurso, ela excluiu trechos inteiros, que, só por referência, também seriam percebidos como sarcásticos ou irônicos.
O que ela pensa sobre os eventos no Vaticano e a posição da LCWR ela descreve com conjecturas positivas. Ela diz que o novo papa deu, é verdade, uma indicação para prosseguir para Müller, como lhe foi dito claramente na sua recente visita a Roma. Mas isso poderia depender do fato de que Francisco, nos primeiros dias em que assumiu a sua nova função, não pode entrar em detalhes sobre cada setor do que deve se ocupar. Acima de tudo, ele deve dar confiança, dar sinais positivos às autoridades vaticanas. No futuro, certamente, ele poderá enviar outras mensagens.
Foi-lhe perguntado se ela viu pessoalmente o Papa Francisco. "Sim – responde a Ir. Florence –, juntamente com outras centenas de milhares de pessoas". Em outras palavras: ela certamente não pôde falar-lhe durante a sua visita a Roma. Apesar disso, ela acha que agora alguma coisa vai mudar. "O Papa Francisco parece dispor de muitas das qualidades e experiência que esperávamos", lê-se no seu texto escrito. Mas nesse ponto ela se enrola: "São Francisco parece...". E nesse ponto não pode deixar de rir, e com ela o público. O quão santo será o novo papa ainda não está estabelecido.
"Com o que você está preocupada?"
No fim da noite, a esperança de Florence Deacon continua sendo a de que o conflito com o Vaticano se baseie "em mal-entendidos" que devem ser eliminados: "Nós acreditamos que deve haver um diálogo aberto entre as ordens femininas e o Vaticano". Algo bastante difícil. De fato, a Ir. Florence reconhece francamente "que os encontros anuais em Roma até agora não foram úteis a esse respeito". Em outras palavras: os homens do Vaticano, nos últimos anos, não tentaram buscar um diálogo aberto com as irmãos incriminadas e as respectivas superioras gerais.
Quando a Ir. Florence deixa Frankfurt, surge a pergunta se é possível publicar o seu discurso que foi cortado. No diálogo pessoal, ela é muito prudente, não disse nem que sim nem que não. Eu pergunto: "Com o que você está preocupada? Você não disse nada chocante". Ela responde: "Você não imagina o que é percebido como chocante em Roma". Mesmo depois de alguns dias ela não dá nenhuma liberação para a publicação do discurso.
Dom Müller diagnostica "fraquezas doutrinais"
Depois, chega o dia 7 de maio. Novamente há um encontro das superioras gerais das ordens femininas em nível mundial a Roma. O cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Religiosos, encontra as irmãs – e deplora que nem Müller nem o papa o envolveram até agora "nas decisões sobre o órgão das ordens femininas norte-americanas". Ele diz que sabe que Müller vê na LCWR "fraquezas doutrinais". Mas que é preciso conversar sobre isso. Ele também consegue imaginar um encontro das religiosas com o papa.
O encontro ocorreu no dia seguinte. Francisco deu uma audiência privada. Mas não deu nenhum sinal de querer ir ao encontro das religiosas. A frase mais clara do papa foi citada assim: "Não é possível que um religioso ou uma religiosa não sintam com a Igreja". Esse "sentir com a Igreja" se expressa "na fidelidade aos ensinamentos". Não é uma boa notícia para a Ir. Florence e para as suas coirmãs.