''Encerrou-se a época feliz dos monarcas''

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05 Março 2013

"O conclave não é um jogo de tabuleiro". O professor Roberto Rusconi, que leciona História do Cristianismo na Universidade Roma Tre, não joga os dados para traçar o próximo pontífice, mas se confia a práticas mais terrenas: "Eu veria com prazer uma agenda papal com objetivos claros e pontos críticos. Ou a Igreja se renova, ou perderá consenso, isto é, fiéis". Rusconi estuda as Igrejas secularizadas e os mistérios indecifráveis. Escreveu inúmeros livros. O último se intitula Il Gran rifiuto. Perché un Papa si dimette [A grande recusa. Por que um papa renuncia].

A reportagem é de Carlo Tecce, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 03-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor, onde se aninha o mal do Vaticano?

A Cúria não deve ser demonizada, mas o problema é grande: é um erro subestimá-lo. Uma instituição sempre tenta se conservar, a burocracia se sustenta assim. Espero que no conclave entre uma Igreja mundial e que saia a vaticana: elas são muito diferentes, eu diria quase distantes, mas dentro dos muros leoninos parece que não se deram conta disso.

Não por preguiça.

Foi cômodo. Ainda em 2007, durante o segundo ano de pontificado, Bento XVI pediu aos cardeal Attilio Nicora e Francesco Coccopalmerio, à época ainda não purpurado, que reformassem a Cúria, o governo vaticano. A missão não foi concluída porque nunca começou. E o novo sucessor de São Pedro deverá levar isso em conta.

Ratzinger sabia onde purificar.

Ele se encontrou diante de uma situação difícil. Ele não conseguiu melhorar as condições, até porque foi eleito às pressas para garantir a continuidade com João Paulo II. Não nos esqueçamos que estes últimos pontificados não valorizaram em nada a inovação do Concílio Vaticano II. A Cúria, repito, não é o único freio: o cardeal Montini, Paulo VI, também vinha de experiências de governo romano, mas se contrapunha a Giuseppe Siri, o ultraconservador cardeal de Gênova.

O papável Siri era genovês. E, pela Ligúria e o Piemonte, entram – por dioceses e origens – os influentes cardeais Mauro Piacenza, Angelo Bagnasco e o secretário de Estado, Tarcisio Bertone. Um bloco de mármore para os prelados progressistas.

Não é uma simples coincidência geográfica. A esperança de João XXIII ainda é atual: é tempo de abrir as janelas e deixar entrar ar fresco. Havia essa exigência na morte de Pio XII e existe hoje com a renúncia de Bento XVI.

O pontificado de Ratzinger fez com que a Igreja retrocedesse?

Eu sempre tive a suspeita de que ele não fez a escolha do nome Bento para lembrar Bento XV, mas sim para prestar uma homenagem ao padroeiro da Europa, justamente São Bento. O teólogo alemão acredita em uma Igreja europeia, mas agora devemos nos acostumar com um Ocidente cada vez menos cristão, e isso não necessariamente é algo ruim.

O Vaticano está pronto para um papa negro?

A cor da pele não importa. A Igreja africana é muito conservadora. Eu não acho que uma variação cromática seja fundamental nem revolucionária. Será necessário, ao invés, evitar que o Vaticano seja gerido como uma cúpula remota. As nomeações episcopais caem do céu, o pontífice escolhe os bispos que depois se tornam como que súditos de um soberano, até mesmo quase funcionários de uma estrutura piramidal como a Santa Sé. O próximo papa deverá interceptar as muitas transformações que estão ocorrendo. Parece paradoxal que os cardeais norte-americanos tenham pedido para fechar o IOR. Lembro-me de Giorgio Bocca: onde há dinheiro, há poder, e onde há poder, há corrupção. E eu posso acrescentar que as pessoas – como dizem os eclesiásticos – são pecadoras. O próprio Vaticano é feito de pessoas.

Por que Ratzinger renunciou ao pontificado?

Por muitos motivos, incluindo o estado de saúde de uma pessoa de 86 anos. Ainda há 30 anos, porém, ele escreveu um texto que ia contra a hipótese de um papa até que a morte o leve embora. Talvez Ratzinger nunca pensou em morrer com o solidéu como João Paulo II. O que aconteceu, do dinheiro do IOR até as correspondências do Vatileaks, no entanto, foi o golpe decisivo. Mas esta é uma grande oportunidade. Uma porta que se abre no Vaticano, esperando que se escancarem as janelas da Igreja.