Os dois medos-mãe da crise. Artigo de Enzo Bianchi

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27 Mai 2012

O que significa esperar? E de qual esperança as Escrituras são portadoras? E, ainda, a esperança pode vencer o medo? Justamente a partir do medo podemos esboçar uma reflexão: em profundidade, cada um de nós é presa de dois "medos-mãe", dos quais descendem todos os outros: o medo da morte e o medo de Deus.

Publicamos aqui o discurso que o monge italiano Enzo Bianchi proferiu no festival bíblico de Vicenza, na Itália, nessa quinta-feira, 24. O artigo foi publicado no blog Sperare per Tutti, 23-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Expressar gratidão ao cardeal Carlo M. Martini dentro de um evento dedicado à Esperança das Escrituras que vence o medo significa fazer memória da esperança que o ministério episcopal do grande biblista jesuíta soube despertar não só na Igreja local e na cidade confiada ao seu cuidado, mas também na Igreja universal e na sociedade civil. E isso, justamente graças ao seu conhecimento da Bíblia e da sua familiaridade amorosa com o modo de pensar e de agir exigido pela palavra de Deus.

Além disso, segundo o apóstolo Pedro, o cristão é obrigado a isso e não a outra coisa: a "prestar contas da esperança" que o habita a qualquer um que lhe pedir. E hoje que vivemos em um tempo posto sob o sinal da crise, essa exigência de testemunhar e de inspirar esperança se torna cada vez mais necessário para os cristãos.

A nossa época, de fato, definida por muitos pensadores como a época do "fim" – da civilização ocidental, da modernidade, da cristandade... – é caracterizada pelo sentido da precariedade do presente e da incerteza do futuro, um tempo em que o incógnito que está diante de nós nos assusta pela sua imprevisibilidade e, ao mesmo tempo, pelos horizontes asfixiantes que o caracterizam: o nosso mundo é um mundo que parece fugir do nosso controle e nos impedir de entender para onde estamos indo.

Ora, tudo isso provoca uma angústia profunda, que as muitas situações de guerra, miséria e opressão em ato em várias partes do mundo só confirmam e que a crise econômica e financeira que assola o Ocidente transforma para muitas pessoas em desespero no cotidiano.

Mas, então, o que significa esperar? E de qual esperança as Escrituras são portadoras? E, ainda, a esperança pode vencer o medo? Justamente a partir do medo podemos esboçar uma reflexão: em profundidade, cada um de nós é presa de dois "medos-mãe", dos quais descendem todos os outros: o medo da morte e o medo de Deus.

Movido pelo medo da morte, o ser humano busca preservar sua própria vida por todos os meios, possuir para si os bens da terra, dominar os outros. Ele pensa que, desse modo, assegura para si uma vida abundante, acredita que pode combater a morte com a autoafirmação e chega a considerar razoável e justo todo comportamento finalizado a esse objetivo, mesmo ao custo de prejudicar os outros e até mesmo a si mesmo. E assim acaba inevitavelmente por percorrer caminhos de morte... É aquela tendência egoísta que a tradição cristã indicará como philautia ("amor-próprio"), que leva a contradizer a comunhão desejada por Deus e a viver sem os outros, contra os outros.

Por outro lado, desde o início da história, o ser humano tem medo de Deus, um Deus do qual o próprio ser humano forja imagens perversas e recalcitra no fato de crer à revelação de um Deus que não pune e não castiga, que não quer a morte, mas sim a vida do pecador, porque é um Deus que é amor.

Ora, o anúncio do evangelho, a boa notícia trazida por Jesus de Nazaré nos indica com clareza e simplicidade o caminho para lutar vitoriosamente contra o medo da morte e o medo provocado por um rosto perverso de Deus, um rosto "inimigo das pessoas": o caminho da esperança consiste em "manter os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé" (Hb 12, 2) e amar os irmãos até o fim, como ele os amou.

De fato, Jesus venceu a morte através do amor mais forte do que a morte, mais tenaz do que o inferno e assim nos abriu o caminho para uma vida com Deus, para sempre, naquela confiança alegre que nada e ninguém jamais nos poderá separar. É por isso que, no coração do cristianismo, está a Páscoa, ou seja, o evento da ressurreição de Jesus, aquele que "com a sua morte venceu a morte". É por isso que, ainda hoje, assim como nos primeiros séculos, os cristãos deveriam se definir como "aqueles que não têm medo da morte".

E desse anúncio de esperança, ousado também "contra toda esperança", as Escrituras são portadoras, palavras de vida e pela vida. Certamente, a esperança cristã na vida eterna, na vida plena não mais deturpada pela morte, é paradoxal. Mas esse paradoxo se fundamenta na ressurreição de Jesus Cristo ocorrida de uma vez por todas, a única esperança à qual podemos nos aferrar firmemente.

Há uma passagem no Novo Testamento que expressa de modo emblemático a inaudita esperança cristã: aquela que narra a "descida aos infernos" de Jesus Cristo. No tempo que decorre entre a sua morte e a sua ressurreição, Jesus foi proclamar a salvação nos infernos, através de um anúncio eficaz, cumprido na força do Espírito Santo: "Cristo – lembra a a Primeira Carta de Pedro – padeceu uma vez por todas pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de os reconduzir a Deus, levado à morte na sua carne, mas recebeu vida no Espírito; e no Espírito foi levar o anúncio da salvação aos espíritos aprisionados" (1Pd 3, 18).

Se Jesus chegou àqueles que estavam lá onde não há esperança, onde só há desespero, significa que já não existe mais nenhuma situação humana que não pode ser salva pelas energias do Ressuscitado! A salvação de Jesus chega até o inferno, lá onde aparentemente não há mais esperança: verdadeiramente, a morte não é a última palavra; verdadeiramente, diante de cada um de nós, se abre a grande esperança da salvação por todos e para todos.