22 Mai 2012
O mercado tem dúvidas sobre os efeitos que as medidas anunciadas ontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, terão na economia nos próximos meses. Ao contrário de 2008, quando o governo anunciou pacote semelhante, hoje o consumidor brasileiro está mais endividado, afirma o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicola Tingas.
A reportagem é de Renée Pereira e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 22-05-2012.
Segundo ele, naquela época, havia mais espaço de alavancagem porque a renda do consumidor não estava tão comprometida como agora. "As medidas vão ampliar o consumo, mas não sabemos em qual escala isso se dará. Imagino que quem ainda tem renda disponível poderá trocar o carro atual ou comprar um novo para o filho."
Tingas diz que um dos principais problemas é o desconhecimento do mercado sobre as classes C, D e E. "Não sabemos ao certo qual é o tamanho do endividamento desses consumidores. Alguns estão se reestruturando. Outros não." De qualquer forma, ele avalia como positivas as medidas adotadas pelo governo para estimular o Produto Interno Bruto (PIB).
O economista Roberto Luis Troster, professor da USP e PUC-SP, acredita que o efeito será positivo, mas limitado. "Em vez de 2,7%, vamos crescer 3,1% ao ano. Enquanto isso, a China, em desaceleração, vai crescer 8%. Temos condições para avançar mais." Na avaliação dele, as medidas adotadas pelo governo são pontuais e reativas. "É uma coisinha de nada, marginal."
Para Troster, o Brasil precisa ter coragem de ir mais além, de fazer uma reforma profunda para ter um resultado mais consistente. Um dos exemplo, diz ele, é a questão dos juros. "Os bancos estão reduzindo suas taxas por causa da pressão do governo. Mas, na outra ponta, estão elevando o valor dar tarifas cobradas do consumidor. Enquanto o IPCA avançou 0,68% em abril, os serviços bancários cresceram 1,4%, mais que o dobro."
Na opinião do economista, no mundo globalizado como o atual, é preciso usar políticas diferentes de quando a economia era fechada. Ele cita alguns problemas que precisam ser atacados para melhorar a competitividade das empresas brasileiras e, consequentemente, gerar mais renda para o brasileiro. Uma delas é a burocracia. "Abrir uma empresa no Brasil demora 15 vezes mais tempo do que no Chile."
Outro entrave é a burocracia tributária. A cada hora, cinco novas regras tributárias chegam à contabilidade das empresas brasileiras. Levantamento recente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra que as empresas gastam R$ 19,7 bilhões só com a burocracia do sistema tributário. "A produtividade da economia brasileira é muito baixo. Temos de focar na eficiência", diz Troster.