Por: André | 10 Dezembro 2011
O Governo irlandês ordenou uma investigação independente para determinar de que maneira o prestigioso programa de televisão nacional Prime Time Investigates acusou falsamente, em maio passado, um sacerdote missionário irlandês de ter violentado uma jovem (menor de idade) no Quênia, em 1982, de tê-la engravidado e de ter enviado dinheiro de forma secreta para manter a criança. A investigação está a cargo da Autoridade de Radiodifusão da Irlanda.
A reportagem é de Gerard O’Connell e está publicada no sítio Vatican Insider, 08-12-2011. A tradução é do Cepat.
O Governo começou a agir depois que a companhia nacional de rádio e televisão (Radio Telefis Eireann – RTE) se desculpara publicamente com o padre Kevin Reynolds (65 anos) após um acordo extrajudicial ratificado no Supremo Tribunal de Dublin no dia 17 de novembro. A RTE admitiu que a história era falsa, e fez um acordo para pagar uma significativa quantia em dinheiro ao sacerdote – cerca de um milhão de euros.
O caso tem várias dimensões importantes. Em primeiro lugar, implicou a difamação de um sacerdote inocente em um dos programas de maior audiência da televisão nacional, em um momento em que o abuso de menores é considerado o pior crime no país. Em segundo lugar, prejudicou gravemente o sacerdote, sua família, os missionários irlandeses e a credibilidade da Igreja, já bastante arranhada pelo escândalo. Por último, se bem que não por isto menos importante, minou a credibilidade do jornalismo de investigação na Irlanda.
Tudo começou quando o programa de jornalismo de investigação mais importante da televisão irlandesa, o Prime Time Investigates, conduzido pela respeitada jornalista Aoife Kavanagh, estava terminando o informe sobre sua investigação das provas de abuso sexual de menores por parte de missionários irlandeses na África.
Nesse momento, a credibilidade do Prime Time estava no seu pico máximo de audiência no país. "Nenhuma outra equipe de jornalistas havia contribuído tanto para desmascarar o grande escândalo (de abuso sexual de menores) na Irlanda", segundo Patsy McGarry, correspondente para assuntos religiosos do The Irish Times.
Uma série documental States of Fear, transmitida entre abril e maio de 1999, expôs o abuso de menores em orfanatos, escolas industriais e reformatórios na Irlanda (entre as décadas 30 e 70). Por conta disso, o Governo criou uma comissão, mandou fazer uma investigação que resultou na publicação do Relatório Ryan (maio de 2009). Depois, em outubro de 2002, seu programa Cardinal Secrets se concentrou sobre o abuso sexual de menores na arquidiocese católica de Dublin. Isto também levou a que o Governo criasse outra comissão que investigou o problema e apresentou o Relatório Murphy (novembro de 2009).
Em 2011, enquanto a equipe do Prime Time estava investigando o suposto abuso de menores por parte de missionários irlandeses na África, obteve a informação de que o padre Kevin Riynolds havia violentado e engravidado uma jovem (então menor), identificada como Veneranda, enquanto trabalhava como sacerdote missionário de Mill Hill no Quênia, e que desse ato teria nascido uma menina, chamada Shelia. A equipe também acusou o sacerdote de ter proporcionado fundos, de forma sigilosa, para a educação da criança.
Antes de finalizar o programa, o Prime Time procurou o padre Reynolds, que se encontrava trabalhando como sacerdote em uma paróquia em Ahascragh, Galway, no oeste da Irlanda. O jornalista o entrevistou depois da missa anual de Primeira Comunhão, no dia 07 de maio de 2011, e o confrontou com as acusações anteriormente mencionadas. O sacerdote declarou energicamente sua inocência e negou as acusações de imediato.
Entre essa entrevista e a transmissão do programa, o padre Reynolds, através de seus advogados, negou mais uma vez as acusações e pediu ao Prime Time que não transmitisse a entrevista, e se propôs a fazer um exame de paternidade para provar sua inocência.
No dia 18 de maio, um jornalista do Prime Time informou aos advogados do padre Reynolds que contava com uma fonte externa confiável e com outras provas independentes, inclusive o fato de que o sacerdote havia financiado a educação da suposta filha.
Uma vez mais, o sacerdote negou as acusações através de seus advogados. Além disso, no dia 20 de maio, a RTE recebeu um correio eletrônico do bispo Philip Sulumeti, da diocese de Kakamega (Quênia) – na qual o padre Reynolds havia trabalhado –, no qual o descrevia como "um sacerdote exemplar" e negava as acusações.
O Prime Time, no entanto, fez caso omisso destas afirmações e levou o programa ao ar na televisão nacional na noite de 23 de maio de 2011. Aproximadamente 500.000 pessoas assistiram ao programa intitulado A Mission to Prey, que afirmava tratar sobre o suposto abuso de menores por parte de missionários irlandeses na África, a quem acusava de ter abusado de seus cargos para aproveitar-se impunemente dos pobres e dos vulneráveis.
Em uma parte, o programa acusou o padre Reynolds de ter violentado uma jovem, Veneranda (na época menor de idade), de ter tido uma filha chamada Shelia e depois de ter proporcionado recursos econômicos para a sua educação. O programa apresentou entrevistas com a mãe e a filha como prova. Além disso, colocou no ar a entrevista na qual o padre Reynolds negava as acusações, e o narrador relatou que o sacerdote se propôs a fazer um exame de paternidade.
As acusações ao padre Reynolds também foram discutidas no dia seguinte, 24 de maio, no Morning Ireland, um programa popular de rádio, para uma audiência de 338.000 pessoas. A história tomou as manchetes de todo o país e ultrapassou as fronteiras.
Depois da transmissão, o ministro da Justiça da Irlanda, Alan Shatter, expressou sua "repugnância" frente ao abuso de menores revelado no programa. Contatou o comissionado da Guarda (polícia) dizendo-lhe que as pessoas tinham o direito de saber que se estava fazendo todo o possível para combater este "mal", onde quer que se produzisse.
A União Missionária Irlandesa, que representa 1.080 missionários irlandeses que trabalham na África, fez uma declaração para "condenar incondicionalmente qualquer crime de abuso ou mau comportamento, no país ou fora dele, que leve ao abuso de crianças ou de adultos vulneráveis".
No tribunal da opinião pública, o padre Reynolds havia sido julgado e condenado como um criminoso, um pederasta e um violador. O bispo o afastou de seu cargo como sacerdote de uma paróquia e Reynolds teve que deixar sua casa.
Apesar de ser visto como um desgraçado pelas pessoas, o padre Reynolds tinha em seu coração a convicção de ser completamente inocente e decidiu responder. Iniciou ações legais por difamação contra a poderosa emissora estatal (RTE) e levou seu caso ao Supremo Tribunal de Dublin.
No dia 23 de junho de 2011, o padre Reynolds informou a RTE que se submeteria a uma análise de paternidade para provar sua inocência; não obstante, no dia 30 de junho a RTE disse que não retiraria as acusações apresentadas no programa. A análise de paternidade proporcionou uma prova conclusiva de que o padre Reynolds não era o pai da menina.
O sacerdote entrou depois uma ação judicial por difamação contra a RTE para reivindicar seu bom nome e reputação, mas a companhia estatal continuou defendendo firmemente sua posição, fazendo valer seu direito de transmitir o programa por ser de interesse público.
No dia 28 de setembro, no entanto, a RTE reconheceu que havia cometido o que o diretor geral, Noel Curran, depois descreveria como "um dos erros de redação mais graves" da história da emissora. A emissora chegou a um acordo extrajudicial com o sacerdote, aceitou pedir desculpas públicas e pagar uma significativa indenização por danos. O Supremo Tribunal foi notificado a respeito no dia 17 de novembro.
Depois, a RTE transmitiu uma desculpa pública por rádio e televisão, na qual admitiu a difamação e disse que as acusações eram "falsas e infundadas". Disse que o padre Reynolds "era completamente inocente" e o descreveu como "um sacerdote de suma integridade que teve uma carreira intocável de 40 anos no sacerdócio" e que havia dado "uma valiosa contribuição à sociedade no Quênia e na Irlanda".
Em uma entrevista realizada no mesmo dia, o padre Reynolds disse que não estava buscando "vingança nem condenações" da RTE em consequência do programa, mas acrescentou que "as pessoas com autoridade, aquelas encarregadas de tomar decisões na RTE terão que arcar com as consequências".
Em uma entrevista anterior na Shannonside FM Radio, recordando o dia em que teve que se afastar do seu ministério e deixar sua paróquia, disse: "Senti que tudo aquilo em que acreditava fora destruído, mas agora me sinto muito aliviado pelo fato de que tenha acabado. Foi uma experiência horrível e devastadora; muito, muito dolorosa; não apenas para mim, mas para a minha família e para a minha paróquia".
Como cristão, disse: "não tenho dificuldades para dizer aberta e sinceramente que perdoo àqueles que me infligiram esta dor".
A RTE, por sua vez, suspendeu o programa Prime Time e ordenou, além disso, "uma revisão interna completa", assim como uma "revisão externa" supervisionada pelo defensor da Imprensa. Espera-se que estas revisões apresentem suas recomendações antes do dia 15 de dezembro.
A maioria das pessoas, no entanto, está esperando o relatório da investigação independente que o Governo irlandês ordenou no dia 22 de novembro "para determinar os verdadeiros fatos e circunstâncias" que levaram à transmissão do programa do Prime Time sobre o padre Reynolds em maio.
A investigação está a cargo da Autoridade de Radiodifusão da Irlanda, que apresentará suas descobertas ao Governo antes do final de janeiro de 2012.