08 Novembro 2011
Continuará sendo do interesse nacional irlandês manter contato e diálogo diplomáticos com a Igreja Católica em nível internacional. As boas relações também devem ser mantidas com os representantes do Vaticano na Irlanda, por causa do seu papel na educação, na saúde e na orientação espiritual dos cidadãos.
A afirmação é do editorial do jornal The Irish Times, 05-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Há pouca dúvida de que o relatório Cloyne sobre os abusos sexuais clericais infantis, as trocas altamente incriminatórias entre o Taoiseach [primeiro-ministro] e o Vaticano sobre a interferência injustificada neste Estado e a retirada do núncio papal, tudo isso contribuiu para o fechamento da embaixada da Irlanda junto à Santa Sé. Difíceis circunstâncias fiscais podem ter fornecido uma justificação oficial para a decisão, mas ela cobriu um gelo profundo nas relações entre a Igreja Católica e o governo.
Uma revisão das missões diplomáticas da Irlanda está em curso há alguns anos, e o relatório McCarthy recomendou que o número de embaixadas deve ser reduzido de 75 para 55. Em vez de embarcar em um redimensionamento tão radical, no entanto, o ministro dos Assuntos e Comércio Exteriores, Eamon Gilmore, anunciou o fechamento das missões no Irã, Timor Leste e Santa Sé. Vestindo seu chapéu de ministro do Comércio, ele falou da necessidade de desenvolver laços comerciais, observando que a Santa Sé, uma das missões mais antigas da Irlanda, não deu nenhum retorno econômico.
Uma missão diplomática junto à Santa Sé foi uma das primeiras estabelecidas pelo Estado irlandês em 1929, e o reconhecimento, a informação e os contatos que ela trouxe foram muito valorizados. Os tempos e as atitudes públicas mudaram, no entanto, e a influência da Igreja Católica na Irlanda tem decaído. A Irlanda se tornou membro da União Europeia, com relações comerciais e contatos diplomáticos por todo o globo. Nos últimos anos, a recessão e os termos do resgate da UE/FMI exigiram cortes significativos nos gastos do governo. O equilíbrio e a extensão dessas mudanças foram indicados na última sexta-feira, 4 de novembro, no plano fiscal de quatro anos do governo e podem ofuscar essa decisão.
A decisão de fechar a embaixada não representa uma rescisão formal dos contatos. O governo irlandês pretende manter relações diplomáticas formais com a Santa Sé e nomear como embaixador o secretário-geral do Departamento de Assuntos Exteriores, que vai atuar desde Dublin. Uma atitude semelhante foi expressa em Roma, onde um porta-voz observou que o que era importante era uma continuação nas relações diplomáticas entre a Irlanda e a Santa Sé. Essa cuidadosa linguagem que aborda o "grande quadro" representa algo como um exercício de limitação de danos.
Não há como escapar de um declínio no "poder do báculo" que está refletido na decisão do governo irlandês. O cardeal Séan Brady deu voz a esse aspecto quando manifestou "profundo desapontamento" com um desdobramento que, segundo ele, mostrou pouca consideração pelos laços históricos entre o povo irlandês e a Santa Sé ao longo de muitos séculos. Outros buscaram vincular o fechamento com um ataque do Partido Trabalhista contra a Igreja Católica e o seu controle sobre as escolas nacionais.
Tal linguagem "conspiratória" tem pouca relevância. Continuará sendo do interesse nacional manter contato e diálogo diplomáticos com a Igreja Católica em nível internacional. As boas relações também devem ser mantidas com os representantes do Vaticano na Irlanda, por causa do seu papel na educação, na saúde e na orientação espiritual dos cidadãos.