Irlanda. Uma reaproximação com o Vaticano ainda é possível

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09 Setembro 2011

Enda Kenny, premier da Irlanda, deve demonstrar, na qualidade de líder de um partido com fortes vínculos com a Igreja, suas acusações sobre as interferências do Vaticano.

A reportagem é de Paul Cullen, publicada no sítio The Irish Times, 06-09-2011. A tradução é de Benno Dischinger.

Numa certa altura, em seu histórico discurso ao Dáil sobre o Relatório Cloyne no mês de julho passado, Enda Kenny havia afirmado que a resposta instintiva do Vaticano referente aos casos de abusos com menores tinha sido a de "analisar e re-analisar com o olhar agudo de um advogado canonista". A julgar pelas 25 páginas de resposta  enviadas ao governo irlandês pela Santa Sé – umas 11.000 palavras – parece que os advogados do Vaticano ainda estejam trabalhando com os extraordinários. Enquanto o documento conclui com expressões de dor e lástima pelos casos de abuso que se verificaram, seu núcleo central é inteiramente dedicado a uma rejeição amplamente circunstanciada das acusações formuladas pelo governo.

Todavia, por força de sua refutação detalhada das acusações lançadas pelo primeiro ministro e por seu vice durante o verão, devolve-se a bola ao campo dos acusadores.

A resposta do Vaticano pede, em boa substância, a ambos os homens políticos que substanciem as afirmações que pronunciaram contra a religião dominante em seu país.

Eamon Gilmore precisou ontem que não tem nenhum interesse em ser envolvido num conflito prolongado de acusação e resposta com o Vaticano, do tipo "esta frase significa que...". Como líder de um partido laico de esquerda, ele talvez pudesse permitir-se adotar esta conduta, com a certeza que possa funcionar bem perante sua base eleitoral.

O Primeiro Ministro, ao invés, é chamado a enfrentar um desafio diverso, de natureza tanto pessoal como política.

É um católico praticante convicto e este fato dá às suas críticas do passado mês de julho uma força particular. Ele também é o líder de um partido conservador, tradicionalmente de centro-direita e com estreitos vínculos históricos com a Igreja. Como tal, ele não pode simplesmente remover a crítica implícita à sua posição, contida na resposta do Vaticano.

É, além disso, chamado a prestar atenção às palavras do arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, quase uma voz solitária no interior da Igreja em sua crítica às respostas aos abusos dadas pelos seus "colegas".

O arcebispo Martin, pelo menos nesta ocasião, se enfileirara com o Vaticano na reivindicação da falta de provas a algumas das observações de Kenny.

Na parte mais explícita de seu discurso ao Dáil, o Premier havia acusado o Vaticano de diminuir ou "gerir" os estupros e os crimes contra os menores a fim de defender o próprio poder e a segurança da instituição.

Curiosamente, a resposta do Vaticano não faz nenhuma referência a esta afirmação: a "palavra estupro" não aparece em nenhuma parte do documento. Ela, todavia, responde detalhadamente à implícita acusação de Kenny segundo a qual o relatório Cloyne mostraria a tentativa, da parte da Santa Sé, de "frustrar uma investigação de um Estado soberano e democrático: há não mais de três anos, não há três décadas".

O Vaticano responde a esta acusação negando algo de que não foi acusado.

Afirma que o Relatório Cloyne e seus precedentes não contêm nenhuma prova que demonstre que o Vaticano se tenha "envolvido nos negócios internos do Estado irlandês", ou que tenha sido envolvido na gestão cotidiana da Igreja irlandesa em relação aos casos de abuso.

Mas, o que o relatório Cloyne diz, ao invés, muito claramente é que o Vaticano "deu conforto" àqueles que, no interior da Igreja irlandesa, dissentiam da linha acordada sobre a gestão dos casos de abuso sexual entre as fileiras do clero. Sua posição teria dado a cada bispo irlandês a liberdade de ignorar os procedimentos acordados – lê-se no relatório – uma acusação bastante próxima à de "ingerência" nos negócios irlandeses. O relatório também evidenciou a falência do Vaticano em cooperar plenamente com as indagações estatais.

Pouco após aquele discurso, o Times irlandês solicitara ao Primeiro Ministro, através de um porta-voz, dizer a que se referia quando havia citado um evento de "há três anos. A resposta foi que não se referia a um fato específico, mas que era antes um modo de dizer para indicar um tempo aproximado.

Em sua resposta o Vaticano pôs em evidência este esclarecimento, mas não fornece nenhuma informação sobre o tratamento dos casos de abuso de Cloyne, que foram transmitidos à Congregação para a Doutrina da Fé. Como sublinha o relatório, quatro casos têm sido transmitidos a Roma: num caso, o padre faleceu entrementes, enquanto não se sabe nada quanto à conclusão sobre os outros três casos.

Não obstante o fato de o governo irlandês e o Vaticano parecerem estar ainda em panos quentes, há motivos de esperança de um resultado satisfatório desta diatribe. Em seu discurso ao Dáil, Kenny havia procurado obter de Roma a confirmação de se impor o respeito da parte de todas as autoridades da Igreja quanto à obrigação no sentido de se indicar os casos de suspeita de abuso, tanto passados como presentes, às autoridades do Estado.

Ao responder a esta solicitação, o Vaticano usa várias expressões. Afirma que todos os cidadãos, incluídos os membros da Igreja, são indivíduos responsáveis perante as leis do Estado em matéria de abusos sexuais. Em outra passagem se afirma que nos casos que envolvem eclesiásticos, "as autoridades eclesiásticas devem colaborar com as do Estado, e não obstaculizar o percurso legítimo da justiça". Mais adiante se diz, no documento, que a Santa Sé espera que os bispos irlandeses cooperem com as autoridades civis para assegurar a "plena e imparcial aplicação das normas de segurança dos menores no interior da Igreja na Irlanda".

Podem existir nesta declaração elementos ainda obscuros e também alguma reserva mental, mas eles parecem igualmente ser a base sobre a qual possa ser construída uma plataforma para um acordo sobre o futuro tratamento dos casos de abuso sexual, quaisquer que tenham sido as falhas no passado, tanto da Igreja irlandesa como do Vaticano.