O caminho para a recolonização de Cuba. Artigo de Rafael Rojas

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09 Junho 2026

A ofensiva de Washington contra Cuba – sanções, bloqueio energético, acusação formal contra Raúl Castro – responde a uma lógica de absorção: o objetivo parece ser a preservação de parte da elite que controla a ilha, integrada a uma rede de investimentos estadunidenses, sem que a sociedade cubana tenha voz ou voto nessa deriva recolonial.

O artigo é de Rafael Rojas, publicado por Nueva Sociedad, junho de 2026.

Rafael Rojas é historiador e ensaísta cubano radicado na Cidade do México. Seu livro mais recente é "A Árvore das Revoluções: Ideias e Poder na América Latina" (Taurus, 2021). É professor e pesquisador do Centro de Estudos Históricos do El Colegio de México.

Eis o artigo.

124 anos após a fundação da República de Cuba, sob um sistema de soberania incompleta, os Estados Unidos estão mais uma vez impondo seus termos à experiência histórica da ilha. O que foi anunciado nas últimas semanas — celebrado em Miami como uma libertação e denunciado em Havana como um ato de agressão — assemelha-se à sondagem grosseira de uma fusão empresarial.

O conglomerado militar Grupo de Administración Empresarial SA (Gaesa) — uma holding criada na década de 1990 sob o controle dos militares e que atualmente opera nos setores de turismo, importação, telecomunicações e zonas francas — é, na prática, o núcleo econômico do Estado cubano. É por isso que as sanções mais recentes de Washington o têm como alvo. Essas sanções também visam 11 funcionários do governo cubano e a família do presidente Miguel Díaz-Canel. Além disso, Raúl Castro foi indiciado pelo Ministério Público dos Estados Unidos para o Distrito Sul da Flórida pelo abate, há 30 anos, de dois aviões pertencentes à organização Irmãos ao Resgate. Essas são acusações cuja manipulação política é evidente, com um efeito coercitivo muito real sobre Havana, especialmente após a prisão de Nicolás Maduro na residência presidencial.

Contudo, este conjunto de medidas não visa tanto à aniquilação dessa elite — que não é pequena nem facilmente substituível — mas sim à absorção ou integração de pelo menos parte dela num esquema de investimentos e empréstimos originários dos Estados Unidos, com forte componente cubano-americano. Isso é sugerido pelas conversas secretas e inconclusivas entre os dois governos: nelas, o lado cubano demonstrou interesse em investimentos diretos, com 100% de capital privado, em portos, mineração, turismo, energia e setor bancário. Pressão punitiva e negociação são, nesse sentido, duas faces da mesma moeda.

O ataque às áreas controladas pela Gaesa, aliado à crise energética do país, levou a um êxodo sucessivo de empresas associadas ao conglomerado. Após a mineradora canadense Sherritt, as redes hoteleiras Iberostar, Meliá e Blue Diamond, assim como as multinacionais Visa e Mastercard, anunciaram sua saída, paralisando efetivamente mais da metade do império turístico de Gaviota, uma das subsidiárias da Gaesa. O turismo, principal fonte de renda da economia cubana, que já havia registrado queda de 55% até 2025, poderá sofrer uma redução de mais de 70% até o final deste ano.

A interrupção do turismo e das remessas de dinheiro completa o bloqueio petrolífero contra uma economia cada vez mais dependente e improdutiva. Nos últimos cinco meses, os Estados Unidos vêm exercendo controle energético de fato sobre Cuba. Após a ordem executiva de 29 de janeiro de 2016, Washington conseguiu impedir o fluxo regular de petróleo para a ilha proveniente do México e da Rússia. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estabeleceram uma espécie de canal energético paralelo: a autorização de certas exportações de petróleo e gás para Cuba exclusivamente para empresas privadas e indivíduos, sob a chamada Exceção de Licença SCP, que exclui expressamente qualquer transação envolvendo o governo cubano ou suas instituições. Em outras palavras, o governo Trump elaborou uma estratégia que contorna o Estado cubano e beneficia diretamente o setor privado. Na prática, os Estados Unidos podem, assim, se tornar o principal obstáculo e fornecedor da escassa energia que chega à exausta população cubana. De fato, também são o principal vendedor de medicamentos e alimentos, superando em muito os carregamentos de ajuda humanitária provenientes da China, Rússia, Espanha, México, Brasil, Colômbia ou Uruguai.

Raúl Castro tem 95 anos e, desde a sucessão que colocou Miguel Díaz-Canel na presidência, não ocupou nenhum cargo formal no Estado, no governo ou no partido. Seu sucessor é um político nascido após a Revolução de 1959, que assumiu o poder com a nova Constituição de 2019. No entanto, essa sucessão nunca foi totalmente credível, nem dentro nem fora da ilha.

A tensão está ligada à ideologia conservadora do regime cubano. A sucessão de fato ocorreu, mas o maior poder de decisão permaneceu concentrado em uma nova elite militar, empresarial e burocrática que emergiu de duas instituições controladas por décadas por Raúl Castro: o Partido Comunista e as Forças Armadas Revolucionárias (FAR). Essa reprodução de cima para baixo foi reforçada pela retórica de continuidade — "nós somos a continuidade", repetia Díaz-Canel com orgulho — do próprio sucessor.

A ideologia oficial cubana não só preservou intacta a narrativa da relevância contínua da Revolução, como a reforçou à exaustão nos últimos anos. Em um contexto de realidade em ruínas, teceu-se uma narrativa simbólica que tentava ressuscitar Fidel Castro e apresentar seu irmão Raúl como um político diferente daquele que foi no poder. Suas tentativas de reforma entre 2011 e 2013 e sua normalização diplomática com Barack Obama entre 2014 e 2016 foram ofuscadas por essa narrativa de continuidade.

Embora a depressão irreversível de todos os indicadores econômicos e sociais a partir de 2018 tenha afetado o governo Díaz-Canel, este tornou-se cada vez mais repressivo e intolerante a protestos populares, dissidência artística e intelectual, ativismo feminino, comunidades LGBTI+ ou afrodescendentes, e vozes a favor de alguma abertura dentro da estrutura de poder, numa guinada contrarreformista que coincidiu com a ascensão do trumpismo nos Estados Unidos.

A acusação criminal de Raúl Castro ocorre em meio ao colapso da ilha, ao bloqueio energético, à dependência de fato dos Estados Unidos e ao ressurgimento do intervencionismo hemisférico em Washington, decorrente da retomada da Doutrina Monroe (ou Doutrina Donroe, como é chamada em referência a Donald Trump). Após a captura e o julgamento de Maduro em Nova York, o desmantelamento do bloco bolivariano deixou apenas Cuba de pé, um país sem um plano de transição.

A paralisia na ilha, reconhecida pelo próprio governo de Díaz-Canel, abriu a possibilidade de negociações entre Washington e Havana. Representantes de ambos os governos se reuniram pelo menos três vezes entre fevereiro e maio de 2026. Com as sanções contra a Gaesa e o processo judicial contra Raúl Castro, a pressão atingiu seu ápice, justamente antes da finalização do acordo ou de uma escalada ainda maior e irreparável no Caribe.

A estratégia dos Estados Unidos é nada menos que integrar Cuba a uma vasta rede de indústrias extrativas caribenhas. Trump deixa isso claro ao incentivar a venda de ativos da mineradora canadense Sherritt — que extrai níquel e cobalto em Cuba desde a década de 1990 — para a Gillon Capital, um fundo de investimento ligado a Ray Washburne, ex-funcionário de seu próprio governo. Se o negócio for concretizado e a Sherritt passar a ser controlada majoritariamente pelos Estados Unidos, a empresa poderá solicitar uma autorização especial do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) para operar na ilha, uma opção viável considerando os minerais estratégicos envolvidos, como níquel e cobalto. O embargo não seria suspenso; simplesmente deixaria de se aplicar aos novos proprietários. O que por décadas foi um instrumento de pressão política se tornaria, na prática, uma alavanca para acesso preferencial ao capital americano.

Do lado cubano, a presença do neto de Raúl Castro, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, popularmente conhecido como "El Cangrejo" (O Caranguejo), em diversas tentativas de diálogo entre os governos dos EUA e de Cuba nos últimos meses demonstra claramente as tendências dinásticas do regime. Durante anos, o governo da ilha negou a existência de um clã familiar e insistiu na força de suas instituições. Mas o papel de destaque de Rodríguez Castro em todo esse processo parece servir como uma confirmação do poder familiar. Resta saber se essas negociações constituem uma distração, permitindo ao governo da ilha ganhar tempo sem fazer concessões decisivas, ou o ponto de partida para um compromisso genuíno, cujo resultado poderia ser o alinhamento gerencial sugerido nas negociações.

Por ora, nada parece capaz de deter uma recolonização de Cuba pelos EUA, após os longos períodos de dependência histórica da ilha em relação à União Soviética e ao bloco bolivariano. A única coisa que poderia conter as atuais tendências oligárquicas seria aquilo que nenhum dos atores envolvidos vislumbra como resultado: um genuíno empoderamento do povo da República, a restauração da soberania original do povo cubano ou uma transição pacífica para um sistema democrático. Isso exigiria a participação ativa de uma sociedade fragmentada por seis décadas de controle estatal sobre a vida social, exausta por uma crise interminável e sem confiança no futuro.

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