Documentários revisitam a guerra que moldou o Rio Grande. Entrevista com Elvio Alberto Walter

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08 Junho 2026

Quando se fala na Revolução de 1923, a memória coletiva gaúcha costuma evocar chimangos e maragatos, disputas entre caudilhos e episódios de violência que atravessaram gerações. Para o professor e pesquisador Elvio Alberto Walter, entretanto, um dos principais problemas na compreensão desse episódio é justamente a permanência de interpretações simplificadas e, muitas vezes, equivocadas sobre o conflito.

"Ao se falar em chimangos, maragatos ou Revolução de 1923, logo vem o tema da degola. Mas essa prática não ocorreu naquele conflito. As execuções foram coibidas pelos dois lados e muitos prisioneiros eram libertados após os combates. A degola foi uma prática associada à Revolução Federalista de 1893."

Chefe de pesquisa do projeto Ecos de 1923 – A Última Guerra dos Gaúchos, Elvio acredita que a própria importância histórica da Revolução continua sendo subestimada mais de um século depois dos acontecimentos. "A Revolução também é subestimada. Ela foi o estopim para a mudança de um sistema eleitoral e para a criação de uma Justiça Eleitoral."

É justamente essa revisão histórica que orienta a Mostra Ecos de 1923, que será realizada entre os dias 9 e 11 de junho na Cinemateca Paulo Amorim, da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), em Porto Alegre. Reunindo três documentários de longa-metragem dirigidos por Henrique de Freitas Lima, o projeto procura recuperar a complexidade de um conflito frequentemente reduzido a estereótipos políticos e rivalidades regionais. Os filmes são resultado de dois anos de pesquisa realizados entre 2023 e 2025, período em que uma equipe percorreu diferentes regiões do Rio Grande do Sul em busca de documentos, imagens e testemunhos relacionados à guerra civil que opôs partidários de Borges de Medeiros e de Joaquim Francisco de Assis Brasil.

Do arquivo para a tela

O trabalho exigiu um amplo esforço de recuperação documental. Segundo Elvio, a pesquisa começou nos acervos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS) e do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, mas precisou ser ampliada com material proveniente de museus, arquivos públicos, institutos históricos do interior e coleções particulares. "Os filmes não têm narração. São as falas que vão construindo o enredo da história. Minha função foi buscar imagens, documentos, telegramas, mapas, cartas, bilhetes e fotografias da época que pudessem ilustrar esses relatos."

Entre as principais fontes utilizadas estão os jornais A Federação e Correio do Povo, que acompanharam os acontecimentos de 1923 e ajudaram a reconstruir episódios pouco conhecidos da Revolução. "O maior empecilho foi identificar muitas imagens que não têm qualquer referência sobre quem são as pessoas ou os lugares retratados. Estudiosos da Revolução, muitos deles autodidatas, ajudaram muito nesse trabalho."

A partir desse esforço de investigação, os realizadores produziram inicialmente nove documentários dedicados a municípios diretamente ligados ao conflito. Posteriormente, o material foi reorganizado em três longas-metragens que serão exibidos na Mostra e que também servem de base para a futura série Os Caudilhos, atualmente em desenvolvimento.

Para além dos mitos

A revisão de interpretações cristalizadas sobre a Revolução de 1923 tornou-se um dos eixos centrais do projeto. O diretor Henrique de Freitas Lima afirma que a preocupação em evitar simplificações também orientou a construção narrativa dos documentários. "Como tratar com equilíbrio os dois lados e não demonizar figuras como Borges de Medeiros? Seu lado autoritário acabou empanando uma importância histórica fundamental na modernização do estado. Procuramos ouvir diferentes fontes e deixar que o espectador tire suas próprias conclusões."

Embora personagens como Borges de Medeiros, Assis Brasil, Flores da Cunha e Honório Lemes ocupem lugar de destaque na narrativa histórica, os realizadores procuraram lançar luz sobre aqueles que normalmente permanecem à margem dos relatos oficiais. Ao percorrer municípios diretamente envolvidos nos combates, a equipe reuniu depoimentos de descendentes de combatentes, relatos familiares e memórias transmitidas por gerações. Henrique destaca que a escolha da canção Sabe Moço, de Francisco Alves, para a abertura foi também uma homenagem aos combatentes anônimos.

Polarização ontem e hoje

Ao refletir sobre o centenário da Revolução de 1923, Henrique identifica paralelos entre aquele período e a polarização política contemporânea. "A atual polarização é um fenômeno semelhante no que se refere às diferentes narrativas de cada lado e à caracterização dos adversários nas mídias das duas épocas. O que difere é o respeito e a admiração entre lideranças contrárias daquele momento. Hoje temos uma guerra de destruição de reputações e acusações sem comparação."

Embora não tenha sido concebido como material didático formal, o projeto pretende contribuir para ampliar o conhecimento sobre um período ainda pouco explorado nas escolas. "Pensamos os filmes mais como uma ferramenta de motivação para o conhecimento e para o aprofundamento de um tema que ainda é pouco trabalhado nos bancos escolares e frequentemente mal compreendido pela sociedade."

A entrevista é de César Fraga, publicada por Extra Classe, 03-06-2026.

Entrevista com o diretor

A Revolução de 1923 completou seu centenário recentemente. Olhando para o cenário atual, quais os principais "ecos" que você enxerga daquela cultura de polarização e disputa pelo poder na política de hoje?

A atual polarização é um fenômeno semelhante no que se refere às diferentes narrativas de cada lado e à caracterização dos adversários nas mídias das duas épocas. Se o jornal A Federação, dos republicanos, em 1923, alcunhava os revolucionários de "bandoleiros", igual era a retórica do outro lado contra Borges de Medeiros, que mereceu do dissidente e primo Ramiro Barcellos o inesquecível poema satírico Antônio Chimango, de 1915. O que difere, entretanto, é o respeito e a admiração entre as lideranças contrárias daquele momento, como se verifica nas oportunidades em que Honório Lemes teve para matar Flores da Cunha em combate e não o fez. Hoje temos uma guerra de destruição de reputações e acusações sem comparação.

O documentário serve de base para a futura série Os Caudilhos. Como Ecos de 1923 equilibra o protagonismo dessas grandes lideranças com a realidade dos combatentes e da população que viveu o conflito?

Ao escolher como trilha sonora da abertura a clássica canção Sabe Moço, de Francisco Alves, em nova versão com arranjo de Sérgio Rojas e voz de Vitor Hugo, demonstramos nosso respeito a todos os combatentes anônimos que atuaram ao lado das grandes lideranças. No corpo das obras, são fortes os depoimentos de pessoas que perderam familiares e as narrativas sobre episódios envolvendo famílias divididas entre chimangos e maragatos. Isso aparece especialmente nos episódios de Alegrete e São Francisco de Assis.

Documentar um conflito que ainda desperta paixões herdadas entre chimangos e maragatos é um desafio. Como foi o processo de construção da narrativa para escapar dos mitos tradicionais e entregar um olhar crítico sobre a nossa história?

Trata-se, com certeza, do maior desafio enfrentado. E vencido. Como tratar com equilíbrio os dois lados e não demonizar figuras como Borges de Medeiros, por exemplo? Seu lado autoritário, com o tempo, acabou empanando sua importância fundamental como gestor austero e absolutamente honesto que modernizou o Rio Grande do Sul e construiu as bases do que hoje somos. Ouvindo diferentes fontes e recuperando criticamente os fatos, fizemos uma obra que não toma partido e deixa o espectador tirar suas próprias conclusões.

Como foi o processo de triagem, pesquisa e montagem para estruturar esse resgate histórico no formato de uma trilogia? Houve algum tema que acabou ficando de fora no corte final?

O mérito absoluto dessa construção é do montador Rafael Roso Berlezi. Quando discutíamos como exibir os nove episódios locais em Porto Alegre, surgiu a ideia de organizá-los em três longas-metragens. Rafael propôs um agrupamento que cria uma progressão emocional crescente até chegar ao desfecho em Pedras Altas, onde o público encontra algo concreto e simbólico: a restauração do castelo construído por Assis Brasil e o local onde foi firmado o pacto que encerrou o conflito. Acredito que realizamos o mais ambicioso resgate audiovisual já feito sobre esse período da história gaúcha.

Além de registrar o passado, o cinema documental possui uma forte dimensão social e pedagógica. Qual é a principal reflexão que você espera despertar no público?

O documentário produz uma emoção única. Quando realizado com apelo emocional e ritmo narrativo, consegue unir função social, pedagógica e experiência estética. Esperamos que o público conheça melhor um episódio pouco valorizado da história brasileira e se surpreenda com imagens extraordinárias da época, como as registradas pelo cineasta amador Benjamin Camozato. Ver personagens históricos como Honório Lemes, Zeca Netto, Estácio Azambuja e Nepomuceno Saraiva em imagens produzidas durante aqueles acontecimentos é algo impressionante.

Quem eram chimangos e maragatos?

Os chimangos eram os partidários do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), liderado por Júlio de Castilhos e, posteriormente, por Borges de Medeiros. Defendiam um modelo político centralizado, inspirado pelo positivismo. Os maragatos, por sua vez, constituíam a principal oposição ao castilhismo. O termo surgiu durante a Revolução Federalista de 1893 e passou a identificar diferentes correntes oposicionistas. Em 1923, reuniram-se em torno da candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil contra a reeleição de Borges de Medeiros. Apesar das rivalidades e dos confrontos armados, a Revolução de 1923 terminou com o Pacto de Pedras Altas, considerado um marco da conciliação política gaúcha e um antecedente de reformas institucionais que influenciariam a política brasileira nas décadas seguintes.

Serviço

Ecos de 1923 – Mostra de filmes de Henrique de Freitas Lima (documentário em três episódios + debate)
Quando: dias 9, 10 e 11 de junho, às 19h
Onde: Cinemateca Paulo Amorim – Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Porto Alegre)
Entrada franca

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