09 Junho 2026
"As novas demandas por espiritualidade não devem ser consideradas como um afastamento da fé, mas como desafios que interpelam a instituição religiosa e a pastoral", escreve Paola Zampieri, jornalista italiana, em artigo publicado por Settimana News, 06-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o arigo.
Identidades perdidas, mas ainda em busca; desconfiadas em relação à instituição-Igreja, mas abertas ao mistério; indiferentes, mas não hostis; distraídas, mas não fechadas: são os chamados “cristãos do limiar”, mulheres e homens no limiar da fé, pontos de interseção entre uma busca e uma resposta.
É entre essas diferentes formas de crer, que têm dificuldade em se orientar com a bússola da fé tradicional, que se desenvolve o livro de Livio Tonello, O sopro de Deus. Entre os cristãos “do limiar”, publicado na coleção Sophia da Faculdade Teológica do Triveneto, em coedição com as Edições Messaggero de Pádua (Praxis, 23; 190 páginas, € 20,00).

A obra oferece um panorama das análises e reflexões sobre a relação do sujeito pós-moderno com o sagrado, com a religião e com a instituição, partindo da constatação de uma fluidez de pertencimentos, percursos e escolhas. “A liquidez social do Ocidente europeu reflete-se em seu mundo religioso, abalando atribuições e identidades tradicionais”, escreve Tonello.
Se o homem contemporâneo tem dificuldade para se orientar com a bússola da fé tradicional, contudo, “não é menos crente do que antigamente, mas crê de forma diferente; não é menos espiritual, mas não o é dentro de uma instituição; não necessita menos de sinais e ritos, mas é refratário à continuidade”. Parecem pertinentes as categorias de homo viator, religiosus e peregrinus como “ícones de busca e de aproximação diferenciada da realidade divina”.
As novas demandas por espiritualidade não devem ser consideradas como um afastamento da fé, mas como desafios que interpelam a instituição religiosa e a pastoral. Para a Igreja de hoje, é necessário reconsiderar “tanto os sujeitos aos quais se dirige a mensagem evangélica quanto as modalidades de ação necessárias para continuar realizando uma mediação entre o sagrado e o profano”, a partir de uma mudança de paradigma teológico: a Igreja existe para evangelizar, e não para preservar a si mesma. É preciso, então, “perguntar-se o que deixar para trás, o que renovar e quais outras propostas implementar”.
A “Igreja do limiar”, para usar a expressão do Papa Francisco, tem fronteiras indefinidas e é hoje mais do que nunca habitada por pessoas cuja fé apresenta tonalidades variáveis. Por isso, a necessidade de espiritualidade deve ser acolhida nas múltiplas formas em que se manifesta.
“A ação e a sensibilidade pastoral devem ser capazes de construir pontes entre o elemento de verdade da doutrina, da moral e da liturgia, e a subjetividade diversificada daqueles que batem à porta em busca de Deus. Tudo isso não é novo, mas urgente”, sublinha Tonello.
“Novas podem ser algumas práticas que situam a ação pastoral numa perspectiva de abertura para fora (aconselhamento, animação de rua, pastoral urbana), valorizando espaços aparentemente inadequados à pastoral tradicional (praças, peregrinações), ultrapassando o limiar de ações consolidadas e experimentando também, com agentes inéditos (mediadores culturais, missionários da criação, guias turísticos), novas formas de encontro, acompanhamento e provocação para aqueles que se encontram à margem da experiência eclesial ou que são indiferentes. É o terreno do anúncio do Reino — conclui — que abre os limites dos pertencimentos e amplia as fronteiras do cristianismo.”
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